Violão

Violão

Lá vem ele. Sempre que chega assim sozinho, diz que quer ficar comigo. Sempre nos abraçamos assim, como se fizesse séculos que não nos víamos. A gente sempre ri nessa hora. Sentamos na varanda da minha casa. Será que vou querer dessa vez? Vou pensar enquanto ele toca violão. Trouxe até um vinho escondido na jaqueta. “Respeito muito minhas lágrimas. Ainda mais minha risada. Inscrevo, assim, minhas palavras, na voz de uma mulher sagrada” Da última vez eu não quis e ele veio me agradecer no dia seguinte. Disse que estragaria nossa amizade. Tenho medo disso mesmo: aí acaba violão, acaba risada, acaba tudo. “Rapte-me camaleoa, adapta-me a uma cama boa. Capte-me uma mensagem à toa” Coisa que mais gosto no mundo é ouvi-lo cantar. Perguntou qual era meu sonho para esse ano. Disse que queria passar no vestibular. Ele acha que isso é uma completa besteira, estudar para quê? Para sair de casa, oras. Tem tanto jeito de sair de casa! Sim, mas estudando é o mais fácil. Assim não preciso brigar com ninguém e meus pais ainda apoiarão. Esse é o plano. Entendi. Para onde você vai? Ainda não  sei. “Menina do anel de Lua e estrela. Raios de sol, no céu da cidade”. Acho que hoje ele não vai tentar nada. Será que porque eu disse que quero ir embora? Não é possível. Perguntou se podia ir comigo. Eu ri: para onde? Nem sei se vou a algum lugar. Pode ser que eu fique presa aqui, para sempre. Falei até que jogaria as tranças para ele, se fosse o caso. “Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa dentro mexe”. Seríamos ótimos namorados – tirando essa parte dele não querer fazer faculdade. Como alguém pode não querer? Não sei se eu quero um ótimo namorado. Um ótimo amigo funciona melhor. “Desde que o samba é samba é assim. A lágrima clara sobre a pele escura. A noite a chuva que cai lá fora”. Deitei no ombro dele enquanto ele fumava um cigarro. Até que foi bonito ficar assim. Ainda vou entender porque não quero ficar com meus amigos, um dia alguém me perguntou se procurava por inimigos. Que saco, meu pai me chamou para entrar. Tivemos que nos despedir rápido. Volta outro dia? Volto.

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Vazio

Vazio

Vazio é um buraco que a gente sente bem no peito

Peito que carrega os desejos de quem te amou primeiro

Primeiro amor que não disse a que veio

Veio ensinar e calar o devaneio

Devaneio é o anseio de ser inteiro

Inteiro com um furo bem no meio

Meio que faz do saber não sobranceiro

Sobranceira é a verdade que não aparece no letreiro

Letreiro que se encontra ali no alheio

Alheio que não falta no espelho

Espelho que reflete o desejo

Desejo que lhe vem como despejo

Despejo de dejeto que lhe afeta

Afeta a busca de encontrar o que lhe falta

Falta é um buraco que a gente sente bem no peito.

Pai e Filho

Pai e Filho

Guilherme sofria por amor. Não chegava a ser rejeitado porque não chegava a se declarar. Amava escondido. Padecia todas as noites: chorava antes de dormir. Fazia pedidos. Imaginava o beijo. Dormia suspirando. Tinha uma queda pelo amor platônico. A vida é mesmo dura. Com todos nós. Estava sendo também para Guilherme.

Ivan ouviu o filho chorar. Bateu fraco na porta e entrou. Como Guilherme continuou com o rosto socado no travesseiro, fez apenas um carinho: “o que foi?” Nenhuma resposta. “Por que você está chorando?” Depois de mais alguns soluços: “nada, não é nada”.

Guilherme sentia que tinha todos os motivos do mundo para chorar. “Entendo, na sua idade eu chorava muito”. O filho virou-se meio de lado: “por que, pai?” Ivan passou as mãos pela barba: “acho que por umas espinhas que eu tinha”.

Guilherme deitou-se virado para cima: “mas você já era casado com a mamãe?” Disse como um possível alento. “Não… Nessa época eu nem a conhecia.” Ivan riu sozinho. “Mas você sabia que teria sorte do amor!” Chorou pensando em seu azar.

“Eu? Não filho, nessa época não me achava sortudo, muito menos no amor”. Chegou mesmo a acreditar que as espinhas não o deixariam viver, a não ser quando estivesse com outros amigos espinhentos.

