O Desamparo Original

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Nascer é estar fadado ao desamparo. Ele pode ser maior ou menor, mas sempre existe. O que eu não imaginava é que poderíamos carregar essa condição conosco por tanto tempo. A gente cresce, vira adulto, compreendemos nossos pais, suas ausências, falhas, entendemos que eles são humanos imperfeitos, compreendemos, perdoamos. Mas o doido é que o desamparo, o sentimento continua presente, se atualizando nas mais diversas situações. E nos sentimos sós. Sentimo-nos desamparados. Hoje esse buraco é quase concreto para mim. Sou capaz se senti-lo. Sinto também que no lugar desse buraco eu não coloquei nada. Mas em outro lugar eu construí algo novo, que me tornou adulta, que me fez menos adolescente desamparada desesperada. Uma tranquilidade completamente nova. Acho que são os “recursos” que temos que criar. Tem dias que a criança grita. Mas aí eu falo: calma, menina!

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Espelho

Espelho

Me olhei no espelho e me vi criança. Nunca me olhei com tanto carinho. Disse: fica tranquila, vai dar tudo certo. Saí do espelho para ver se aquela imagem iria embora. Quando voltei, já era eu.

“É esta a função de uma análise, levar o sujeito a visualizar o que está atrás do espelho” (Chediak, 2007: 85).

Engatinhando II

Engatinhando II

Também tive minhas marcas com meu pai, ah se tive! Uma vez fomos à padaria. Ele agradeceu à moça pelo pão: obrigado broto! Pai, olha o broto aqui! Será que você está cego? Fiquei revoltada nesse dia, por minha mãe, claro.

Outra vez ele levou minha irmã e eu para assistir Um Príncipe em Nova Iorque no cinema. Numa cena havia várias mulheres com o peito de fora numa banheira. Nunca me senti tão despeitada em toda minha vida!

Engatinhando

Engatinhando

Os dois sonhos mais marcantes da minha vida foram com a minha mãe. Num deles ela se quebrou como um vaso, foi varrida para uma pá e jogada no caminhão de lixo. Que pesadelo! Mas também… Essa mãe só queria saber de dar aula e corrigir prova! Uns bons vinte anos depois veio o outro sonho. Ela estava linda, jovem, de cabelos lisos quase na cintura, de olhos verdes, na sombra de uma piscina, conversando com amigos. Eu era apenas expectadora, nem estava efetivamente ali. Mas ela olhou para mim e sorriu. Que linda! Que deusa! Que pesadelo! Ser expectadora de uma mãe semideusa é triste.

“Na tentativa de substituir a vida intrauterina, este objeto terá a função de proteger, suprir e aliviar as tensões do bebê e, por isso, será revestido de grande valor e onipotência” (Chediak, 2007: 16).

Pedestal

Pedestal

Era de manhã e eu estava em casa, me arrumando para ir trabalhar. Alguém toca a campainha. Era meu pai e mais uma galera, basicamente mulheres. Tinham vindo para o enterro de alguém – será o meu? Já iam saindo e meu pai falou para eu pegá-lo no hotel na terça pela manhã, mas não deu certeza de que iria mesmo embora. Ah pai, você deve ir embora. De mim? Meu pai saiu e minha casa se transformou num grande espaço confuso, cheio de pessoas deformadas, estranhas e bizarras. Ele as deixou ali? Ele saiu, e o que ficou? Fui até a minha cama, mas aí já havia outras camas, com pessoas estranhas dormindo, e eu não encontrava mais minhas roupas. Cadê eu? Uma ou duas mulheres me ofereceram blusas, pareciam blusas pequenas, mas elas disseram que iam servir. Eu era uma criança? Fiquei procurando onde tomar banho. Tirei minha roupa, entrei numa bacia e comecei a me lavar diante daqueles observadores. As pessoas nascem na água? Havia uma cabeça de homem no alto de um pedestal. Ele me perguntou algo, e eu disse não saber. Ele começou a descer. Já não há mais pedestais? Então, o que há?

“Não é, portanto, a ausência do Outro que desperta angústia, mas sim o desejo do Outro, ou seja, a presença do outro enquanto desejante é o que deixará o sujeito desamparado” (Chediak, 2007: 19).

Bolha de Vidro

Bolha de Vidro

Às vezes quero ir, e vou. Às vezes quero ir, e paro. Aí já nem quero mais nada. Quero descansar. Quero ficar sozinha. Aí minhas pernas doem, elas não querem andar, estão doendo poxa! Aí eu me sinto cansada. Deito com as pernas para cima. Olho o teto. Olho minhas pernas já longas, tentando se alongar. Aí também eu já nem quero respirar. Pego o nebulizador. Gosto daquele ar. Mais limpo. Esse nebulizador me lembra uma bolha de vidro. Isola meu ar. Respiro aquilo e melhoro. Olho o teto e melhoro.

Em tempo: médicos já me disseram que eu precisaria viver numa bolha de vidro. Ah, os médicos! Não deveriam pensar que isso pode ser o melhor para alguém. Muito menos deveriam dizer isso a uma menina. Ela pode acreditar.

Cá entre nós: ao ler isso para o meu pai e para o meu tio eles se lembraram de que, ao nascer, eu fiquei numa “caixa de vidro”. Ichi, será que eles foram os primeiros a acreditar?

“(…) o bebê humano é lançado ao mundo de forma não acabada, portando uma incapacidade inata para lidar com um turbilhão de estímulos (Reizen) que a vida lhe reserva” (Chediak, 2007: 14).