Vazio

Vazio

Vazio é um buraco que a gente sente bem no peito

Peito que carrega os desejos de quem te amou primeiro

Primeiro amor que não disse a que veio

Veio ensinar e calar o devaneio

Devaneio é o anseio de ser inteiro

Inteiro com um furo bem no meio

Meio que faz do saber não sobranceiro

Sobranceira é a verdade que não aparece no letreiro

Letreiro que se encontra ali no alheio

Alheio que não falta no espelho

Espelho que reflete o desejo

Desejo que lhe vem como despejo

Despejo de dejeto que lhe afeta

Afeta a busca de encontrar o que lhe falta

Falta é um buraco que a gente sente bem no peito.

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Pela Metade

Pela Metade

Estava difícil respirar naquelas páginas em branco. Nenhuma história lhe vinha. Procurava então fora de si: uma cena, alguém que lhe inspirasse. Nada.

Só vinham coisas que julgava não poder escrever naquele momento. Escrevia, apagava, não terminava. O que é o esboço da escrita que nunca acaba?  O que é o conteúdo de uma gaveta trancada? Medo. Mais do que isso: o medo dos outros.

Nisso consistia o que não terminava. Por outro lado, aquilo martelava: escrevia, relia e mudava. Sempre a sensação de estar sendo má: má amiga, má companheira, má pessoa. “Que ninguém tenha uma amiga escritora!”

E foi pensando em sua maldade que se deteve na palavra má: “mais parece uma palavra cortada! Pobre dela que não se completa!” Escreveu, rabiscou e, finalmente completou: madura, maciça, maluca, matuta e até mesmo mais, mais e mais.

Tudo estava dito: meias palavras não se prestam a nada.

O Velho

O Velho

Insistem para que eu conheça o mar. Não quero. Quiseram me levar de carro e de avião. Nem pensar. Sair de casa pra quê? Posso vê-lo pela televisão, está de bom tamanho. O que faria diante dele? Não tenho tempo para pensar besteira. Viajar horas para chegar até lá, e depois ter que voltar! Vê se pode. Só ia bagunçar meus horários. Prefiro minha varanda e meus pés estendidos na mureta sólida. Acho que vai chover ainda hoje. Me embrenho no mato, mas não me meto no mar. Aliás, já são seis da tarde.

Levantou-se com vigor inesperado para sua idade. Foi até a geladeira e pegou duas panelas de alumínio amassado: arroz e feijão. Pegou também dois ovos. Levou tudo para o fogão. Esses jovens não sabem muita coisa da vida. Quebrou um dos ovos na frigideira. Acreditam no que dizem para eles. Falam que ver o mar é bom, daí viajam 700 km para isso. Parecia não se importar com o óleo que espirrava. Sair de casa sem necessidade e ainda gastar dinheiro? Preciso consertar meu telhado.

Guardou a frigideira no forno. Encheu o prato e se sentou na cabeceira da mesa azul. Comeu com o garfo grande e com o olhar baixo. Ouviu o barulho da chuva e previu que começaria a gotejar dentro de casa. As coisas tem que ser certas. Deviam saber disso. Levantou-se e distribuiu algumas vasilhas pelo piso vermelho. Se tivesse levado minha vida assim, nada teria ido para frente. Lavou o prato e as panelas com a mão firme. Foi para a varanda ver a chuva cair. Sentiu cheiro de terra molhada. Se me conhecessem, saberiam que quero ficar exatamente aqui.

Brincando de rimar

Brincando de rimar

Era madrugada

Eu estava calada

Deitada e pelada

Me sentido amada

Mesmo com a palmada

 

Já estava viciada

Em ser maltratada

 

A noite estava estrelada

Bem ventilada

O vento trouxe uma fada

Meio azulada

 

Pensei estar pirada

Joguei uma almofada

Na fada penteada

 

Ela disse: “desmiolada!

Para de ser alienada!

Pega sua estrada!

Segue a lua prateada!”

 

Achei que era piada

Da fada emaconhada

 

Ainda ouvi da safada:

“Você está enrolada

Ouve a minha chamada”

 

Fiquei encafifada

Depois emocionada

Com a fada bem intencionada

Comigo tão preocupada

 

Juntei a papelada

Me senti empoderada 

Uma mulher emancipada

 

Fui para a calçada

Percebi que a vida é nada

Sem a gente ser amada

O Poeta

O Poeta

Num dia comum, ninguém diria que ele nasceu para a poesia. Lidava com a vida e com a morte, dentro de uma ambulância. Mas era sem a touca branca que seus cabelos se expandiam, e sua mente brincava com as palavras. Sem a máscara, sua boca declamava. Sem o uniforme hermético seu corpo mimetizava. E era assim, despido, que ele mergulhava na piscina literária. Ali ele nadava de braçada, mergulhava e boiava no mais perfeito dia, com a mais perfeita luz. Sem eira nem beira, ele desfrutava a fluidez.

Até que a água se agitou sem motivo aparente. Ele parou de boiar e viu, do lado de fora, uma pessoa. “Minha mãe?” O sol passou a atrapalhar sua visão. Um segundo agito, mais forte, fez entrar água em seu nariz e ele quase engasgou as palavras. Ainda recuperando o ar, percebeu mais olhares. A família inteira, amigos, e quem ele até não conhecia. Uma multidão. Uma onda agigantou-se à sua frente. E outra, e outras. Seu corpo ficou tenso na expectativa de saber para onde fugir. “O que querem de mim?” Sua boca fechada. Sua mente desejou sair dali e vestir seu uniforme, a ambulância lhe pareceu um lugar seguro.

O poeta, sensível que era, sentiu que deveria fugir dos olhares alheios. Quanto mais fundo mergulhasse, mais livre estaria. Deep inside. Mergulhou. Sentiu o vazio. Sentiu medo. Achou que não voltaria. Mas foi ali, num lugar onde não chega nada, além de seu próprio desejo, que ele começou a ouvir um piiiiiiiiiiii. Pirado. Pirotécnico. As palavras não paravam de vir à sua mente. E foi pensando em rimas, ritmo, aliterações, versos e estrofes que ele voltou à superfície esbanjando poesia! Se havia uma multidão olhando, ele nem reparou.