Aérea

Aérea

De tão leve quase não tem peso: a gente pega e parece que não sente. Cabe no bolso. Com um esforço pequeno conseguiria quebrar o seu pescoço. Daquelas coisas que a gente pensa que pode fazer, mas não faz. Parece que ele é de madeira, mas não pesa como madeira. Deve ser de algum material que desconheço. Sua asa parece uma folha, tem como se fossem sulcos. Não sei exatamente o que são sulcos, mas penso naquilo que faz os desenhos numa folha, e que estão na asa desse passarinho. Não sei se ele está chocando um ovinho ou na posição de levantar voo. Não entendo absolutamente nada de passarinhos. Espero que não seja o pássaro que dizem que é o espírito santo. Até hoje não entendi essa história, a parte da pomba. Sabe, às vezes me pergunto em que mundo eu vivo. Dos pássaros gosto do canto e das cores. Gosto que são pequenos e bonitos quando olhamos de longe. Desconfio dos animais olhados de perto. Sempre me decepcionei com os bichos ao vivo. Que feios! Desconfio até dos passarinhos mais lindos.

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Caça Palavras

Caça Palavras

A palavra escorrega. Esvai. Parece até que foge. Ela quer mais de mim. Mais dedicação, mais anotação. Ela não me espera. Vai rápido. Escoa. Quando vejo, perdi. Aí vem outra. Passa pulando. Tento pegá-la num rodopio! Deslizo. Procuro palavras como quem tenta lembrar de um sonho. Elas parecem presas a fios invisíveis: que se desprendem, se embaralham, me enganam. Mas não posso ser injusta. As palavras são generosas. Estão aqui e ali, vão e voltam. Elas precisam de alguém que as escreva. Pobres e tentadoras palavras sozinhas. Somente quando minha mente dança – na mesma medida da perseverança – elas escorrem para o papel. Juntas, desfilam sentidos inesperados. Maravilhosas entrelinhas. Me encontro bem ali no que não foi escrito. Naquilo que precisa de palavras, mas que não pode ser dito. E elas, danadas, continuam pulando aqui e ali, para que sejam agarradas e para  que, finalmente, possam rasgar sentidos. Descaradamente.