“Então você conheceu a mamãe bem depois das espinhas?” “Sim, bem depois”. O menino suspirou: “é, você demorou para ter sorte”. O pai soltou o ar num riso.

A vida muda para todos. O que quase sempre é um alívio.

Identificação Solidária

Identificação Solidária

Quando saíamos por um corredor, meu tio, sua esposa e filha estavam num quarto. Meu tio veio atrás de mim para dizer que sua esposa chorava porque sua filha foi numa festa, beber guaraná, ao invés de estar presente num momento difícil deles. A filha estava sendo punida por seus pais.

E eu? Existe algum tipo de punição nisso tudo?

Meu pai tem uma doença no coração, e é o meu coração que sinto. Meu pai está psicótico, e eu sinto angústia. Meu pai tem paranoia, e eu sinto medo.

“O sintoma é, portanto, um significado dado ao sujeito sobre sua existência, pelo Outro. Dessa forma, em que medida o sintoma é do Outro?” (Chediak, 2007: 66).

E não é que em certa noite minha mãe me disse: por que você sente angústia? Essa angústia é minha! E outro dia eu confundi esse sonho com realidade.

“(…) é numa análise que os sintomas poderão ser decifrados, na medida em que o sujeito, a partir de sua fala, compartilha com o analista o discurso que é do Outro” (Chediak, 2007: 67).

Engatinhando II

Engatinhando II

Também tive minhas marcas com meu pai, ah se tive! Uma vez fomos à padaria. Ele agradeceu à moça pelo pão: obrigado broto! Pai, olha o broto aqui! Será que você está cego? Fiquei revoltada nesse dia, por minha mãe, claro.

Outra vez ele levou minha irmã e eu para assistir Um Príncipe em Nova Iorque no cinema. Numa cena havia várias mulheres com o peito de fora numa banheira. Nunca me senti tão despeitada em toda minha vida!

Pedestal

Pedestal

Era de manhã e eu estava em casa, me arrumando para ir trabalhar. Alguém toca a campainha. Era meu pai e mais uma galera, basicamente mulheres. Tinham vindo para o enterro de alguém – será o meu? Já iam saindo e meu pai falou para eu pegá-lo no hotel na terça pela manhã, mas não deu certeza de que iria mesmo embora. Ah pai, você deve ir embora. De mim? Meu pai saiu e minha casa se transformou num grande espaço confuso, cheio de pessoas deformadas, estranhas e bizarras. Ele as deixou ali? Ele saiu, e o que ficou? Fui até a minha cama, mas aí já havia outras camas, com pessoas estranhas dormindo, e eu não encontrava mais minhas roupas. Cadê eu? Uma ou duas mulheres me ofereceram blusas, pareciam blusas pequenas, mas elas disseram que iam servir. Eu era uma criança? Fiquei procurando onde tomar banho. Tirei minha roupa, entrei numa bacia e comecei a me lavar diante daqueles observadores. As pessoas nascem na água? Havia uma cabeça de homem no alto de um pedestal. Ele me perguntou algo, e eu disse não saber. Ele começou a descer. Já não há mais pedestais? Então, o que há?

“Não é, portanto, a ausência do Outro que desperta angústia, mas sim o desejo do Outro, ou seja, a presença do outro enquanto desejante é o que deixará o sujeito desamparado” (Chediak, 2007: 19).

Bolha de Vidro

Bolha de Vidro

Às vezes quero ir, e vou. Às vezes quero ir, e paro. Aí já nem quero mais nada. Quero descansar. Quero ficar sozinha. Aí minhas pernas doem, elas não querem andar, estão doendo poxa! Aí eu me sinto cansada. Deito com as pernas para cima. Olho o teto. Olho minhas pernas já longas, tentando se alongar. Aí também eu já nem quero respirar. Pego o nebulizador. Gosto daquele ar. Mais limpo. Esse nebulizador me lembra uma bolha de vidro. Isola meu ar. Respiro aquilo e melhoro. Olho o teto e melhoro.

Em tempo: médicos já me disseram que eu precisaria viver numa bolha de vidro. Ah, os médicos! Não deveriam pensar que isso pode ser o melhor para alguém. Muito menos deveriam dizer isso a uma menina. Ela pode acreditar.

Cá entre nós: ao ler isso para o meu pai e para o meu tio eles se lembraram de que, ao nascer, eu fiquei numa “caixa de vidro”. Ichi, será que eles foram os primeiros a acreditar?

“(…) o bebê humano é lançado ao mundo de forma não acabada, portando uma incapacidade inata para lidar com um turbilhão de estímulos (Reizen) que a vida lhe reserva” (Chediak, 2007: 14).