Bolha de Vidro

Bolha de Vidro

Às vezes quero ir, e vou. Às vezes quero ir, e paro. Aí já nem quero mais nada. Quero descansar. Quero ficar sozinha. Aí minhas pernas doem, elas não querem andar, estão doendo poxa! Aí eu me sinto cansada. Deito com as pernas para cima. Olho o teto. Olho minhas pernas já longas, tentando se alongar. Aí também eu já nem quero respirar. Pego o nebulizador. Gosto daquele ar. Mais limpo. Esse nebulizador me lembra uma bolha de vidro. Isola meu ar. Respiro aquilo e melhoro. Olho o teto e melhoro.

Em tempo: médicos já me disseram que eu precisaria viver numa bolha de vidro. Ah, os médicos! Não deveriam pensar que isso pode ser o melhor para alguém. Muito menos deveriam dizer isso a uma menina. Ela pode acreditar.

Cá entre nós: ao ler isso para o meu pai e para o meu tio eles se lembraram de que, ao nascer, eu fiquei numa “caixa de vidro”. Ichi, será que eles foram os primeiros a acreditar?

“(…) o bebê humano é lançado ao mundo de forma não acabada, portando uma incapacidade inata para lidar com um turbilhão de estímulos (Reizen) que a vida lhe reserva” (Chediak, 2007: 14).

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Paralisada

Paralisada

Sem saber o que quero fazer. Não, sabendo mil coisas que gostaria de fazer, mas me sentido incapaz para todas elas. Daí a inércia, o não fazer. O vazio, o tédio, a angústia e a ansiedade. O coração que dispara e aperta. O mal estar. O pensamento em mim. Cadê o café? Penso num curso, que cria a obrigação do fazer. Não quero mais a obrigação. Essa lacuna que abarca todas as possibilidades ainda me deixa paralisada. Semana passada mandei colocar num quadro nosso convite de casamento. Fiz isso completamente sozinha, o que muda tudo, o que computo como uma vitória. O que é colocar um convite de casamento na parede? Imprimir uma história, uma marca, uma escolha, desde a escolha do casamento até a escolha da moldura. Pronto, me coloquei de alguma forma em algo, externalizei algo de mim. Registrei minha existência de alguma forma. Assim como faço aqui, do fundo dos meus sentimentos, escrevo sobre o nada, esse espaço vazio que resta. Parece que minha língua está inchada, tenho certeza que meus olhos marejam. Mas também me tranquiliza escrever agora. As rádios foram sintonizadas no carro pelo André, o CD que ouço foi ele que gravou já faz um tempo. Penso que a única coisa boa mesmo na minha vida são eles. Ah, e eles são demais. Penso que talvez seja melhor me dedicar a eles, que valem mais a pena. Penso nas minhas conquistas e nos meus caminhos. Já não tenho certeza se são meus. Repito, minha família, meu marido e meu filho são meus. São meu tesouro. Conquistei, naveguei, passei por tempestades, procurei e achei meus amores. Mas e eu? Eu sou Virgínia, nome que minha mãe escolheu inspirada e homenageando à minha bisavó, que ela via como guerreira, que ficou velha e lúcida por muito tempo. Tá, está entendido que era melhor que eu fosse guerreira. Chegou o café, ajuda na luta. Sou Ferreira, neta do Ernesto, homem rígido, e da Catarina, avó sensível ao calor, ao clima e às sensações do seu corpo. Sou Silva, sou pobre. Neta do vô Toninho, que vi pouco, que logo ficou doente, não se levantava de uma cadeira, mas era menos rígido que o Ernesto. Tomava as suas e tinha as suas também. E a vó Lúcia, cristã, rezava e chorava muito, não sabia por que estava vivendo por tanto tempo. E sou Castro por opção.

“É a angústia que conduzirá o sujeito à sua verdade” (Chediak, 2007: 11).