Pane

Pane

Eduarda dava volta ao mundo todos os dias. “Good morning ladies and gentleman. Welcome aboard”. Tinha alguma coisa errada. “In a few moments, the flight attendants will be passing around the cabin to offer you hot or cold drinks”. O que eu faço?” – se perguntava dia e noite enquanto sorria servindo os passageiros. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê. “The Captain has turned on the fasten seat belt sign”. Não conseguia exatamente o que queria, e sempre queria tanta coisa! We are looking forward to seeing you on board again”.

Uma das coisas que ela queria, conseguia quase que completamente: era linda. Mais do que isso: todos viam sua beleza. Vaidosa como era, curtia a sombra azul e o batom avermelhado que passava todos os dias. O contentamento com a aparência fazia diminuir a angústia dos piores dias. Agora, quando nem a maquiagem adiantava, era porque os piores dias se estendiam demais. Aí ela amaldiçoava o vermelho e o azul do céu.

Conheceu 40 países vomitando. Nunca se dera bem com a altura e sempre resistiu a tomar remédios. “Quem mesmo me deu a ideia de ser comissária?”. Detestava turbulências! Já tinha suado e chorado muitas vezes. Sempre quis conhecer o mundo, mas nunca desejou pingar cansada em diferentes países, com diferentes pessoas, em épocas do ano não propícias, independente do clima ou de seu temperamento. Temperamento: ninguém se importava com isso. Não aguentava mais sorrir: ninguém se importava com isso. Não aguentava mais concordar. Sentia-se inchada naqueles dias.

Voava espremida. “Será que se eu explodir, o avião explode junto?” Olhava com raiva pela janela pequena que fazia a imensidão perder o sentido. Não cabia mais ali. Não aguentava mais servir. Não aguentava mais limpar. Só que não tinha uma bomba colada ao corpo. Desejou que alguém fizesse uma loucura. Estava muito cansada. Foi para o banheiro e olhou-se fixamente no espelho. Fitou seus olhos arrebitados. Molhou as mãos e, com a ajuda da água, esticou melhor seus cabelos presos no coque alto.

Desistiu de esticar os cabelos e fez o movimento contrário com as mãos, arrepiando os fios no topo da cabeça. Respirou longamente e vestiu seu pequeno chapéu com tranquilidade. Depois, pegou o batom e avermelhou a boca sem suavidade. Resolveu aumentar os lábios. Pensou em borrar-se toda. Controlou-se. Sentiu-se abafada. Uma leve tontura. Passou um lápis preto nos olhos. “Tenho que dar um jeito de sair daqui”. Passou e repassou o lápis muitas vezes, dentro e fora dos olhos, quase se machucou. Ouviu batidas na porta. Os olhos avermelharam, pensou que ia chorar, mas logo se sentiu seca, tão seca que quase não conseguia se movimentar.

Batidas. Molhou as mãos e passou no rosto. Conseguiu se manchar toda. Não queria mais nada daquilo. Batidas: “estamos te esperando”. Eduarda abriu apenas uma fresta, o suficiente para mostrar seu rosto para a colega: “não consigo sair”. A amiga pensou rápido – pendurou uma placa de interditado do lado de fora da porta.

Eduarda ficou sentada no vaso até o avião pousasse. Sem cinto e sem segurança nenhuma. Tirou os sapatos e a blusa de dentro da saia. Soltou seus cabelos que imediatamente armaram-se desalinhados. Esperou todo mundo descer e continuou se desmontando. Saiu sem olhar para os lados, sem responder ou sorrir para ninguém. Caminhou no seu ritmo e sentiu seus pés no chão.

 

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Caça Palavras

Caça Palavras

A palavra escorrega. Esvai. Parece até que foge. Ela quer mais de mim. Mais dedicação, mais anotação. Ela não me espera. Vai rápido. Escoa. Quando vejo, perdi. Aí vem outra. Passa pulando. Tento pegá-la num rodopio! Deslizo. Procuro palavras como quem tenta lembrar de um sonho. Elas parecem presas a fios invisíveis: que se desprendem, se embaralham, me enganam. Mas não posso ser injusta. As palavras são generosas. Estão aqui e ali, vão e voltam. Elas precisam de alguém que as escreva. Pobres e tentadoras palavras sozinhas. Somente quando minha mente dança – na mesma medida da perseverança – elas escorrem para o papel. Juntas, desfilam sentidos inesperados. Maravilhosas entrelinhas. Me encontro bem ali no que não foi escrito. Naquilo que precisa de palavras, mas que não pode ser dito. E elas, danadas, continuam pulando aqui e ali, para que sejam agarradas e para  que, finalmente, possam rasgar sentidos. Descaradamente.

