Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

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O amor

O amor

O amor. Falo daquele que é bem concreto. Não daquele que a gente sente pelos passarinhos, pelo céu azul e por toda a humanidade. Mas daquele que a gente constrói com uma pessoa. Aquele amor que dá para beijar, apertar e cheirar. Dá para olhar para ele e se emocionar. Um amor assim só acontece quando a gente está leve – o amor não suporta caraminholas. Ele é essencialmente descomplicado. Tá, tudo lindo, lindo mesmo, mas o que achei difícil nessa coisa de amar? Primeiro tive que aprender muito. Acho mesmo que a gente não nasce sabendo amar ou, se nasce, a coisa pode complicar, e a gente tem que descomplicar tudo de novo. Somente isso já é um baita percurso, muito individual e árduo. A gente aprende sozinho, curioso, não? Bom, aí a pessoa descomplicou, e é capaz de amar. Aí ela junta com outra que também está preparada para a aventura mais tranquila do mundo. Sim, no começo aquilo tudo: frios e arrepios. Mas depois a vida se aquieta. E aí vem a segunda parte difícil, que não é exatamente a falta da adrenalina e da tensão, esses vícios já cessaram. Mas o amor, o amor tem um senso de realidade muito grande. Ele humaniza. Coloca os pés da gente no chão, e aí vem aprender a viver sabendo que vai morrer. Amar querendo viver. E ele te dá tudo: espaço, tempo, calma, apoio e tranquilidade para uma nova construção de prioridades, vontades e desejos. Aquele lugar que você amorosamente escolheu para viver te acolhe e te fala, vai lá, viver de verdade! Aí é se jogar e se multiplicar. Experimentar e arriscar. Tem noção da maravilha que é isso?

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road

Sonhei que eu e André estávamos no show do Paul MacCartney só que o palco ficava do outro lado – estávamos justamente no fundo do palco. Fomos caminhando aos trancos e barrancos, passando por entre pessoas, lama, cadeiras, lixos e objetos variados. O percurso. A travessia. Não poderia ser mais fácil? Não, não poderia. Ver o show do fundo pode ser incômodo e menos prazeroso, mas não exige o esforço do caminhar. Fica ali aquele lixo entre você e o palco, mas ok, você ouve a música. Agora, deslocar-se de um lugar a outro implica enfrentar o lamaçal, passar por entre objetos antigos, enferrujados, e ir deixando aquilo tudo para trás, abandonando mesmo. Claro que isso é extremamente difícil, afinal, são coisas que estão ali há muito tempo, que embora te limitem em sua movimentação, te localizam no espaço, desde sempre. Mas agora há coragem e desejo de atravessar. Para onde? Não se sabe exatamente. O palco ainda não foi visto de frente, e está tudo tão escuro. Mas quem já desfilou na Sapucaí sabe o que é sair da rua perpendicular e ver os holofotes, ouvir finalmente o samba enredo que você tanto ensaiou. É maravilhoso.

O consultório da psicanálise

O consultório da psicanálise

Entendo o consultório como um espaço meu. É um dos poucos lugares em que posso falar (de mim) sem ser interrompida – por histórias semelhantes, de vidas alheias, por conselhos ou sugestões. É o único lugar em que tenho uma escuta profissional – pensa que escutar é fácil? E há quem ache ruim o silêncio do psicanalista! Acho uma dádiva. Claro, já tive que preencher muitos silêncios com: “então… Então é isso…” Já senti vazios, confissões, confusões. Já me arrisquei a perguntar: do que eu falo agora? Você concorda? Ela dá um sorrisinho e nada. Ai! E agora? Mesmo assim, a última coisa que eu quero é uma psicóloga que me interrompa com uma opinião que é dela, não minha. Ela faz apenas algumas perguntas, frases, sons. Nessa toada fui falando, me confundindo, me esvaziando, me angustiando, me paralisando, não reconhecendo, chorando, palpitando, sonhando, escrevendo, tremendo e, finalmente, nascendo.

“Esta pesquisa, portanto, tem o objetivo de resgatar as contribuições da psicanálise no estudo de um tema tão antigo e tão atual com o da angústia, fundamentando através da teoria e da clínica como ainda é fecundo o ato de falar. Pedindo ao paciente que associe livremente, provocamos a emergência de equívocos e mal entendidos e escutando o saber que dali advém permitimos que os sintomas que comparecem no corpo sejam “esburacados”, desestabilizados, e a partir daí a angústia pode comparecer sinalizando aquilo que o sujeito tem de mais particular, seu desejo mais puro” (Chediak, 2007: 11).

