O consultório da psicanálise

O consultório da psicanálise

Entendo o consultório como um espaço meu. É um dos poucos lugares em que posso falar (de mim) sem ser interrompida – por histórias semelhantes, de vidas alheias, por conselhos ou sugestões. É o único lugar em que tenho uma escuta profissional – pensa que escutar é fácil? E há quem ache ruim o silêncio do psicanalista! Eu acho uma dádiva. Claro, já tive que preencher muitos silêncios com: “então… Então é isso…” Já senti vazios, confissões, confusões, já perdi a linha de raciocínio… Mas temos que lidar com esses lapsos. Já me arrisquei a perguntar: do que eu falo agora? Você concorda? Ela dá um sorrisinho e nada. Ai! E agora? Mesmo com esse incômodo, a última coisa que eu quero é uma psicóloga que me interrompa ou que responda às minhas perguntas com uma opinião que é dela, e não minha. E assim, ela faz intervenções muito pontuais, algumas perguntas, frases, sons. Nessa toada fui falando, fui me confundindo, me esvaziando, fui me angustiando, me paralisando, não reconhecendo, chorando, palpitando, sonhando, escrevendo, tremendo, nascendo, me percebendo e reconhecendo, finalmente, alguns lugares qualitativamente diferentes e verdadeiramente melhores.

“Esta pesquisa, portanto, tem o objetivo de resgatar as contribuições da psicanálise no estudo de um tema tão antigo e tão atual com o da angústia, fundamentando através da teoria e da clínica como ainda é fecundo o ato de falar. Pedindo ao paciente que associe livremente, provocamos a emergência de equívocos e mal entendidos e escutando o saber que dali advém permitimos que os sintomas que comparecem no corpo sejam “esburacados”, desestabilizados, e a partir daí a angústia pode comparecer sinalizando aquilo que o sujeito tem de mais particular, seu desejo mais puro” (Chediak, 2007: 11).

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Castração

Castração

Não me lembro sobre como fui parar naquele lugar. Era “eu” espaço depois de uma porta. Somente uma porta e, depois dela, um corredor comprido, e aí salas, cozinhas, espaços mais amplos. Não tinha janelas, não havia como sair dali. Não havia outra opção se não mergulhar na loucura e no que ali acontecia independentemente da minha vontade. Pessoas tendo que entrar em contato com suas dores, pessoas sangrando, pessoas pela metade, quebradas. Numa cena uma atriz transava em pé com um cara. Eu estava vendo. Havia evidências incontroláveis do que eu sentia. Olhavam, apontavam para mim e riam. Eu não queria fazer parte daquilo ao mesmo tempo não havia opção. Não havia controle. Incomodava-me a intensidade da situação e quão desnuda ela era, tão escancarada, tão animal, tão aflorada de sentimentos. Nesse espaço tudo vinha sem floreios. Nesse espaço minha mãe morreu. Não me lembro mais da situação e nem como. Via outras pessoas sofrendo, havia muitas encenações dramáticas nas quais nos envolvíamos. Passei por algumas. Até que comecei a enfrentar as situações desse espaço. Saquei o drama e a intensidade do que era vivenciado ali e que eu tinha que experimentar aquilo. O inconsciente, os sentimentos, estava tudo ali. Quando acabou a sessão a psicóloga disse: acho que você está lidando melhor com a castração. Não entendi, mas fiquei aliviada.

Cadê a analista?

Cadê a analista?

Sonhei com a minha psicóloga. A gente estava num sofá, como amigas, as pernas de uma sobre as pernas da outra. Quanta intimidade.  Ela me falava que voltaria para o interior de São Paulo, para perto de sua família, pois estava muito difícil viver Brasília, já que seu marido não a ajudava em nada. Olha só, ela tem problemas?! Seria ela tão humana quanto eu? Vi os pés dela. Ah, humano demais! Que estranho! Mas sério: embora ela nunca tenha dito, tenho certeza de que ela não é casada com um traste. Certeza que o marido dela é um cara legal. Certeza que ela é muito inteligente. Certeza que ela me entende totalmente. Certeza que somos parecidas. Quase iguais. Ela e eu. Apenas. Seria somente eu? Cadê ela, afinal? Mas ainda assim, no meu sonho eu disse que não saberia o que fazer sem ela. Ela apenas sorriu, fazendo cara de que eu saberia sim. Perguntei se ela teria alguma colega para me indicar, e ela sorriu novamente, desaprovando totalmente minha pergunta. Às vezes parece que ela não precisa dizer nada para que eu entenda o que deve ser compreendido.

A tal moça

A tal moça

Uma moça matou diversas pessoas numa casa. Eu estava junto, assistindo a tudo como cúmplice. Ela era eu. Restava uma dúvida: ela me mataria também? Não matou. Beijou-me. Ela fazia isso por mim. Cobrimos os corpos. Preocupava-me se os vizinhos e as crianças veriam. A moça disse que cuidaria de tudo. Eu ficava pensando se conseguiria viver normalmente, sem pagar pelos crimes. Mas a moça parecia muito tranquila.

“Esse encontro com a falta do Outro vai abrir caminho para a necessidade de que o sujeito coloque ali algo de si, com seu estilo imprima sua marca em sua invenção” (Chediak, 2014: 128).

Espelho

Espelho

Me olhei no espelho e me vi criança. Nunca me olhei com tanto carinho. Disse: fica tranquila, vai dar tudo certo. Saí do espelho para ver se aquela imagem iria embora. Quando voltei, já era eu.

“É esta a função de uma análise, levar o sujeito a visualizar o que está atrás do espelho” (Chediak, 2007: 85).