Sombras

Sombras

Há algum tempo li um trecho da Alegoria da Caverna e, pela primeira vez, Platão foi fazendo sentido para mim.

“Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente.”

Essa frase ficou em minha cabeça: “todos os movimentos o fariam sofrer”. Quando a gente se movimenta, dói? Só depois de passar muito tempo parado. Aí parece que tem ferrugem nas articulações. Mas o próprio movimento parece que vai lubrificando tudo, até que a gente começa a respirar junto com a batida do coração. Nosso corpo vai transpirando com as passadas. Espera: o cara saiu da caverna e começou a correr? Talvez nem soubesse o que é isso, de tão parado que estava. Platão falou em levantar, virar a cabeça e andar. Levantar, virar a cabeça e andar. Definitivamente não estava falando do cara sedentário que sai correndo.

Acho que falava de um cara vendo televisão, trancado num quarto, olhando sem piscar para aquelas sombras. As imagens falavam com ele e, de tanto que falavam, ele acabava sonhando com elas. Pelo menos isso. Se não tivesse nem isso, morreria. Não sobraria nada. Então ele ficava, confortável, ali naquela poltrona do papai. Por falar em papai, acho que esse cara estava na casa do pai e da mãe dele. Não tinha sido ele quem tinha comprado essa poltrona. Nem sequer sabia a cor dela. E olha que estava sentado ali há muito tempo. Talvez 30 anos, talvez mais. Nem ele sabia, andava sem tempo para pensar: era um programa atrás do outro.

Não imaginava que seria forçado a sair dali. Platão disse isso. Pois é, foi num dia em que seu pai começou, subitamente, a esmurrar a porta dizendo que ia matá-lo.  Ele virou a cabeça, da TV para a porta. Doeu. Parecia que a porta ia cair. Seus olhos ganharam uma expressão apertada, ele segurou firme na poltrona, sentiu o tecido endurecido pelo ressecamento do tempo. Seu corpo todo tremeu. Lembrou-se que tinha corpo. Sentiu algo estranho batendo dentro dele. Não sabia para onde ir, mal conhecia aquele quarto. Pensou que sua única opção seria matar o pai, antes que ele o matasse.

Mas viu a janela e aquela luz amarela entrando pelos frisos. Foi forçado a se levantar. Sentiu medo de enfrentar o pai, sentiu medo de abrir a janela – não fazia a menor ideia do que encontraria atrás dela. Uma rua tranquila? Estaria no décimo andar? Uma avenida tumultuada? Carros? Continuou suando: “meu pai vai me matar”. Olhou para a televisão com os olhos cheios de água. “O que eu faço? Diz! Diz o que é que eu faço?!” Caiu no chão implorando uma resposta. Foi a primeira vez que fez uma pergunta.

Estava todo encolhido, as lágrimas se misturavam com o que escorria do nariz, e tudo isso se misturava com a saliva que escapava de sua boca. Foi desse jeito que se levantou e, com muita dor – seu corpo todo doía – arrancou a televisão da parede e a atirou no chão. Aquele barulho seguiu um minuto de silêncio. Sem referência nenhuma, sentia o corpo pulsar.

Assustou-se com a volta dos murros na porta. Foi doloroso o caminhar até a janela. Mexeu no gancho e a abriu de uma vez. Esticou os braços e espalmou as mãos tentando impedir a passagem da luz. Não viu nada. Seu corpo frio sentiu o toque do sol. Percebeu cheiros verdes e irreconhecíveis ruídos. Notou sombras castanhas e pressentiu perigos. Abriu seus olhos o quanto pôde e procurou pelas antigas imagens. Nada. Olhou para a televisão estilhaçada, sentiu uma angústia sem tamanho. Sabia que precisava pular aquela janela. E o fez.

 

 

Soul

Soul

Sou o casal que transa discretamente no sofá da sala. Sem estardalhaços, sem a pirotecnia sexual vendida por aí, um chocolate que derrete silenciosamente na boca.

