Vontade

Vontade

Tem que haver calma. Ela gosta também de silêncio. Só um pouco de barulho, só um pouco de fala, nada que exija uma resposta: isso tira sua concentração. Olhos fechados e boca entreaberta. Pode começar no pescoço, cabeça, orelha, barriga, joelhos ou na parte de dentro das coxas. Como um rio, um raio ou um choque, aquele arrepio é levado para um ponto em suas costas. Aquele ponto contrai e o corpo todo se movimenta, o quadril é levado para trás e o peito para frente. Aí tudo nela escorre. Não fale nada, por favor, não estrague esse momento. Ela já está em outro lugar. Só quer sentir. Coloque algo entre suas pernas. Não precisa mexer em muitas partes, só ali. Com vontade. Bem ali. Continuamente. Continuamente. Aí ela vai gostar de olhar e de parar de olhar. Vai imaginar qualquer situação sem caras, descarada. E tudo vai se estimular à medida que agora é outro ponto que pulsa, que abre, aumenta e avermelha. Continua igual, não mexe em nada, não muda nada, sempre assim, não aperta muito, espera. Pronto.

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Pai e Filho

Pai e Filho

Guilherme sofria por amor. Não chegava a ser rejeitado porque não chegava a se declarar. Amava escondido. Padecia todas as noites: chorava antes de dormir. Fazia pedidos. Imaginava o beijo. Dormia suspirando. Tinha uma queda pelo amor platônico. A vida é mesmo dura. Com todos nós. Estava sendo também para Guilherme.

Ivan ouviu o filho chorar. Bateu fraco na porta e entrou. Como Guilherme continuou com o rosto socado no travesseiro, fez apenas um carinho: “o que foi?” Nenhuma resposta. “Por que você está chorando?” Depois de mais alguns soluços: “nada, não é nada”.

Guilherme sentia que tinha todos os motivos do mundo para chorar. “Entendo, na sua idade eu chorava muito”. O filho virou-se meio de lado: “por que, pai?” Ivan passou as mãos pela barba: “acho que por umas espinhas que eu tinha”.

Guilherme deitou-se virado para cima: “mas você já era casado com a mamãe?” Disse como um possível alento. “Não… Nessa época eu nem a conhecia.” Ivan riu sozinho. “Mas você sabia que teria sorte do amor!” Chorou pensando em seu azar.

“Eu? Não filho, nessa época não me achava sortudo, muito menos no amor”. Chegou mesmo a acreditar que as espinhas não o deixariam viver, a não ser quando estivesse com outros amigos espinhentos.

“Então você conheceu a mamãe bem depois das espinhas?” “Sim, bem depois”. O menino suspirou: “é, você demorou para ter sorte”. O pai soltou o ar num riso.

A vida muda para todos. O que quase sempre é um alívio.

Cinema

Cinema

Júlia abriu a porta e enlaçou os dois braços no pescoço de Henrique. Estava decidida a não sofrer por ele ter sumido no dia anterior. Ele agarrou sua cintura e a tirou do chão por alguns segundos. Entraram cambaleando, rematando o abraço. Henrique não falaria nada sobre ontem, esperaria que ela conduzisse a coisa. Júlia, feliz por não ter pirado, não perguntaria nada dessa vez. Ele pegou uma cerveja com o riso malandro de quem espera por uma inquirição. Apenas ouviu: “foi até bom que você não apareceu, aproveitei para ir ao cinema”. Henrique deu um gole na cerveja: “com quem?” Agora foi a vez dela pegar sua latinha: “sozinha mesmo”. Ele caminhou para o sofá: “Coisa de vagabunda”. Júlia, com seu vestido florido, sentou-se em seu colo: “fala de novo, não entendi o que você disse”.

