Inscrição

Inscrição

Vejo tanta coisa linda no mundo

Como ouso querer ser bela?

Procuro palavras que possam dizer

O que não sou capaz de pensar

Essas ditas me aprisionam

Em inscrições levianas

Angustia itinerante

Queria um dizer que a arrancasse

Que rasgasse qualquer sentido supérfluo

Que naufragasse subterfúgios

Todos aqueles que me amenizam

Para que eu possa finalmente rodopiar

Jogar expressões ao vento

Até que não precise mais delas.

Palavras. Ah, as palavras.

Invoco todos os dizeres

Despretenciosos

Digam, falem sem parar

Escrevam qualquer bobagem

Até que o inesperado escorra

Lambuzando mentes fixas

Suplico o apagar de silêncios reconfortantes

Direi, sim, o que quer que seja

Dissolverei aquarela

Bela nesse mundo

Nem tanto egoísta

e narcisisticamente assim

Doarei-me ao vazio

Incorrerei em desvios

Sabendo que os dizeres acorrentam-se às palavras

Mas que somente elas podem agitar-se até

Que a cortina caia e o espetáculo aconteça.

Anúncios

Roda-gigante

Roda-gigante

Mariana vivia numa roda-gigante. Girava dia e noite e, por mais voltas que desse, acabava sempre passando pelos mesmos pontos. No ponto mais baixo, quase botava os pés no chão. Nesses dias, era tomada por um profundo tédio. Mas como a roda é implacável em seu girar, Mariana começava a subir. Via o céu e junto com ele a possibilidade de mil coisas! “Agora vai!” Se inclinava em direção ao azul e balançava os pés feito criança. Chegaria ao ponto aonde ninguém jamais chegou! Seus sonhos eram ambiciosos: acreditava no amor que ninguém havia amado. Vivia cenas de cinema e acreditava em todas elas. Aí vinha um vento chato, ou um sol muito forte: “não, não é possível, de novo não”. Sim, de novo estava naquele ponto de começar a descer. Vinha um frio na barriga, que ela amava e odiava. Não é que amasse, era mais um vício. Nessa descida ela sofria, mas se sentia viva como nunca. Chorava, mas sabia estar num patamar diferente de todas aquelas pessoas ali no chão. Pressentia que logo iria passar por uns diazinhos medíocres – até precisava deles para retomar o fôlego – mas sabia que logo começaria a subir e a subir! Que alegria! Acreditaria em tudo de novo.

Pobre Mariana, começou a ficar tonta de tanto girar. Sentia-se extremamente cansada. Olhava as pessoas com os pés no chão e não as invejava: “de que vale a vida assim?” E fincava o pé na roda. Os giros passaram a ser verdadeiros loopings. Já estava descabelada, alucinada, transtornada, enjoada quando foi arremessada ao solo. Sentiu-se humana como nunca: pela primeira vez teve medo de morrer. Caiu na vida. Toda esfolada que estava, teve que se render àquelas pessoas sem graça. E não é que foi amada? Não viu muito bem quando e como o amor começou em sua vida. Não teve holofotes, nem braços fortes, nem um glamour. Foi somente o amor. Aquele que penetra devagarzinho, que de tão leve nos enche de ar e amplia nossa respiração. Olhou para cima e teve pena dos que estavam presos a girar. Olhou para um lado e para outro, viu horizontes de possibilidades. Respirou fundo.