Sou os corpos suados que se movimentam, o cheiro inconfundível da pele, a respiração de um no ouvido do outro. Até penso que o sofá não é meu, que o apartamento não é meu e que o casal não sou eu. Os sonhos são assim. Parece que aquela cena não tem nada a ver comigo e que fui parar ali por acaso. Tento sair antes que eles me vejam, mas quanto mais tento me retirar, mais me entranho no apartamento. Vou para a cozinha, para o corredor, vejo as portas dos quartos. Deve ter criança dormindo.

Sou dois corpos, de tão juntos, de tão ritmados, um. É um apartamento legal, desses de adulto. Antes de ver o casal, eu estava numa quitinete, num hotel barato que literalmente caía aos pedaços. Até que os vi por uma fresta e fui parar ali com eles. Desconfiei que o homem tivesse me visto. Escondi-me atrás da parede. Não queria atrapalhar aquela intimidade.

Sou a mulher e sou o homem. Eu precisava ter peito e precisava ter pinto. O chão era de madeira e o ar era leve. Senti-me segura. Como se ali eu pudesse me recuperar dos assombros do hotel que desabava. Aquele labirinto de pequenos apartamentos, em que eu me perdia, procurando por afeto, mas onde a única coisa que encontrava era um fluxo insuportável de emoções líquidas e energias caóticas que passava por mim de tempos em tempos. Como uma onda que se agigantasse na minha frente e estourasse dentro de mim. Agora, eu não procurava mais.

Sou aquele sexo tranquilo. Sou os tamanhos que aumentam, os líquidos que escorrem. Nada me vem de fora. Uma das portas do corredor estava entreaberta, era a do quarto do casal. A cama era grande, alta como a de um hotel cinco estrelas. Dois abajures elegantes e azuis estavam acesos num jogo de luz afetuoso. Havia seis travesseiros. Fiquei com vontade de sentir todos ao mesmo tempo.

Sou o peito na boca. A respiração suspensa que volta e murmura prazer. Vi a camisola azul com flores vermelhas estendida na cama. Tirei a roupa que me humilhava. Fui para o banheiro do quarto com o cabelo preso num coque alto. Ali tinha uma vela cheirando macio. Arrisquei-me e entrei no chuveiro. O toque forte da água em meu ombro levou qualquer resquício de medo. Depois, me senti valiosa com a camisola da moça.

Sou o gozo discreto. Sou o casal que transa sem acordar as crianças. Sentei na cama e meus pés saíram do chão. Fui sugada pelo edredom reconfortante. Apaguei, como nunca.

Coisa Nenhuma

Coisa Nenhuma

Hoje vi uma mocinha passeando com o cachorro na rua. Estava milimetricamente desencanadamente vestida – elas gostam de estar lindas sem parecer ter tido trabalho para isso. Fazia pose, parecia perseguida por algum paparazzi. Vi a moça por poucos segundos e pensei: ela pressente que algo muito grande acontecerá com ela – e a qualquer momento. Ri em deboche. Censurei-me: “Talvez não, talvez ela viva a grande aventura que espera”. O celular tocou. Vi que era o Arthur, mas resolvi não atender dirigindo. Logo veio a mensagem: “Você pode buscar o Pedro? Tenho uma reunião às 11h”. Isso só podia ser um sinal de que a grande aventura não existe. No semáforo escrevi: “Ok, mas hoje ele dorme com você, tenho compromisso”. Só que não tenho.

Não sei o que vou fazer: talvez um vinho, ouvir um jazz, pensar na vida. Meia hora fazendo isso seria o suficiente. E depois? Posso me angustiar e demorar a dormir. Nem pensar. Preciso de alguém hoje. Minhas amigas e amigos são dele também. Não dá, não estou a fim de falar da separação. Droga, vim parar nessa cidade por causa dele. Estacionei. Procurei um batom na bolsa. Peguei o vermelho esquecido em algum bolsinho. Não se pode conseguir nada com um batom nude. Desci do carro como se algum paparazzi estivesse por ali. Parece que esse moço bonito está olhando para mim: “Bom dia, senhora”. Também, 43 anos, já era hora de ter colocado um Botox. Suspirei. Não me abati até agora e já são 8:30h da manhã. Hoje não vou chorar. Hoje farei alguma coisa.

