Freud explica?

Freud explica?

Tem uma coisa que acho complexa na teoria de Freud – detalhe: nunca li a teoria de Freud. Mas falo da relação das mulheres com os homens. Ou das mulheres com sua condição. Não entendo, mas sei que aí tem – e por isso me encasqueto. Diz ele que nós, mulheres, temos que abandonar o desejo de um pênis, haja vista que é irrealizável. Ora, por favor, eu nunca desejei isso! Ué, não? Tá, desejei, mas não em mim. Ué, não? Mas isso não significa que eu desejei ser homem, caralho!

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Entre quatro paredes

Entre quatro paredes

Comecei a ter sonhos sexuais. Deve ter a ver com o Freud. Já perguntei para minha psicóloga se quando Freud fala em sexo, é sexo mesmo. Ela disse que é mais amplo que isso. Entendi que diz respeito àquilo que fazemos com tesão. Pode ser qualquer coisa. Se bem que uma vez li umas partes do livro dele, e parecia que ele falava de sexo, sexo mesmo. Bom, longe de mim entender. Aí fui contando meu sonho e a psicóloga disse: sempre tem alguém observando. Verdade! Como estudei Sociologia, na hora imaginei a presença da sociedade, aquela coerção que sentimos mesmo quando estamos sozinhos. Que pode ser o Grande Outro. Que pode ser Deus. Dizem que o que ocorre entre quatro paredes não diz respeito a mais ninguém. Será? Como se ali houvesse espaço para transgressão, para o inusitado, para o completamente novo, quem sabe até para a inversão de valores. Eu posso ser pudica demais. Mas o fato é que me sinto completamente coerente dentro e fora de quatro paredes. A grande diferença, para mim, é que algumas coisas eu só faço entre quatro paredes. Mas sabe, sobre o prazer e sobre esses observadores, teve uma coisa diferente nesse sonho. Essa presença não me intimidou. Fui até o fim. E para mim, é aí onde posso chegar. Pois não acredito num espaço suspenso esvaziado de sentido, não acredito em quatro paredes, mas acredito que mesmo assim, mesmo com essas presenças, olhares, expectativas, palpites, censuras, temos que ir adiante naquilo que nos dá prazer. Simples assim.

Identificação Solidária

Identificação Solidária

Quando saíamos por um corredor, meu tio, sua esposa e filha estavam num quarto. Meu tio veio atrás de mim para dizer que sua esposa chorava porque sua filha foi numa festa, beber guaraná, ao invés de estar presente num momento difícil deles. A filha estava sendo punida por seus pais.

E eu? Existe algum tipo de punição nisso tudo?

Meu pai tem uma doença no coração, e é o meu coração que sinto. Meu pai está psicótico, e eu sinto angústia. Meu pai tem paranoia, e eu sinto medo.

“O sintoma é, portanto, um significado dado ao sujeito sobre sua existência, pelo Outro. Dessa forma, em que medida o sintoma é do Outro?” (Chediak, 2007: 66).

E não é que em certa noite minha mãe me disse: por que você sente angústia? Essa angústia é minha! E outro dia eu confundi esse sonho com realidade.

“(…) é numa análise que os sintomas poderão ser decifrados, na medida em que o sujeito, a partir de sua fala, compartilha com o analista o discurso que é do Outro” (Chediak, 2007: 67).

Engatinhando II

Engatinhando II

Também tive minhas marcas com meu pai, ah se tive! Uma vez fomos à padaria. Ele agradeceu à moça pelo pão: obrigado broto! Pai, olha o broto aqui! Será que você está cego? Fiquei revoltada nesse dia, por minha mãe, claro.

Outra vez ele levou minha irmã e eu para assistir Um Príncipe em Nova Iorque no cinema. Numa cena havia várias mulheres com o peito de fora numa banheira. Nunca me senti tão despeitada em toda minha vida!

Engatinhando

Engatinhando

Os dois sonhos mais marcantes da minha vida foram com a minha mãe. Num deles ela se quebrou como um vaso, foi varrida para uma pá e jogada no caminhão de lixo. Que pesadelo! Mas também… Essa mãe só queria saber de dar aula e corrigir prova! Uns bons vinte anos depois veio o outro sonho. Ela estava linda, jovem, de cabelos lisos quase na cintura, de olhos verdes, na sombra de uma piscina, conversando com amigos. Eu era apenas expectadora, nem estava efetivamente ali. Mas ela olhou para mim e sorriu. Que linda! Que deusa! Que pesadelo! Ser expectadora de uma mãe semideusa é triste.

“Na tentativa de substituir a vida intrauterina, este objeto terá a função de proteger, suprir e aliviar as tensões do bebê e, por isso, será revestido de grande valor e onipotência” (Chediak, 2007: 16).

Paralisada

Paralisada

Sem saber o que quero fazer. Não, sabendo mil coisas que gostaria de fazer, mas me sentido incapaz para todas elas. Daí a inércia, o não fazer. O vazio, o tédio, a angústia e a ansiedade. O coração que dispara e aperta. O mal estar. O pensamento em mim. Cadê o café? Penso num curso, que cria a obrigação do fazer. Não quero mais a obrigação. Essa lacuna que abarca todas as possibilidades ainda me deixa paralisada. Semana passada mandei colocar num quadro nosso convite de casamento. Fiz isso completamente sozinha, o que muda tudo, o que computo como uma vitória. O que é colocar um convite de casamento na parede? Imprimir uma história, uma marca, uma escolha, desde a escolha do casamento até a escolha da moldura. Pronto, me coloquei de alguma forma em algo, externalizei algo de mim. Registrei minha existência de alguma forma. Assim como faço aqui, do fundo dos meus sentimentos, escrevo sobre o nada, esse espaço vazio que resta. Parece que minha língua está inchada, tenho certeza que meus olhos marejam. Mas também me tranquiliza escrever agora. As rádios foram sintonizadas no carro pelo André, o CD que ouço foi ele que gravou já faz um tempo. Penso que a única coisa boa mesmo na minha vida são eles. Ah, e eles são demais. Penso que talvez seja melhor me dedicar a eles, que valem mais a pena. Penso nas minhas conquistas e nos meus caminhos. Já não tenho certeza se são meus. Repito, minha família, meu marido e meu filho são meus. São meu tesouro. Conquistei, naveguei, passei por tempestades, procurei e achei meus amores. Mas e eu? Eu sou Virgínia, nome que minha mãe escolheu inspirada e homenageando à minha bisavó, que ela via como guerreira, que ficou velha e lúcida por muito tempo. Tá, está entendido que era melhor que eu fosse guerreira. Chegou o café, ajuda na luta. Sou Ferreira, neta do Ernesto, homem rígido, e da Catarina, avó sensível ao calor, ao clima e às sensações do seu corpo. Sou Silva, sou pobre. Neta do vô Toninho, que vi pouco, que logo ficou doente, não se levantava de uma cadeira, mas era menos rígido que o Ernesto. Tomava as suas e tinha as suas também. E a vó Lúcia, cristã, rezava e chorava muito, não sabia por que estava vivendo por tanto tempo. E sou Castro por opção.

“É a angústia que conduzirá o sujeito à sua verdade” (Chediak, 2007: 11).