“Que mulher que vai ao cinema sozinha é vagabunda. Tá pedindo”. Levantou-se antes que ela saísse de suas pernas. “Fui sozinha porque você sumiu!” Ele andou de um lado para outro, como quem recebe notícia ruim: “que filme você viu?” “Ana e o Sexo.” “Tá de brincadeira!” Continuou em seu vai e vem. Ela, sentada, apoiou os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça: “nossa, nada a ver!” “Se não aconteceu nada, você teve sorte. Ou azar, vai saber”. A última frase foi dita já com o cigarro na boca, em voz baixa e a caminho da varanda. Júlia não se conteve: “Azar? Do que você está falando?” “Vai ver queria mesmo dar para qualquer um”. Pronto, ia começar.

“Ir ao cinema sozinha é normal. Sempre fiz isso, minhas amigas também”. Ele riu: “que amigas?” Gostava de ofendê-las. “Para!” Júlia sabia que seu pedido seria vão. “Ninguém chegou em você?” “Claro que não! E você, onde estava ontem?” Exatamente o que ela tinha se prometido não perguntar. Henrique desviou: “com certeza não estava sozinho no cinema, tenho namorada pra isso”. Os dois estavam em pé, frente a frente: “Chega Henrique, chega!” “É melhor mesmo eu ir embora”. Nessa hora, uma angústia surgiu bem ali na garganta dela: “fica”. Não sabia porque implorava por ele: “ontem você sumiu e hoje vai fazer isso?”

Henrique riu e a abraçou meio de lado. Ela o puxou para perto: “dorme aqui hoje?” “Não sei, amanhã tenho que acordar cedo, vou dar aula”. Saiu do abraço e foi para a geladeira abrir outra cerveja. “Eu também tenho que estudar”. Abraçou-o por trás. Ficaram assim por alguns segundos. Se ele fosse embora, Júlia sabia que se sentiria devastada, não conseguiria ficar numa boa pelo segundo dia consecutivo. Ele se virou para ela e a abraçou: “eu te amo”. Júlia chegou a pensar que tudo acabaria ali e que finalmente poderiam relaxar: “em qual sessão você foi?”. Ela pensou em mentir, mas não conseguiu: “Onze e meia”.

“Vou embora”. Aquela angústia presa na garganta desceu para o estômago, bateu e voltou explodindo em um berro. O berro não era de uma mulher em apuros, era de uma lutadora. Foi junto com a saída desse estrondo que Júlia desfechou um soco certeiro no queijo de seu namorado. Ele foi para trás: “tá maluca?” Não era muito dado a esportes. Ela, por outro lado, controlava toda sua ansiedade correndo, pedalando e marombando. Só que ainda não conhecia sua força. Antes que ele voltasse a seu equilíbrio ela desfechou outro e foi para cima dele. Segurou a cabeça dele e bateu no chão. Assustou-se consigo, mas não conseguiu mais parar.

Enquanto berrava, o centro das sobrancelhas se contraía e os olhos arregalavam-se. Mostrava os dentes. Seria capaz de jogar a casa em cima dele, mas se limitou à lata de cerveja. Ele tentava se desvencilhar, mas ela o empurrava, puxava. Rasgou os botões da camisa: “o que você está fazendo? Olha isso!” Ela não conseguia dizer nada, o maxilar estava travado. Ele foi caminhando maltrapilho até a porta. Até que ela começou a gritar com o estômago: “vai embora! Vai embora!” Ele saiu rápido e ela foi direto trancar a porta. Virou-se de frente para a casa bagunçada e ficou respirando forte com a boca seca. Até que deu mais um berro, agora com o corpo todo. Foi para a geladeira e abriu uma latinha bem gelada.

Freud explica?

Freud explica?

Tem uma coisa que acho complexa na teoria de Freud – detalhe: nunca li a teoria de Freud. Mas falo da relação das mulheres com os homens. Ou das mulheres com sua condição. Não entendo, mas sei que aí tem – e por isso me encasqueto. Diz ele que nós, mulheres, temos que abandonar o desejo de um pênis, haja vista que é irrealizável. Ora, por favor, eu nunca desejei isso! Ué, não? Tá, desejei, mas não em mim. Ué, não? Mas isso não significa que eu desejei ser homem, caralho!