Sonhadora

Sonhadora

Sonhadora

Luiza gostava de imaginar coisas. Era botar a cabeça no travesseiro, fechar os olhos e sonhar antes mesmo de dormir. De tanto imaginar, passava a fazer planos, a contar os meses, a projetar o ano. Pronto, estava acreditando naquilo tudo. Aí começava a compartilhar – nunca foi boa com segredos. Falava, falava, repetia e a coisa toda ia tomando forma. Nunca se abalou com uma ou outra cara esquisita: já acreditava naquele plano todo. E sempre teve amigas sonhadoras, que inclusive davam conselhos e contavam a vitória como certa. Sobre isso, Luiza tinha dúvidas. Sabia apenas que era possível, totalmente possível, ela já tinha pensado em todo o trajeto, contado as horas: sim, era perfeitamente possível. Essa era a grande delícia. Luíza adorava caminhar para possibilidades. Nunca perdeu tempo duvidando de sua capacidade, isso não era para ela. Mas sempre se dedicou com afinco à agenda mirabolante que criava para as coisas darem certo. Tem como não acontecer o que já está acontecendo? Não tem. Cada suspiro sonhador já é a coisa ali, esperando acontecer. E assim Luíza vive tudo aquilo que começou a imaginar com a cabeça no travesseiro.

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Violão

Violão

Lá vem ele. Sempre que chega assim sozinho, diz que quer ficar comigo. Sempre nos abraçamos assim, como se fizesse séculos que não nos víamos. A gente sempre ri nessa hora. Sentamos na varanda da minha casa. Será que vou querer dessa vez? Vou pensar enquanto ele toca violão. Trouxe até um vinho escondido na jaqueta. “Respeito muito minhas lágrimas. Ainda mais minha risada. Inscrevo, assim, minhas palavras, na voz de uma mulher sagrada” Da última vez eu não quis e ele veio me agradecer no dia seguinte. Disse que estragaria nossa amizade. Tenho medo disso mesmo: aí acaba violão, acaba risada, acaba tudo. “Rapte-me camaleoa, adapta-me a uma cama boa. Capte-me uma mensagem à toa” Coisa que mais gosto no mundo é ouvi-lo cantar. Perguntou qual era meu sonho para esse ano. Disse que queria passar no vestibular. Ele acha que isso é uma completa besteira, estudar para quê? Para sair de casa, oras. Tem tanto jeito de sair de casa! Sim, mas estudando é o mais fácil. Assim não preciso brigar com ninguém e meus pais ainda apoiarão. Esse é o plano. Entendi. Para onde você vai? Ainda não  sei. “Menina do anel de Lua e estrela. Raios de sol, no céu da cidade”. Acho que hoje ele não vai tentar nada. Será que porque eu disse que quero ir embora? Não é possível. Perguntou se podia ir comigo. Eu ri: para onde? Nem sei se vou a algum lugar. Pode ser que eu fique presa aqui, para sempre. Falei até que jogaria as tranças para ele, se fosse o caso. “Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa dentro mexe”. Seríamos ótimos namorados – tirando essa parte dele não querer fazer faculdade. Como alguém pode não querer? Não sei se eu quero um ótimo namorado. Um ótimo amigo funciona melhor. “Desde que o samba é samba é assim. A lágrima clara sobre a pele escura. A noite a chuva que cai lá fora”. Deitei no ombro dele enquanto ele fumava um cigarro. Até que foi bonito ficar assim. Ainda vou entender porque não quero ficar com meus amigos, um dia alguém me perguntou se procurava por inimigos. Que saco, meu pai me chamou para entrar. Tivemos que nos despedir rápido. Volta outro dia? Volto.

Roda-gigante

Roda-gigante

Mariana vivia numa roda-gigante. Girava dia e noite e, por mais voltas que desse, acabava sempre passando pelos mesmos pontos. No ponto mais baixo, quase botava os pés no chão. Nesses dias, era tomada por um profundo tédio. Mas como a roda é implacável em seu girar, Mariana começava a subir. Via o céu e junto com ele a possibilidade de mil coisas! “Agora vai!” Se inclinava em direção ao azul e balançava os pés feito criança. Chegaria ao ponto aonde ninguém jamais chegou! Seus sonhos eram ambiciosos: acreditava no amor que ninguém havia amado. Vivia cenas de cinema e acreditava em todas elas. Aí vinha um vento chato, ou um sol muito forte: “não, não é possível, de novo não”. Sim, de novo estava naquele ponto de começar a descer. Vinha um frio na barriga, que ela amava e odiava. Não é que amasse, era mais um vício. Nessa descida ela sofria, mas se sentia viva como nunca. Chorava, mas sabia estar num patamar diferente de todas aquelas pessoas ali no chão. Pressentia que logo iria passar por uns diazinhos medíocres – até precisava deles para retomar o fôlego – mas sabia que logo começaria a subir e a subir! Que alegria! Acreditaria em tudo de novo.

