Brincando de rimar

Brincando de rimar

Era madrugada

Eu estava calada

Deitada e pelada

Me sentido amada

Mesmo com a palmada

 

Já estava viciada

Em ser maltratada

 

A noite estava estrelada

Bem ventilada

O vento trouxe uma fada

Meio azulada

 

Pensei estar pirada

Joguei uma almofada

Na fada penteada

 

Ela disse: “desmiolada!

Para de ser alienada!

Pega sua estrada!

Segue a lua prateada!”

 

Achei que era piada

Da fada emaconhada

 

Ainda ouvi da safada:

“Você está enrolada

Ouve a minha chamada”

 

Fiquei encafifada

Depois emocionada

Com a fada bem intencionada

Comigo tão preocupada

 

Juntei a papelada

Me senti empoderada 

Uma mulher emancipada

 

Fui para a calçada

Percebi que a vida é nada

Sem a gente ser amada

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O Poeta

O Poeta

Num dia comum, ninguém diria que ele nasceu para a poesia. Lidava com a vida e com a morte, dentro de uma ambulância. Mas era sem a touca branca que seus cabelos se expandiam, e sua mente brincava com as palavras. Sem a máscara, sua boca declamava. Sem o uniforme hermético seu corpo mimetizava. E era assim, despido, que ele mergulhava na piscina literária. Ali ele nadava de braçada, mergulhava e boiava no mais perfeito dia, com a mais perfeita luz. Sem eira nem beira, ele desfrutava a fluidez.

Até que a água se agitou sem motivo aparente. Ele parou de boiar e viu, do lado de fora, uma pessoa. “Minha mãe?” O sol passou a atrapalhar sua visão. Um segundo agito, mais forte, fez entrar água em seu nariz e ele quase engasgou as palavras. Ainda recuperando o ar, percebeu mais olhares. A família inteira, amigos, e quem ele até não conhecia. Uma multidão. Uma onda agigantou-se à sua frente. E outra, e outras. Seu corpo ficou tenso na expectativa de saber para onde fugir. “O que querem de mim?” Sua boca fechada. Sua mente desejou sair dali e vestir seu uniforme, a ambulância lhe pareceu um lugar seguro.

O poeta, sensível que era, sentiu que deveria fugir dos olhares alheios. Quanto mais fundo mergulhasse, mais livre estaria. Deep inside. Mergulhou. Sentiu o vazio. Sentiu medo. Achou que não voltaria. Mas foi ali, num lugar onde não chega nada, além de seu próprio desejo, que ele começou a ouvir um piiiiiiiiiiii. Pirado. Pirotécnico. As palavras não paravam de vir à sua mente. E foi pensando em rimas, ritmo, aliterações, versos e estrofes que ele voltou à superfície esbanjando poesia! Se havia uma multidão olhando, ele nem reparou.