Castração

Castração

Não me lembro sobre como fui parar naquele lugar. Era “eu” espaço depois de uma porta. Somente uma porta e, depois dela, um corredor comprido, e aí salas, cozinhas, espaços mais amplos. Não tinha janelas, não havia como sair dali. Não havia outra opção se não mergulhar na loucura e no que ali acontecia independentemente da minha vontade. Pessoas tendo que entrar em contato com suas dores, pessoas sangrando, pessoas pela metade, quebradas. Numa cena uma atriz transava em pé com um cara. Eu estava vendo. Havia evidências incontroláveis do que eu sentia. Olhavam, apontavam para mim e riam. Eu não queria fazer parte daquilo ao mesmo tempo não havia opção. Não havia controle. Incomodava-me a intensidade da situação e quão desnuda ela era, tão escancarada, tão animal, tão aflorada de sentimentos. Nesse espaço tudo vinha sem floreios. Nesse espaço minha mãe morreu. Não me lembro mais da situação e nem como. Via outras pessoas sofrendo, havia muitas encenações dramáticas nas quais nos envolvíamos. Passei por algumas. Até que comecei a enfrentar as situações desse espaço. Saquei o drama e a intensidade do que era vivenciado ali e que eu tinha que experimentar aquilo. O inconsciente, os sentimentos, estava tudo ali. Quando acabou a sessão a psicóloga disse: acho que você está lidando melhor com a castração. Não entendi, mas fiquei aliviada.

Não tem mais volta

Não tem mais volta

Os Outros começaram a me estranhar. “Não reconheço mais a Virgínia”. Ei, por que você fala como se eu não estivesse aqui? Outro dia ouvi: “Virgínia, não estou te reconhecendo!” Fiquei sem reação. O que você espera de mim? Por que estou ouvindo isso? Eu correspondia à sua expectativa até então? O que mudou? Se eu não estou aqui, quem está?

Achei na casa da minha mãe uma pulseira de quando eu era bem novinha. Coloquei essa pulseira no pulso querendo ser aquela. Mas já havia outra pulsando.

Tirei a pulseira. Melhor não resistir.

“Estamos a todo o momento a mendigar demandas de um Outro, a solicitar que o Outro nos diga o que somos e o que queremos” (Chediak, 2007:55).

Saia de tule

Saia de tule

Quem não fica linda vestida numa saia de tule? Eu estava assim em meu sonho. E veja só, e vou mesmo para Nova Iorque com o marido e com amigos, e lá vou vestir uma saia de tule rosa. Muito feminina. Isso não era minha cara. Nunca fui de me permitir esses prazeres rosados. Tanto que no sonho, tive que subir em cacos de vidro e ficar na ponta dos pés. Cacos do que eu era. Detalhe: de tão leve, nem me machuquei.

Toma aqui a sua liberdade

Toma aqui a sua liberdade

Não é fácil ser casada com meu marido. Primeiramente tenho que estar preparada para ser amada e somente isso já é muita coisa. Ser tratada com doçura todos os dias, e-v-e-r-y s-i-n-g-l-e d-a-y. Mas todo dia mesmo? Sim, todos os dias. Doçura, respeito e carinho todos os dias. Será possível? Nenhum desaforo? Nenhuma crise machista? Nenhuma acusação, nenhuma censura? Não, nenhuma! Então surgiu um mundo novo. Um homem novo, uma mulher nova. Porque nós mulheres, estamos muito preparadas para adversidades, ah sim… Mas preparadas para o amor? Ah, não é fácil! Posso fazer o que eu quiser, veja só! Cortar o cabelo curtinho (“que coragem, o que seu marido achou?”), ter um desafio novo, o de fazer um blog (“que coragem, o que seu marido acha?”), até amigos homens eu posso ter (“seu marido não tem ciúme?”). Que doido né? Então estou experimentando a maior liberdade da minha vida. Agora é comigo: nenhuma crise machista, nenhuma censura.

A Rainha Má

A Rainha Má

Esse desamparo que eu sinto quando ele se afasta. Até fiquei com raiva e sonhei que ele era feio. Muito feio. Bobo e chato. Fica se envolvendo em projetos. E eu? E a princesa aqui? Ops, princesa não, Rainha! Princesa eu era na época do meu pai… Agora sou uma Sra. Rainha. A Rainha e seu império. A Rainha desamparada… ? A Rainha frágil… ? A Rainha desprotegida… ? Tem alguma coisa estranha nessa história! Rainha não é aquela mulher forte, que age segundo suas próprias convicções e decisões? A Rainha não é uma mulher plena? Ela não precisa de ninguém ao lado dela dizendo como ela é linda. Linda precisa ser a princesa, cabeluda e loira. A Rainha não, ela é mais ela. É bonitona, diferente de ser linda e unânime. Rainha não é unânime. Muitas vezes ela é má. Mas ela é mãe, olha que interessante. E que maldosa ela é às vezes! Maltrata sua cria por vaidade, pura vaidade… Ambiciosa ela, hein? Quer dominar o mundo, veja só que pretensão. Ela não quer encontrar o príncipe encantado. Pelo príncipe procura a princesa. A Rainha já encontrou seu sapo que virou príncipe, ela não se preocupa mais com isso, está ocupada em fazer valer sua vontade. Também não se importa muito com o que vão pensar dela, isso é o de menos. Não quer provar nada para ninguém. Nossa, me apaixonei pelas rainhas. Agora as entendo, e pela primeira vez na vida não quero ser uma princesa. Aliás, essa princesa está me atrapalhando, chegou a hora de liquidá-la, hahaha. Quer saber? Vou levar essa princesa para a floresta, vou deixa-la apagada para sempre, linda e morta.