Arte e Esporte

Arte e Esporte

Quando foi mesmo que eu parei de dançar? Quando foi que eu deixei de tocar berimbau e de cantar? Quando foi que parei de suar? De treinar? De jogar? De pedalar? Quando foi mesmo que eu parei de fazer Yoga e de tentar meditar? Quando foi que eu deixei de malhar? De me alongar? De tentar nadar?

Quando foi mesmo que eu parei de sonhar?

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O consultório da psicanálise

O consultório da psicanálise

Entendo o consultório como um espaço meu. É um dos poucos lugares em que posso falar (de mim) sem ser interrompida – por histórias semelhantes, de vidas alheias, por conselhos ou sugestões. É o único lugar em que tenho uma escuta profissional – pensa que escutar é fácil? E há quem ache ruim o silêncio do psicanalista! Eu acho uma dádiva. Claro, já tive que preencher muitos silêncios com: “então… Então é isso…” Já senti vazios, confissões, confusões, já perdi a linha de raciocínio… Mas temos que lidar com esses lapsos. Já me arrisquei a perguntar: do que eu falo agora? Você concorda? Ela dá um sorrisinho e nada. Ai! E agora? Mesmo com esse incômodo, a última coisa que eu quero é uma psicóloga que me interrompa ou que responda às minhas perguntas com uma opinião que é dela, e não minha. E assim, ela faz intervenções muito pontuais, algumas perguntas, frases, sons. Nessa toada fui falando, fui me confundindo, me esvaziando, fui me angustiando, me paralisando, não reconhecendo, chorando, palpitando, sonhando, escrevendo, tremendo, nascendo, me percebendo e reconhecendo, finalmente, alguns lugares qualitativamente diferentes e verdadeiramente melhores.

“Esta pesquisa, portanto, tem o objetivo de resgatar as contribuições da psicanálise no estudo de um tema tão antigo e tão atual com o da angústia, fundamentando através da teoria e da clínica como ainda é fecundo o ato de falar. Pedindo ao paciente que associe livremente, provocamos a emergência de equívocos e mal entendidos e escutando o saber que dali advém permitimos que os sintomas que comparecem no corpo sejam “esburacados”, desestabilizados, e a partir daí a angústia pode comparecer sinalizando aquilo que o sujeito tem de mais particular, seu desejo mais puro” (Chediak, 2007: 11).

Texto para o blog

Texto para o blog

Sabe o que tem sido difícil? Escrever pensando que as pessoas lerão. Não posso falar tanta coisa, afinal, não quero me expor, não quero expor as pessoas próximas. E agora, como escrever sem coragem? A escrita sem coragem é chata e enfadonha, não tem graça, não causa nada. Arrisco-me até a dizer – sem ser escritora – que escrever é surpreender a si mesmo e sempre, sempre ir além. Uma vez um colega meu, há muitos e muitos anos, me fez uma proposta indecorosa: escreva uma cena capaz de me fazer sentir tesão. Nossa, achei um absurdo. Nunca, jamais! Hoje eu entendo o desafio. Ah sim, porque sem quebrar nossos próprios tabus, não há escrita que se preze. Se não houver um desafiar-se, nada sairá. E tem mais: eu gosto de dizeres claros. Insuportáveis são as palavras que quase dizem. E agora, com todo esse ímpeto, qual é o meu problema? Os outros. Eles novamente! Aí entra a bendita psicanálise. De um lado, a minha novidade, a piscina literária, eu dentro dela a flutuar e, de outro, os olhares, as leituras e os desejos alheios. E agora entendo mais uma lição do desafio colocado por meu amigo: provoque. Agora, só não posso me ocupar do que causarei em cada um. Por isso sigo em frente. Não quero ficar fechada num bloquinho de anotações no fundo da gaveta. Assim vou me esquecer de mim!

Entre quatro paredes

Entre quatro paredes

Comecei a ter sonhos sexuais. Deve ter a ver com o Freud. Já perguntei para minha psicóloga se quando Freud fala em sexo, é sexo mesmo. Ela disse que é mais amplo que isso. Entendi que diz respeito àquilo que fazemos com tesão. Pode ser qualquer coisa. Se bem que uma vez li umas partes do livro dele, e parecia que ele falava de sexo, sexo mesmo. Bom, longe de mim entender. Aí fui contando meu sonho e a psicóloga disse: sempre tem alguém observando. Verdade! Como estudei Sociologia, na hora imaginei a presença da sociedade, aquela coerção que sentimos mesmo quando estamos sozinhos. Que pode ser o Grande Outro. Que pode ser Deus. Dizem que o que ocorre entre quatro paredes não diz respeito a mais ninguém. Será? Como se ali houvesse espaço para transgressão, para o inusitado, para o completamente novo, quem sabe até para a inversão de valores. Eu posso ser pudica demais. Mas o fato é que me sinto completamente coerente dentro e fora de quatro paredes. A grande diferença, para mim, é que algumas coisas eu só faço entre quatro paredes. Mas sabe, sobre o prazer e sobre esses observadores, teve uma coisa diferente nesse sonho. Essa presença não me intimidou. Fui até o fim. E para mim, é aí onde posso chegar. Pois não acredito num espaço suspenso esvaziado de sentido, não acredito em quatro paredes, mas acredito que mesmo assim, mesmo com essas presenças, olhares, expectativas, palpites, censuras, temos que ir adiante naquilo que nos dá prazer. Simples assim.

