Fugindo na Floresta

Fugindo na Floresta

Dessa vez meu pai que queria me matar. E eu fugia dele. Pra quê? Corri e me tranquei num quarto. Ele ficou do lado de fora, me ameaçando. Eu tinha duas opções. Ficar naquele quarto, trancada e ameaçada pelo meu pai, ou fugir pela janela. Fugi pela janela. Me deparei com a imensa, livre, desconhecida e perigosa floresta. Ali comecei a viver.

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Identificação Solidária

Identificação Solidária

Quando saíamos por um corredor, meu tio, sua esposa e filha estavam num quarto. Meu tio veio atrás de mim para dizer que sua esposa chorava porque sua filha foi numa festa, beber guaraná, ao invés de estar presente num momento difícil deles. A filha estava sendo punida por seus pais.

E eu? Existe algum tipo de punição nisso tudo?

Meu pai tem uma doença no coração, e é o meu coração que sinto. Meu pai está psicótico, e eu sinto angústia. Meu pai tem paranoia, e eu sinto medo.

“O sintoma é, portanto, um significado dado ao sujeito sobre sua existência, pelo Outro. Dessa forma, em que medida o sintoma é do Outro?” (Chediak, 2007: 66).

E não é que em certa noite minha mãe me disse: por que você sente angústia? Essa angústia é minha! E outro dia eu confundi esse sonho com realidade.

“(…) é numa análise que os sintomas poderão ser decifrados, na medida em que o sujeito, a partir de sua fala, compartilha com o analista o discurso que é do Outro” (Chediak, 2007: 67).

Engatinhando II

Engatinhando II

Também tive minhas marcas com meu pai, ah se tive! Uma vez fomos à padaria. Ele agradeceu à moça pelo pão: obrigado broto! Pai, olha o broto aqui! Será que você está cego? Fiquei revoltada nesse dia, por minha mãe, claro.

Outra vez ele levou minha irmã e eu para assistir Um Príncipe em Nova Iorque no cinema. Numa cena havia várias mulheres com o peito de fora numa banheira. Nunca me senti tão despeitada em toda minha vida!

Pedestal

Pedestal

Era de manhã e eu estava em casa, me arrumando para ir trabalhar. Alguém toca a campainha. Era meu pai e mais uma galera, basicamente mulheres. Tinham vindo para o enterro de alguém – será o meu? Já iam saindo e meu pai falou para eu pegá-lo no hotel na terça pela manhã, mas não deu certeza de que iria mesmo embora. Ah pai, você deve ir embora. De mim? Meu pai saiu e minha casa se transformou num grande espaço confuso, cheio de pessoas deformadas, estranhas e bizarras. Ele as deixou ali? Ele saiu, e o que ficou? Fui até a minha cama, mas aí já havia outras camas, com pessoas estranhas dormindo, e eu não encontrava mais minhas roupas. Cadê eu? Uma ou duas mulheres me ofereceram blusas, pareciam blusas pequenas, mas elas disseram que iam servir. Eu era uma criança? Fiquei procurando onde tomar banho. Tirei minha roupa, entrei numa bacia e comecei a me lavar diante daqueles observadores. As pessoas nascem na água? Havia uma cabeça de homem no alto de um pedestal. Ele me perguntou algo, e eu disse não saber. Ele começou a descer. Já não há mais pedestais? Então, o que há?

“Não é, portanto, a ausência do Outro que desperta angústia, mas sim o desejo do Outro, ou seja, a presença do outro enquanto desejante é o que deixará o sujeito desamparado” (Chediak, 2007: 19).

Bolha de Vidro

Bolha de Vidro

Às vezes quero ir, e vou. Às vezes quero ir, e paro. Aí já nem quero mais nada. Quero descansar. Quero ficar sozinha. Aí minhas pernas doem, elas não querem andar, estão doendo poxa! Aí eu me sinto cansada. Deito com as pernas para cima. Olho o teto. Olho minhas pernas já longas, tentando se alongar. Aí também eu já nem quero respirar. Pego o nebulizador. Gosto daquele ar. Mais limpo. Esse nebulizador me lembra uma bolha de vidro. Isola meu ar. Respiro aquilo e melhoro. Olho o teto e melhoro.

Em tempo: médicos já me disseram que eu precisaria viver numa bolha de vidro. Ah, os médicos! Não deveriam pensar que isso pode ser o melhor para alguém. Muito menos deveriam dizer isso a uma menina. Ela pode acreditar.

Cá entre nós: ao ler isso para o meu pai e para o meu tio eles se lembraram de que, ao nascer, eu fiquei numa “caixa de vidro”. Ichi, será que eles foram os primeiros a acreditar?

“(…) o bebê humano é lançado ao mundo de forma não acabada, portando uma incapacidade inata para lidar com um turbilhão de estímulos (Reizen) que a vida lhe reserva” (Chediak, 2007: 14).