Se nada der certo, irei ao cinema, verei um filme sobre alguém que vive uma grande aventura. Aí dormirei tranquila e cheia de esperança besta. Ou, como última opção, vou ler um livro e dormir sem esperança nenhuma. Talvez seja melhor ficar com o Pedro. Não, o Pedro hoje não. Arthur folgado! Lógico que ele estaria com alguém dez anos mais nova que eu e, naturalmente, dez anos mais bonita. Mas não vou entrar nessa, essa fase já foi. Já foi. Vida que segue. Logo ele cansa dela. Aposto! Tão nova! Não importa! Tô bem linda com 43, só falta o Botox. E se eu entrasse num site de encontros? Agora, no trabalho, não dá. Imagina! Como última alternativa, à noite entrarei num site de encontros. Aí já não estarei sozinha. Já não terei que falar em separação. Posso viver uma aventura. Mas não posso deixar rastros no computador, vai que o Pedro vê. O computador é mais dele que meu. Complicou.

O que é meu, afinal? O que é mais meu que de qualquer um? Nem posso ter um cachorro. Odeio cachorro.  Do que eu gosto? Caminhada? Isso, fazer uma caminhada! Coisa de velha. Sempre achei a frase “fazer uma caminhada” coisa de velha. Mas o fim de tarde é lindo nessa cidade. Farei uma caminhada. Quem sabe eu venha a gostar. Quem sabe a caminhada se transforme num encontro interessante ou numa grande aventura. Que ideia, eu mesma não desisti. Grande aventura, coisa nenhuma. Só quero fazer algo que eu goste, com alguém que eu queira encontrar. Esse alguém não existe. Como posso estar sem uma amiga? Como isso aconteceu? Casamento dá nisso? Filhos? Será? E se eu fechar os olhos e imaginar o que eu quero fazer hoje: não sei.

Fiquei parada na frente do computador. Senti uma coisa estranha na hora de respirar, como uma leve falta de ar. Tentei respirar calmamente. Achei estranho. Pensei em levantar para pegar uma água. Não consegui. O coração disparou. Voltou ao normal. Disparou de novo. Respirei. Abri o Google. O mundo está a minha frente e não sei o que procurar. Atualizei a página. Não há conexão com a internet. Não há conexão.

Não consegui procurar nada. Não consigo fazer nada. Melhor ficar com meu filho, que me dá o que fazer. Mas não quero. Vou ligar para minha mãe. Isso pode ser bom, mas não quero desapontá-la, não quero ouvi-la falar sobre minha separação. Não quero! O que posso fazer sem ninguém? Vontade de ir para a cama chorar. Mas hoje eu não quero nem isso. São 9h da manhã. Hoje eu só queria alguém que me dissesse o que fazer.

Voltas Femininas

Voltas Femininas

Luiza fez psicologia, mas não virou psicóloga. Era sensível demais para ouvir, apenas. Ela tinha que fotografar a dor, o suor, a persistência, o grito e a lágrima da mãe tendo filho. Não há Freud neste mundo que tenha visto tanto homem impotente. Luiza focaliza mulheres parindo famílias inteiras.

Isabela duvidava que seria amada por um homem em sua vida. Aos 29 tinha doutorado. Cansou de escrever monografia, dissertação, tese e artigo. Queria mais afeto em sua vida. Casou e teve dois meninos. Teve também uma crise de ansiedade. Começou a decifrar os sonhos que tumultuavam suas noites. Agora, Isabela escreve absolutamente o que quer, e é incansavelmente amada por três.

Patrícia, filha de militar. Quando percebeu que não precisava agradar ninguém, mas apenas amar suas filhas, largou o emprego, engordou e ficou leve. De tanto querer bem, passou a costurar e a cozinhar. Montou dois negócios e passou os dois para frente. Farinhas e linhas não eram seu sonho. Continuou sendo mãe e revirando seu avesso. Encontrou o que estava bem ali. Hoje, Patrícia ajuda outras mulheres a viverem a maternidade.

Luciana perdeu sua mãe aos 17 e passou a amar seu pai em dobro. Estudou direito e aos 30 chefiava 15 advogados. Tomou um susto quando descobriu pressão alta aos 35. Pensou no que realmente queria da vida. Foi parar num banco de esperma. Pediu demissão. Comprou uma casa – perto da casa de seu pai. Luciana não tem respondido a nenhum WhatsApp. Está muito ocupada com as gêmeas.