Não tem mais volta

Não tem mais volta

Os Outros começaram a me estranhar. “Não reconheço mais a Virgínia”. Ei, por que você fala como se eu não estivesse aqui? Outro dia ouvi: “Virgínia, não estou te reconhecendo!” Fiquei sem reação. O que você espera de mim? Por que estou ouvindo isso? Eu correspondia à sua expectativa até então? O que mudou? Se eu não estou aqui, quem está?

Achei na casa da minha mãe uma pulseira de quando eu era bem novinha. Coloquei essa pulseira no pulso querendo ser aquela. Mas já havia outra pulsando.

Tirei a pulseira. Melhor não resistir.

“Estamos a todo o momento a mendigar demandas de um Outro, a solicitar que o Outro nos diga o que somos e o que queremos” (Chediak, 2007:55).

Identificação Solidária

Identificação Solidária

Quando saíamos por um corredor, meu tio, sua esposa e filha estavam num quarto. Meu tio veio atrás de mim para dizer que sua esposa chorava porque sua filha foi numa festa, beber guaraná, ao invés de estar presente num momento difícil deles. A filha estava sendo punida por seus pais.

E eu? Existe algum tipo de punição nisso tudo?

Meu pai tem uma doença no coração, e é o meu coração que sinto. Meu pai está psicótico, e eu sinto angústia. Meu pai tem paranoia, e eu sinto medo.

“O sintoma é, portanto, um significado dado ao sujeito sobre sua existência, pelo Outro. Dessa forma, em que medida o sintoma é do Outro?” (Chediak, 2007: 66).

E não é que em certa noite minha mãe me disse: por que você sente angústia? Essa angústia é minha! E outro dia eu confundi esse sonho com realidade.

“(…) é numa análise que os sintomas poderão ser decifrados, na medida em que o sujeito, a partir de sua fala, compartilha com o analista o discurso que é do Outro” (Chediak, 2007: 67).

Engatinhando

Engatinhando

Os dois sonhos mais marcantes da minha vida foram com a minha mãe. Num deles ela se quebrou como um vaso, foi varrida para uma pá e jogada no caminhão de lixo. Que pesadelo! Mas também… Essa mãe só queria saber de dar aula e corrigir prova! Uns bons vinte anos depois veio o outro sonho. Ela estava linda, jovem, de cabelos lisos quase na cintura, de olhos verdes, na sombra de uma piscina, conversando com amigos. Eu era apenas expectadora, nem estava efetivamente ali. Mas ela olhou para mim e sorriu. Que linda! Que deusa! Que pesadelo! Ser expectadora de uma mãe semideusa é triste.

“Na tentativa de substituir a vida intrauterina, este objeto terá a função de proteger, suprir e aliviar as tensões do bebê e, por isso, será revestido de grande valor e onipotência” (Chediak, 2007: 16).

Pedestal

Pedestal

Era de manhã e eu estava em casa, me arrumando para ir trabalhar. Alguém toca a campainha. Era meu pai e mais uma galera, basicamente mulheres. Tinham vindo para o enterro de alguém – será o meu? Já iam saindo e meu pai falou para eu pegá-lo no hotel na terça pela manhã, mas não deu certeza de que iria mesmo embora. Ah pai, você deve ir embora. De mim? Meu pai saiu e minha casa se transformou num grande espaço confuso, cheio de pessoas deformadas, estranhas e bizarras. Ele as deixou ali? Ele saiu, e o que ficou? Fui até a minha cama, mas aí já havia outras camas, com pessoas estranhas dormindo, e eu não encontrava mais minhas roupas. Cadê eu? Uma ou duas mulheres me ofereceram blusas, pareciam blusas pequenas, mas elas disseram que iam servir. Eu era uma criança? Fiquei procurando onde tomar banho. Tirei minha roupa, entrei numa bacia e comecei a me lavar diante daqueles observadores. As pessoas nascem na água? Havia uma cabeça de homem no alto de um pedestal. Ele me perguntou algo, e eu disse não saber. Ele começou a descer. Já não há mais pedestais? Então, o que há?

“Não é, portanto, a ausência do Outro que desperta angústia, mas sim o desejo do Outro, ou seja, a presença do outro enquanto desejante é o que deixará o sujeito desamparado” (Chediak, 2007: 19).

Bolha de Vidro

Bolha de Vidro

Às vezes quero ir, e vou. Às vezes quero ir, e paro. Aí já nem quero mais nada. Quero descansar. Quero ficar sozinha. Aí minhas pernas doem, elas não querem andar, estão doendo poxa! Aí eu me sinto cansada. Deito com as pernas para cima. Olho o teto. Olho minhas pernas já longas, tentando se alongar. Aí também eu já nem quero respirar. Pego o nebulizador. Gosto daquele ar. Mais limpo. Esse nebulizador me lembra uma bolha de vidro. Isola meu ar. Respiro aquilo e melhoro. Olho o teto e melhoro.

Em tempo: médicos já me disseram que eu precisaria viver numa bolha de vidro. Ah, os médicos! Não deveriam pensar que isso pode ser o melhor para alguém. Muito menos deveriam dizer isso a uma menina. Ela pode acreditar.

Cá entre nós: ao ler isso para o meu pai e para o meu tio eles se lembraram de que, ao nascer, eu fiquei numa “caixa de vidro”. Ichi, será que eles foram os primeiros a acreditar?

“(…) o bebê humano é lançado ao mundo de forma não acabada, portando uma incapacidade inata para lidar com um turbilhão de estímulos (Reizen) que a vida lhe reserva” (Chediak, 2007: 14).