Estrelar

Estrelar

Dividimos um curto espaço de tempo sobre a terra e tão pouco nos entendemos. Camila jurava amar Tiago, que hesitava amá-la do jeito que ela queria. O céu se movimenta, as estrelas vão e vêm, a lua fica cheia e minguante e as pessoas ficam ali, insistindo no mesmo ponto. Camila queria porque queria. Ok, não vamos simplificar as coisas. Ela queria porque via nele o que bem entendia. Tiago se mostrava, suas ações eram o que eram. Camila projetava: via nele a possibilidade de céu estrelado enquanto ele chovia, todos os dias. Como pode ser o mundo tão infinito e uma pessoa tão obcecada numa única outra? Coisa esquisita. Ela insistia, implorava. Ele falava que não queria, até desistia. Ela chorava. Ele voltava. Não ajudava, sempre voltava. Abraçavam-se, até achavam que o tempo parava, mas os anos passavam. Ah, o tempo! Podia ele nos ensinar alguma coisa, mas o que ele faz é passar. Camila esperava o dia em que seu amor pudesse encaixar. Mas esse dia demorava, Tiago até que chegava, ela até que se arrumava, achava que iam bailar. Mas sempre chovia como um balde de água fria. Até que um dia, acho que foi com um rodinho pequeno, ela começou a puxar a água. Teve medo de secar a si mesma. Achou que fosse definhar. Engraçado, mas foi puxando aquela água suja no chão que ela passou a ver estrela no céu. Logo reparou que não estava ficando seca, estava era vendo coisa brilhar. Foi então que falou tchau para Tiago. Ele até chorou, acreditam? Mas não respingou nela não. Camila já estava olhando para cima, pensando no mundão grande em que vivia, em tanto segredo escondido por aí, e resolveu caminhar. Foi quando encontrou todas as estrelas que queria, amou uma a uma e até dançou com elas sob o luar.

Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

O amor

O amor

O amor. Falo daquele que é bem concreto. Não daquele que a gente sente pelos passarinhos, pelo céu azul e por toda a humanidade. Mas daquele que a gente constrói com uma pessoa. Aquele amor que dá para beijar, apertar e cheirar. Dá para olhar para ele e se emocionar. Um amor assim só acontece quando a gente está leve – o amor não suporta caraminholas. Ele é essencialmente descomplicado. Tá, tudo lindo, lindo mesmo, mas o que achei difícil nessa coisa de amar? Primeiro tive que aprender muito. Acho mesmo que a gente não nasce sabendo amar ou, se nasce, a coisa pode complicar, e a gente tem que descomplicar tudo de novo. Somente isso já é um baita percurso, muito individual e árduo. A gente aprende sozinho, curioso, não? Bom, aí a pessoa descomplicou, e é capaz de amar. Aí ela junta com outra que também está preparada para a aventura mais tranquila do mundo. Sim, no começo aquilo tudo: frios e arrepios. Mas depois a vida se aquieta. E aí vem a segunda parte difícil, que não é exatamente a falta da adrenalina e da tensão, esses vícios já cessaram. Mas o amor, o amor tem um senso de realidade muito grande. Ele humaniza. Coloca os pés da gente no chão, e aí vem aprender a viver sabendo que vai morrer. Amar querendo viver. E ele te dá tudo: espaço, tempo, calma, apoio e tranquilidade para uma nova construção de prioridades, vontades e desejos. Aquele lugar que você amorosamente escolheu para viver te acolhe e te fala, vai lá, viver de verdade! Aí é se jogar e se multiplicar. Experimentar e arriscar. Tem noção da maravilha que é isso?

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road

Sonhei que eu e André estávamos no show do Paul MacCartney só que o palco ficava do outro lado – estávamos justamente no fundo do palco. Fomos caminhando aos trancos e barrancos, passando por entre pessoas, lama, cadeiras, lixos e objetos variados. O percurso. A travessia. Não poderia ser mais fácil? Não, não poderia. Ver o show do fundo pode ser incômodo e menos prazeroso, mas não exige o esforço do caminhar. Fica ali aquele lixo entre você e o palco, mas ok, você ouve a música. Agora, deslocar-se de um lugar a outro implica enfrentar o lamaçal, passar por entre objetos antigos, enferrujados, e ir deixando aquilo tudo para trás, abandonando mesmo. Claro que isso é extremamente difícil, afinal, são coisas que estão ali há muito tempo, que embora te limitem em sua movimentação, te localizam no espaço, desde sempre. Mas agora há coragem e desejo de atravessar. Para onde? Não se sabe exatamente. O palco ainda não foi visto de frente, e está tudo tão escuro. Mas quem já desfilou na Sapucaí sabe o que é sair da rua perpendicular e ver os holofotes, ouvir finalmente o samba enredo que você tanto ensaiou. É maravilhoso.

