Vazio

Vazio

Vazio é um buraco que a gente sente bem no peito

Peito que carrega os desejos de quem te amou primeiro

Primeiro amor que não disse a que veio

Veio ensinar e calar o devaneio

Devaneio é o anseio de ser inteiro

Inteiro com um furo bem no meio

Meio que faz do saber não sobranceiro

Sobranceira é a verdade que não aparece no letreiro

Letreiro que se encontra ali no alheio

Alheio que não falta no espelho

Espelho que reflete o desejo

Desejo que lhe vem como despejo

Despejo de dejeto que lhe afeta

Afeta a busca de encontrar o que lhe falta

Falta é um buraco que a gente sente bem no peito.

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Eu

Eu

Sou cabeça: um cânion de pensamentos fundos. Sou o interior conturbado que floresce leve. Sou músculos e entranhas. Sou estrada e bifurcações: não me canso de antecipar mudanças. Chego antes, mesmo que tarde. Sou sonhos, um turbilhão de sonhos todas as noites. Nem posso dizer que sou dia. Sou consciência e inconsciente. Consistente até demais. Amoleço-me com bonitas superficialidades. Sou reentrante e mantenho-me relevo: todos os dias, todos os dias. Sou amor que não padece. Sou equilíbrio, mas não calmaria. Não me aquieto até quando devo, até quando temo. É sentindo cada afluente dentro de mim que vou, sorrindo, todos os dias, todos os dias.

A tal moça

A tal moça

Uma moça matou diversas pessoas numa casa. Eu estava junto, assistindo a tudo como cúmplice. Ela era eu. Restava uma dúvida: ela me mataria também? Não matou. Beijou-me. Ela fazia isso por mim. Cobrimos os corpos. Preocupava-me se os vizinhos e as crianças veriam. A moça disse que cuidaria de tudo. Eu ficava pensando se conseguiria viver normalmente, sem pagar pelos crimes. Mas a moça parecia muito tranquila.

“Esse encontro com a falta do Outro vai abrir caminho para a necessidade de que o sujeito coloque ali algo de si, com seu estilo imprima sua marca em sua invenção” (Chediak, 2014: 128).