A tal moça

A tal moça

Uma moça matou diversas pessoas numa casa. Eu estava junto, assistindo a tudo como cúmplice. Ela era eu. Restava uma dúvida: ela me mataria também? Não matou. Beijou-me. Ela fazia isso por mim. Cobrimos os corpos. Preocupava-me se os vizinhos e as crianças veriam. A moça disse que cuidaria de tudo. Eu ficava pensando se conseguiria viver normalmente, sem pagar pelos crimes. Mas a moça parecia muito tranquila.

“Esse encontro com a falta do Outro vai abrir caminho para a necessidade de que o sujeito coloque ali algo de si, com seu estilo imprima sua marca em sua invenção” (Chediak, 2014: 128).

Casa

Casa

Sempre uma casa. Sempre os meus pais. Sempre uma casa que não é deles, mas eles moram lá – claro que essa casa é minha, se não for eu mesma. Sempre uma parte obscura. Uma continuidade aonde ninguém entra, nem eu. Um lugar misterioso – dentro de mim. Estamos na parte conhecida. Mas aquele lugar permanece ali, sempre ali. Nem tentei entrar. Sonho vai. Sonho vem. Sessão vai. Sessão vem. E a casa foi mudando. Passou a ser outras casas possíveis. Essa extensão escura passou a ser mais clara. Virou até um jardim. Virou até outra casa, veja só. Nessa noite virou quarto dentro de quarto. Quartos novos! Bonitos! Mas pra que tanto quarto? Fingi que não era comigo. Não, não deitei na cama. Mas ora bolas, eu que fiz esse quarto dentro de quarto. Mesmo que eu ainda não o entenda muito bem, já sinto um baita orgulho de mim.

Paralisada

Paralisada

Sem saber o que quero fazer. Não, sabendo mil coisas que gostaria de fazer, mas me sentido incapaz para todas elas. Daí a inércia, o não fazer. O vazio, o tédio, a angústia e a ansiedade. O coração que dispara e aperta. O mal estar. O pensamento em mim. Cadê o café? Penso num curso, que cria a obrigação do fazer. Não quero mais a obrigação. Essa lacuna que abarca todas as possibilidades ainda me deixa paralisada. Semana passada mandei colocar num quadro nosso convite de casamento. Fiz isso completamente sozinha, o que muda tudo, o que computo como uma vitória. O que é colocar um convite de casamento na parede? Imprimir uma história, uma marca, uma escolha, desde a escolha do casamento até a escolha da moldura. Pronto, me coloquei de alguma forma em algo, externalizei algo de mim. Registrei minha existência de alguma forma. Assim como faço aqui, do fundo dos meus sentimentos, escrevo sobre o nada, esse espaço vazio que resta. Parece que minha língua está inchada, tenho certeza que meus olhos marejam. Mas também me tranquiliza escrever agora. As rádios foram sintonizadas no carro pelo André, o CD que ouço foi ele que gravou já faz um tempo. Penso que a única coisa boa mesmo na minha vida são eles. Ah, e eles são demais. Penso que talvez seja melhor me dedicar a eles, que valem mais a pena. Penso nas minhas conquistas e nos meus caminhos. Já não tenho certeza se são meus. Repito, minha família, meu marido e meu filho são meus. São meu tesouro. Conquistei, naveguei, passei por tempestades, procurei e achei meus amores. Mas e eu? Eu sou Virgínia, nome que minha mãe escolheu inspirada e homenageando à minha bisavó, que ela via como guerreira, que ficou velha e lúcida por muito tempo. Tá, está entendido que era melhor que eu fosse guerreira. Chegou o café, ajuda na luta. Sou Ferreira, neta do Ernesto, homem rígido, e da Catarina, avó sensível ao calor, ao clima e às sensações do seu corpo. Sou Silva, sou pobre. Neta do vô Toninho, que vi pouco, que logo ficou doente, não se levantava de uma cadeira, mas era menos rígido que o Ernesto. Tomava as suas e tinha as suas também. E a vó Lúcia, cristã, rezava e chorava muito, não sabia por que estava vivendo por tanto tempo. E sou Castro por opção.

“É a angústia que conduzirá o sujeito à sua verdade” (Chediak, 2007: 11).