O consultório da psicanálise

O consultório da psicanálise

Entendo o consultório como um espaço meu. É um dos poucos lugares em que posso falar (de mim) sem ser interrompida – por histórias semelhantes, de vidas alheias, por conselhos ou sugestões. É o único lugar em que tenho uma escuta profissional – pensa que escutar é fácil? E há quem ache ruim o silêncio do psicanalista! Acho uma dádiva. Claro, já tive que preencher muitos silêncios com: “então… Então é isso…” Já senti vazios, confissões, confusões. Já me arrisquei a perguntar: do que eu falo agora? Você concorda? Ela dá um sorrisinho e nada. Ai! E agora? Mesmo assim, a última coisa que eu quero é uma psicóloga que me interrompa com uma opinião que é dela, não minha. Ela faz apenas algumas perguntas, frases, sons. Nessa toada fui falando, me confundindo, me esvaziando, me angustiando, me paralisando, não reconhecendo, chorando, palpitando, sonhando, escrevendo, tremendo e, finalmente, nascendo.

“Esta pesquisa, portanto, tem o objetivo de resgatar as contribuições da psicanálise no estudo de um tema tão antigo e tão atual com o da angústia, fundamentando através da teoria e da clínica como ainda é fecundo o ato de falar. Pedindo ao paciente que associe livremente, provocamos a emergência de equívocos e mal entendidos e escutando o saber que dali advém permitimos que os sintomas que comparecem no corpo sejam “esburacados”, desestabilizados, e a partir daí a angústia pode comparecer sinalizando aquilo que o sujeito tem de mais particular, seu desejo mais puro” (Chediak, 2007: 11).

Castração

Castração

Não me lembro sobre como fui parar naquele lugar. Era “eu” espaço depois de uma porta. Somente uma porta e, depois dela, um corredor comprido, e aí salas, cozinhas, espaços mais amplos. Não tinha janelas, não havia como sair dali. Não havia outra opção se não mergulhar na loucura e no que ali acontecia independentemente da minha vontade. Pessoas tendo que entrar em contato com suas dores, pessoas sangrando, pessoas pela metade, quebradas. Numa cena uma atriz transava em pé com um cara. Eu estava vendo. Havia evidências incontroláveis do que eu sentia. Olhavam, apontavam para mim e riam. Eu não queria fazer parte daquilo ao mesmo tempo não havia opção. Não havia controle. Incomodava-me a intensidade da situação e quão desnuda ela era, tão escancarada, tão animal, tão aflorada de sentimentos. Nesse espaço tudo vinha sem floreios. Nesse espaço minha mãe morreu. Não me lembro mais da situação e nem como. Via outras pessoas sofrendo, havia muitas encenações dramáticas nas quais nos envolvíamos. Passei por algumas. Até que comecei a enfrentar as situações desse espaço. Saquei o drama e a intensidade do que era vivenciado ali e que eu tinha que experimentar aquilo. O inconsciente, os sentimentos, estava tudo ali. Quando acabou a sessão a psicóloga disse: acho que você está lidando melhor com a castração. Não entendi, mas fiquei aliviada.

Não tem mais volta

Não tem mais volta

Os Outros começaram a me estranhar. “Não reconheço mais a Virgínia”. Ei, por que você fala como se eu não estivesse aqui? Outro dia ouvi: “Virgínia, não estou te reconhecendo!” Fiquei sem reação. O que você espera de mim? Por que estou ouvindo isso? Eu correspondia à sua expectativa até então? O que mudou? Se eu não estou aqui, quem está?

Achei na casa da minha mãe uma pulseira de quando eu era bem novinha. Coloquei essa pulseira no pulso querendo ser aquela. Mas já havia outra pulsando.

Tirei a pulseira. Melhor não resistir.

“Estamos a todo o momento a mendigar demandas de um Outro, a solicitar que o Outro nos diga o que somos e o que queremos” (Chediak, 2007:55).

Saia de tule

Saia de tule

Quem não fica linda vestida numa saia de tule? Eu estava assim em meu sonho. E veja só, e vou mesmo para Nova Iorque com o marido e com amigos, e lá vou vestir uma saia de tule rosa. Muito feminina. Isso não era minha cara. Nunca fui de me permitir esses prazeres rosados. Tanto que no sonho, tive que subir em cacos de vidro e ficar na ponta dos pés. Cacos do que eu era. Detalhe: de tão leve, nem me machuquei.