Diário de uma leitora

Diário de uma leitora

Não julguem de antemão: não sou uma grande leitora. Não por ler pouco, mas porque nunca foi fácil encontrar o livro certo.

Quando quis um livro grande li, em meu beliche, Memorial do Convento. Não pulei uma palavra sequer. Queria passar no vestibular e li Dom Casmurro. Queria experimentar sentimentos e li Edgar Alan Poe na cama da minha mãe. Descobri que palavras, e somente elas, podem causar medo.  Queria sofrer por amor antes de amar, me debulhei com A Dama das Camélias. Achei que fosse morrer de amor um dia. Estava entediada quando li Noite na Taverna, do Alvares de Azevedo. Naquelas férias pensei nos que morrem cedo. Estava ansiosa pela juventude que chegava quando li Feliz Ano Velho. Poucas pessoas se lembram de que há uma Virgínia na história – e ela não usava sutiã. Estava com vontade de transgredir e li A Grande Arte, adorei ser fisgada por mistérios e alguma obscenidade. Depois, queria compartilhar leitura com uma amiga e li Encontro Marcado. Passamos a amarrar angústia pelos bares da cidade. Gostava de me olhar no espelho até me estranhar quando li A Náusea, do Sartre. Queria algo rápido e li A Metamorfose. Aprendi que tamanho não é documento. Estava muito absorta em meus pensamentos quando li Água Viva. Compreendi todas as viagens de Clarice Lispector. Queria um grande livro e li Cem Anos de Solidão. Comecei cem vezes até que parei de me importar com o nome dos personagens. Encantei-me com Macondo. Queria impressionar meu futuro marido e li Amor nos Tempos do Cólera. Meu amor por ele aumentou. Não queria nada e fui atraída por Heathcliff, personagem de O Morro dos Ventos Uivantes. Queria passar meu tempo e li O Grande Gatsby. Estava fazendo análise quando li Carta ao Pai. Escrevi algo para o meu também. Queria escrever, li Sobre a Escrita de um autor que nunca havia lido, Stephen King. Acreditei que poderia ser escritora.

Queria ser uma devoradora de livros, mas são eles que me devoram: me fazem sentir medo, desejar amar até o fim, estranhar a simples existência e até desejar escrever. Talvez seja péssima leitora por não procurar leituras, mas encontros.

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Vontade

Vontade

Tem que haver calma. Ela gosta também de silêncio. Só um pouco de barulho, só um pouco de fala, nada que exija uma resposta: isso tira sua concentração. Olhos fechados e boca entreaberta. Pode começar no pescoço, cabeça, orelha, barriga, joelhos ou na parte de dentro das coxas. Como um rio, um raio ou um choque, aquele arrepio é levado para um ponto em suas costas. Aquele ponto contrai e o corpo todo se movimenta, o quadril é levado para trás e o peito para frente. Aí tudo nela escorre. Não fale nada, por favor, não estrague esse momento. Ela já está em outro lugar. Só quer sentir. Coloque algo entre suas pernas. Não precisa mexer em muitas partes, só ali. Com vontade. Bem ali. Continuamente. Continuamente. Aí ela vai gostar de olhar e de parar de olhar. Vai imaginar qualquer situação sem caras, descarada. E tudo vai se estimular à medida que agora é outro ponto que pulsa, que abre, aumenta e avermelha. Continua igual, não mexe em nada, não muda nada, sempre assim, não aperta muito, espera. Pronto.

Entre quatro paredes

Entre quatro paredes

Comecei a ter sonhos sexuais. Deve ter a ver com o Freud. Já perguntei para minha psicóloga se quando Freud fala em sexo, é sexo mesmo. Ela disse que é mais amplo que isso. Entendi que diz respeito àquilo que fazemos com tesão. Pode ser qualquer coisa. Se bem que uma vez li umas partes do livro dele, e parecia que ele falava de sexo, sexo mesmo. Bom, longe de mim entender. Aí fui contando meu sonho e a psicóloga disse: sempre tem alguém observando. Verdade! Como estudei Sociologia, na hora imaginei a presença da sociedade, aquela coerção que sentimos mesmo quando estamos sozinhos. Que pode ser o Grande Outro. Que pode ser Deus. Dizem que o que ocorre entre quatro paredes não diz respeito a mais ninguém. Será? Como se ali houvesse espaço para transgressão, para o inusitado, para o completamente novo, quem sabe até para a inversão de valores. Eu posso ser pudica demais. Mas o fato é que me sinto completamente coerente dentro e fora de quatro paredes. A grande diferença, para mim, é que algumas coisas eu só faço entre quatro paredes. Mas sabe, sobre o prazer e sobre esses observadores, teve uma coisa diferente nesse sonho. Essa presença não me intimidou. Fui até o fim. E para mim, é aí onde posso chegar. Pois não acredito num espaço suspenso esvaziado de sentido, não acredito em quatro paredes, mas acredito que mesmo assim, mesmo com essas presenças, olhares, expectativas, palpites, censuras, temos que ir adiante naquilo que nos dá prazer. Simples assim.