Pobre Mariana, começou a ficar tonta de tanto girar. Sentia-se extremamente cansada. Olhava as pessoas com os pés no chão e não as invejava: “de que vale a vida assim?” E fincava o pé na roda. Os giros passaram a ser verdadeiros loopings. Já estava descabelada, alucinada, transtornada, enjoada quando foi arremessada ao solo. Sentiu-se humana como nunca: pela primeira vez teve medo de morrer. Caiu na vida. Toda esfolada que estava, teve que se render àquelas pessoas sem graça. E não é que foi amada? Não viu muito bem quando e como o amor começou em sua vida. Não teve holofotes, nem braços fortes, nem um glamour. Foi somente o amor. Aquele que penetra devagarzinho, que de tão leve nos enche de ar e amplia nossa respiração. Olhou para cima e teve pena dos que estavam presos a girar. Olhou para um lado e para outro, viu horizontes de possibilidades. Respirou fundo.

Indispensável

Indispensável

Preciso de nó que me desate, de tremor que me impulsione, de angústia que me movimente. Preciso de medo que me encoraje, de dúvidas que me conduzam. Preciso de crença que me desobrigue. Preciso dar as cartas para jogar. Preciso de mim, preciso de mim. De qualquer loucura que me humanize. Preciso de ilusões que possa realizar. Preciso de sonhos que me acordem, de ar que me inspire, de ideia que me materialize.

Preciso me materializar.

Estrelar

Estrelar

Dividimos um curto espaço de tempo sobre a terra e tão pouco nos entendemos. Camila jurava amar Tiago, que hesitava amá-la do jeito que ela queria. O céu se movimenta, as estrelas vão e vêm, a lua fica cheia e minguante e as pessoas ficam ali, insistindo no mesmo ponto. Camila queria porque queria. Ok, não vamos simplificar as coisas. Ela queria porque via nele o que bem entendia. Tiago se mostrava, suas ações eram o que eram. Camila projetava: via nele a possibilidade de céu estrelado enquanto ele chovia, todos os dias. Como pode ser o mundo tão infinito e uma pessoa tão obcecada numa única outra? Coisa esquisita. Ela insistia, implorava. Ele falava que não queria, até desistia. Ela chorava. Ele voltava. Não ajudava, sempre voltava. Abraçavam-se, até achavam que o tempo parava, mas os anos passavam. Ah, o tempo! Podia ele nos ensinar alguma coisa, mas o que ele faz é passar. Camila esperava o dia em que seu amor pudesse encaixar. Mas esse dia demorava, Tiago até que chegava, ela até que se arrumava, achava que iam bailar. Mas sempre chovia como um balde de água fria. Até que um dia, acho que foi com um rodinho pequeno, ela começou a puxar a água. Teve medo de secar a si mesma. Achou que fosse definhar. Engraçado, mas foi puxando aquela água suja no chão que ela passou a ver estrela no céu. Logo reparou que não estava ficando seca, estava era vendo coisa brilhar. Foi então que falou tchau para Tiago. Ele até chorou, acreditam? Mas não respingou nela não. Camila já estava olhando para cima, pensando no mundão grande em que vivia, em tanto segredo escondido por aí, e resolveu caminhar. Foi quando encontrou todas as estrelas que queria, amou uma a uma e até dançou com elas sob o luar.

Agora

Agora

Prefiro céu azul

Prefiro janela de vidro à de madeira

Prefiro o movimento do sofrimento

À inércia da felicidade inquestionável

Prefiro o banco da praça ao da Igreja

Prefiro cumprimentar os vizinhos

Prefiro perguntas

Prefiro cores lisas às estampas que cansam

Prefiro as calças à limitação das saias

Prefiro sonhar todas as noites

Prefiro café com as amigas

Prefiro ouvir opinião a “não sei”

Prefiro arroz e feijão

Prefiro simplicidade

Prefiro mudar de cidade

Prefiro o amanhecer

Prefiro planejar

Prefiro estudar

Prefiro olhar a dissimular

Prefiro conversas profundas

Prefiro um tempo só para mim

Prefiro finais felizes

Prefiro riso fácil

Prefiro o incômodo à complacência

Prefiro a esquerda

Prefiro a natação

Prefiro os que nadam contra a maré

Prefiro amor à paixão

Prefiro os que viram a mesa

Prefiro me expressar

Prefiro saber que quase tudo pode mudar

*Inspirada em Wislawa Szymborska: “Possibilidades”

Vontade

Vontade

Tem que haver calma. Ela gosta também de silêncio. Só um pouco de barulho, só um pouco de fala, nada que exija uma resposta: isso tira sua concentração. Olhos fechados e boca entreaberta. Pode começar no pescoço, cabeça, orelha, barriga, joelhos ou na parte de dentro das coxas. Como um rio, um raio ou um choque, aquele arrepio é levado para um ponto em suas costas. Aquele ponto contrai e o corpo todo se movimenta, o quadril é levado para trás e o peito para frente. Aí tudo nela escorre. Não fale nada, por favor, não estrague esse momento. Ela já está em outro lugar. Só quer sentir. Coloque algo entre suas pernas. Não precisa mexer em muitas partes, só ali. Com vontade. Bem ali. Continuamente. Continuamente. Aí ela vai gostar de olhar e de parar de olhar. Vai imaginar qualquer situação sem caras, descarada. E tudo vai se estimular à medida que agora é outro ponto que pulsa, que abre, aumenta e avermelha. Continua igual, não mexe em nada, não muda nada, sempre assim, não aperta muito, espera. Pronto.

Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

Cinema

Cinema

Júlia abriu a porta e enlaçou os dois braços no pescoço de Henrique. Estava decidida a não sofrer por ele ter sumido no dia anterior. Ele agarrou sua cintura e a tirou do chão por alguns segundos. Entraram cambaleando, rematando o abraço. Henrique não falaria nada sobre ontem, esperaria que ela conduzisse a coisa. Júlia, feliz por não ter pirado, não perguntaria nada dessa vez. Ele pegou uma cerveja com o riso malandro de quem espera por uma inquirição. Apenas ouviu: “foi até bom que você não apareceu, aproveitei para ir ao cinema”. Henrique deu um gole na cerveja: “com quem?” Agora foi a vez dela pegar sua latinha: “sozinha mesmo”. Ele caminhou para o sofá: “Coisa de vagabunda”. Júlia, com seu vestido florido, sentou-se em seu colo: “fala de novo, não entendi o que você disse”.

“Que mulher que vai ao cinema sozinha é vagabunda. Tá pedindo”. Levantou-se antes que ela saísse de suas pernas. “Fui sozinha porque você sumiu!” Ele andou de um lado para outro, como quem recebe notícia ruim: “que filme você viu?” “Ana e o Sexo.” “Tá de brincadeira!” Continuou em seu vai e vem. Ela, sentada, apoiou os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça: “nossa, nada a ver!” “Se não aconteceu nada, você teve sorte. Ou azar, vai saber”. A última frase foi dita já com o cigarro na boca, em voz baixa e a caminho da varanda. Júlia não se conteve: “Azar? Do que você está falando?” “Vai ver queria mesmo dar para qualquer um”. Pronto, ia começar.

“Ir ao cinema sozinha é normal. Sempre fiz isso, minhas amigas também”. Ele riu: “que amigas?” Gostava de ofendê-las. “Para!” Júlia sabia que seu pedido seria vão. “Ninguém chegou em você?” “Claro que não! E você, onde estava ontem?” Exatamente o que ela tinha se prometido não perguntar. Henrique desviou: “com certeza não estava sozinho no cinema, tenho namorada pra isso”. Os dois estavam em pé, frente a frente: “Chega Henrique, chega!” “É melhor mesmo eu ir embora”. Nessa hora, uma angústia surgiu bem ali na garganta dela: “fica”. Não sabia porque implorava por ele: “ontem você sumiu e hoje vai fazer isso?”

Henrique riu e a abraçou meio de lado. Ela o puxou para perto: “dorme aqui hoje?” “Não sei, amanhã tenho que acordar cedo, vou dar aula”. Saiu do abraço e foi para a geladeira abrir outra cerveja. “Eu também tenho que estudar”. Abraçou-o por trás. Ficaram assim por alguns segundos. Se ele fosse embora, Júlia sabia que se sentiria devastada, não conseguiria ficar numa boa pelo segundo dia consecutivo. Ele se virou para ela e a abraçou: “eu te amo”. Júlia chegou a pensar que tudo acabaria ali e que finalmente poderiam relaxar: “em qual sessão você foi?”. Ela pensou em mentir, mas não conseguiu: “Onze e meia”.

“Vou embora”. Aquela angústia presa na garganta desceu para o estômago, bateu e voltou explodindo em um berro. O berro não era de uma mulher em apuros, era de uma lutadora. Foi junto com a saída desse estrondo que Júlia desfechou um soco certeiro no queijo de seu namorado. Ele foi para trás: “tá maluca?” Não era muito dado a esportes. Ela, por outro lado, controlava toda sua ansiedade correndo, pedalando e marombando. Só que ainda não conhecia sua força. Antes que ele voltasse a seu equilíbrio ela desfechou outro e foi para cima dele. Segurou a cabeça dele e bateu no chão. Assustou-se consigo, mas não conseguiu mais parar.

Enquanto berrava, o centro das sobrancelhas se contraía e os olhos arregalavam-se. Mostrava os dentes. Seria capaz de jogar a casa em cima dele, mas se limitou à lata de cerveja. Ele tentava se desvencilhar, mas ela o empurrava, puxava. Rasgou os botões da camisa: “o que você está fazendo? Olha isso!” Ela não conseguia dizer nada, o maxilar estava travado. Ele foi caminhando maltrapilho até a porta. Até que ela começou a gritar com o estômago: “vai embora! Vai embora!” Ele saiu rápido e ela foi direto trancar a porta. Virou-se de frente para a casa bagunçada e ficou respirando forte com a boca seca. Até que deu mais um berro, agora com o corpo todo. Foi para a geladeira e abriu uma latinha bem gelada.