Vazio

Vazio

Vazio é um buraco que a gente sente bem no peito

Peito que carrega os desejos de quem te amou primeiro

Primeiro amor que não disse a que veio

Veio ensinar e calar o devaneio

Devaneio é o anseio de ser inteiro

Inteiro com um furo bem no meio

Meio que faz do saber não sobranceiro

Sobranceira é a verdade que não aparece no letreiro

Letreiro que se encontra ali no alheio

Alheio que não falta no espelho

Espelho que reflete o desejo

Desejo que lhe vem como despejo

Despejo de dejeto que lhe afeta

Afeta a busca de encontrar o que lhe falta

Falta é um buraco que a gente sente bem no peito.

Anúncios

Vontade

Vontade

Tem que haver calma. Ela gosta também de silêncio. Só um pouco de barulho, só um pouco de fala, nada que exija uma resposta: isso tira sua concentração. Olhos fechados e boca entreaberta. Pode começar no pescoço, cabeça, orelha, barriga, joelhos ou na parte de dentro das coxas. Como um rio, um raio ou um choque, aquele arrepio é levado para um ponto em suas costas. Aquele ponto contrai e o corpo todo se movimenta, o quadril é levado para trás e o peito para frente. Aí tudo nela escorre. Não fale nada, por favor, não estrague esse momento. Ela já está em outro lugar. Só quer sentir. Coloque algo entre suas pernas. Não precisa mexer em muitas partes, só ali. Com vontade. Bem ali. Continuamente. Continuamente. Aí ela vai gostar de olhar e de parar de olhar. Vai imaginar qualquer situação sem caras, descarada. E tudo vai se estimular à medida que agora é outro ponto que pulsa, que abre, aumenta e avermelha. Continua igual, não mexe em nada, não muda nada, sempre assim, não aperta muito, espera. Pronto.

Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

Pai e Filho

Pai e Filho

Guilherme sofria por amor. Não chegava a ser rejeitado porque não chegava a se declarar. Amava escondido. Padecia todas as noites: chorava antes de dormir. Fazia pedidos. Imaginava o beijo. Dormia suspirando. Tinha uma queda pelo amor platônico. A vida é mesmo dura. Com todos nós. Estava sendo também para Guilherme.

Ivan ouviu o filho chorar. Bateu fraco na porta e entrou. Como Guilherme continuou com o rosto socado no travesseiro, fez apenas um carinho: “o que foi?” Nenhuma resposta. “Por que você está chorando?” Depois de mais alguns soluços: “nada, não é nada”.

Guilherme sentia que tinha todos os motivos do mundo para chorar. “Entendo, na sua idade eu chorava muito”. O filho virou-se meio de lado: “por que, pai?” Ivan passou as mãos pela barba: “acho que por umas espinhas que eu tinha”.

Guilherme deitou-se virado para cima: “mas você já era casado com a mamãe?” Disse como um possível alento. “Não… Nessa época eu nem a conhecia.” Ivan riu sozinho. “Mas você sabia que teria sorte do amor!” Chorou pensando em seu azar.

“Eu? Não filho, nessa época não me achava sortudo, muito menos no amor”. Chegou mesmo a acreditar que as espinhas não o deixariam viver, a não ser quando estivesse com outros amigos espinhentos.

“Então você conheceu a mamãe bem depois das espinhas?” “Sim, bem depois”. O menino suspirou: “é, você demorou para ter sorte”. O pai soltou o ar num riso.

A vida muda para todos. O que quase sempre é um alívio.

Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

Pela Metade

Pela Metade

Estava difícil respirar naquelas páginas em branco. Nenhuma história lhe vinha. Procurava então fora de si: uma cena, alguém que lhe inspirasse. Nada.

Só vinham coisas que julgava não poder escrever naquele momento. Escrevia, apagava, não terminava. O que é o esboço da escrita que nunca acaba?  O que é o conteúdo de uma gaveta trancada? Medo. Mais do que isso: o medo dos outros.

Nisso consistia o que não terminava. Por outro lado, aquilo martelava: escrevia, relia e mudava. Sempre a sensação de estar sendo má: má amiga, má companheira, má pessoa. “Que ninguém tenha uma amiga escritora!”

E foi pensando em sua maldade que se deteve na palavra má: “mais parece uma palavra cortada! Pobre dela que não se completa!” Escreveu, rabiscou e, finalmente completou: madura, maciça, maluca, matuta e até mesmo mais, mais e mais.

Tudo estava dito: meias palavras não se prestam a nada.

Estrada

Estrada

O rosto no asfalto. O corpo pesado, as articulações enrijecidas. Não conseguia se movimentar e nem mesmo perceber em que posição estava. Uma das mãos, colada ao solo, sentia a temperatura amena de um dia sem sol. Ouvia apenas a sua própria respiração. Ofegava para se manter calma ao sentir-se viva. Pensou em gritar, mas havia imobilidade em sua voz. Estava sozinha? Silenciou para ouvir o som de qualquer outro alguém. Não percebeu rastro de pessoa que fosse. Voltou a pulsar sua respiração. Para onde estava indo? Para onde estava indo? Não se lembrava. Insistiu na certeza de que ia para algum lugar. Para onde? Para onde? Vazio na partida e na chegada. Nada. Só aquela estrada. E se não estivesse trafegando de um lado a outro? Poderia ter sido vítima de ato ilícito. O que fizeram comigo? O que fizeram comigo? Jogaram-me como dejeto! Mas bem no meio da pista? Não me fizeram um mal completo: respiro no meio da estrada. Preciso me levantar. Preciso me levantar. Movimentou o corpo com força e, nesse momento, gritou de dor e coragem até que ficasse com mãos e joelhos apoiados no chão. Teve vontade de se sentar sobre os pés e chorar. Mas as lágrimas poderiam enferrujar seu movimento. Esforçou-se até que seu corpo ficasse em pé. Não cogitou olhar para trás: desistiu de sua memória. Não quis se lembrar se tinha pai ou mãe. Não quis saber se procuravam por ela. Queria seguir a estrada à sua frente.

Eu

Eu

Sou cabeça: um cânion de pensamentos fundos. Sou o interior conturbado que floresce leve. Sou músculos e entranhas. Sou estrada e bifurcações: não me canso de antecipar mudanças. Chego antes, mesmo que tarde. Sou sonhos, um turbilhão de sonhos todas as noites. Nem posso dizer que sou dia. Sou consciência e inconsciente. Consistente até demais. Amoleço-me com bonitas superficialidades. Sou reentrante e mantenho-me relevo: todos os dias, todos os dias. Sou amor que não padece. Sou equilíbrio, mas não calmaria. Não me aquieto até quando devo, até quando temo. É sentindo cada afluente dentro de mim que vou, sorrindo, todos os dias, todos os dias.