Mariana estudou letras, fez doutorado, foi para o exterior. Era uma funcionária pública estável quando perdeu o fôlego perdendo seu filho. De seu pensamento fecundo brotaram duas meninas e a instável felicidade de escrever e ensinar.  Ela também começou a nadar. Mariana pode atravessar o oceano e dar a volta ao mundo fazendo apenas o que gosta.

 

O Poeta

O Poeta

Num dia comum, ninguém diria que ele nasceu para a poesia. Lidava com a vida e com a morte, dentro de uma ambulância. Mas era sem a touca branca que seus cabelos se expandiam, e sua mente brincava com as palavras. Sem a máscara, sua boca declamava. Sem o uniforme hermético seu corpo mimetizava. E era assim, despido, que ele mergulhava na piscina literária. Ali ele nadava de braçada, mergulhava e boiava no mais perfeito dia, com a mais perfeita luz. Sem eira nem beira, ele desfrutava a fluidez.

Até que a água se agitou sem motivo aparente. Ele parou de boiar e viu, do lado de fora, uma pessoa. “Minha mãe?” O sol passou a atrapalhar sua visão. Um segundo agito, mais forte, fez entrar água em seu nariz e ele quase engasgou as palavras. Ainda recuperando o ar, percebeu mais olhares. A família inteira, amigos, e quem ele até não conhecia. Uma multidão. Uma onda agigantou-se à sua frente. E outra, e outras. Seu corpo ficou tenso na expectativa de saber para onde fugir. “O que querem de mim?” Sua boca fechada. Sua mente desejou sair dali e vestir seu uniforme, a ambulância lhe pareceu um lugar seguro.

O poeta, sensível que era, sentiu que deveria fugir dos olhares alheios. Quanto mais fundo mergulhasse, mais livre estaria. Deep inside. Mergulhou. Sentiu o vazio. Sentiu medo. Achou que não voltaria. Mas foi ali, num lugar onde não chega nada, além de seu próprio desejo, que ele começou a ouvir um piiiiiiiiiiii. Pirado. Pirotécnico. As palavras não paravam de vir à sua mente. E foi pensando em rimas, ritmo, aliterações, versos e estrofes que ele voltou à superfície esbanjando poesia! Se havia uma multidão olhando, ele nem reparou.

Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Quando o Inácio me visitou pela primeira vez na maternidade, recebi dele um olhar longo, novo e talvez único. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: “mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… Como devo agir?” Me senti angustiada. “O que foi que aconteceu?” Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. O dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros, sons, tamanhos, cabelos.

À Luz

À Luz

O mundo (e seus profissionais, claro) estão me fazendo entender que: 1) eu sou um ser humano e 2) eu preciso sonhar. E meu dilema atual é: vou conseguir me deixar levar pelo trabalho de parto? Vou conseguir racionalizar menos? Como não, se é como ser essencialmente natural que existo? O problema foi que em algum momento entendi que o ser natural implica um ser social, e que este implica um ser racional. E aí, não sei bem quando, de que forma e a partir do que foi se tornando tão raro entregar-me à natureza, aos sentidos, ao que seja. E agora, diante de um parto, vejo que quase tudo se resume a essa entrega. Nem gostava da expressão parir – não parece coisa de animal? Pois é, agora ela já me desce melhor. Progressos. Mas olha, confesso que preciso de alguns profissionais que me ajudem a racionalizar menos, veja só! Que me ajudem a entregar-me à natureza, veja quanta ironia! O natural apreendido por meio de um saber socialmente construído. Um monte de gente estudando um monte de coisa para entender isso, psiquiatras, psicólogos, e um monte de novas ocupações surgindo, como a de doula – é a que me vem à mente. Sim, eu tenho uma doula para chamar de minha. E mais um monte de gente, como eu, precisando muito desses profissionais! Que assim seja, que os fins justifiquem os meios, e que a gente consiga sonhar e sentir de dentro para fora. Que a gente volte a conseguir parir.

Tranquila

Tranquila

De repente, nem tão de repente assim, parece que encontrei o caminho. Aquele que nada tem a ver com estereótipos, com aquilo que as pessoas esperam, que nada tem a ver com uma linha reta. Porque a gente precisa do vai e vem, precisa experimentar para perceber o que realmente que faz sentido. Aquilo que nos interessa. E os projetos de vida vão aparecendo: partir da fala, da introspecção, da reflexão, da observação, do incômodo, do desassossego e do enfrentamento. E agora parece que estou assim… Num mar de paz.