Vontade

Vontade

Tem que haver calma. Ela gosta também de silêncio. Só um pouco de barulho, só um pouco de fala, nada que exija uma resposta: isso tira sua concentração. Olhos fechados e boca entreaberta. Pode começar no pescoço, cabeça, orelha, barriga, joelhos ou na parte de dentro das coxas. Como um rio, um raio ou um choque, aquele arrepio é levado para um ponto em suas costas. Aquele ponto contrai e o corpo todo se movimenta, o quadril é levado para trás e o peito para frente. Aí tudo nela escorre. Não fale nada, por favor, não estrague esse momento. Ela já está em outro lugar. Só quer sentir. Coloque algo entre suas pernas. Não precisa mexer em muitas partes, só ali. Com vontade. Bem ali. Continuamente. Continuamente. Aí ela vai gostar de olhar e de parar de olhar. Vai imaginar qualquer situação sem caras, descarada. E tudo vai se estimular à medida que agora é outro ponto que pulsa, que abre, aumenta e avermelha. Continua igual, não mexe em nada, não muda nada, sempre assim, não aperta muito, espera. Pronto.

Anúncios

Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

Pai e Filho

Pai e Filho

Guilherme sofria por amor. Não chegava a ser rejeitado porque não chegava a se declarar. Amava escondido. Padecia todas as noites: chorava antes de dormir. Fazia pedidos. Imaginava o beijo. Dormia suspirando. Tinha uma queda pelo amor platônico. A vida é mesmo dura. Com todos nós. Estava sendo também para Guilherme.

Ivan ouviu o filho chorar. Bateu fraco na porta e entrou. Como Guilherme continuou com o rosto socado no travesseiro, fez apenas um carinho: “o que foi?” Nenhuma resposta. “Por que você está chorando?” Depois de mais alguns soluços: “nada, não é nada”.

Guilherme sentia que tinha todos os motivos do mundo para chorar. “Entendo, na sua idade eu chorava muito”. O filho virou-se meio de lado: “por que, pai?” Ivan passou as mãos pela barba: “acho que por umas espinhas que eu tinha”.

Guilherme deitou-se virado para cima: “mas você já era casado com a mamãe?” Disse como um possível alento. “Não… Nessa época eu nem a conhecia.” Ivan riu sozinho. “Mas você sabia que teria sorte do amor!” Chorou pensando em seu azar.

“Eu? Não filho, nessa época não me achava sortudo, muito menos no amor”. Chegou mesmo a acreditar que as espinhas não o deixariam viver, a não ser quando estivesse com outros amigos espinhentos.

“Então você conheceu a mamãe bem depois das espinhas?” “Sim, bem depois”. O menino suspirou: “é, você demorou para ter sorte”. O pai soltou o ar num riso.

A vida muda para todos. O que quase sempre é um alívio.

Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

Pela Metade

Pela Metade

Estava difícil respirar naquelas páginas em branco. Nenhuma história lhe vinha. Procurava então fora de si: uma cena, alguém que lhe inspirasse. Nada.

Só vinham coisas que julgava não poder escrever naquele momento. Escrevia, apagava, não terminava. O que é o esboço da escrita que nunca acaba?  O que é o conteúdo de uma gaveta trancada? Medo. Mais do que isso: o medo dos outros.

Nisso consistia o que não terminava. Por outro lado, aquilo martelava: escrevia, relia e mudava. Sempre a sensação de estar sendo má: má amiga, má companheira, má pessoa. “Que ninguém tenha uma amiga escritora!”

E foi pensando em sua maldade que se deteve na palavra má: “mais parece uma palavra cortada! Pobre dela que não se completa!” Escreveu, rabiscou e, finalmente completou: madura, maciça, maluca, matuta e até mesmo mais, mais e mais.

Tudo estava dito: meias palavras não se prestam a nada.

Eu

Eu

Sou cabeça: um cânion de pensamentos fundos. Sou o interior conturbado que floresce leve. Sou músculos e entranhas. Sou estrada e bifurcações: não me canso de antecipar mudanças. Chego antes, mesmo que tarde. Sou sonhos, um turbilhão de sonhos todas as noites. Nem posso dizer que sou dia. Sou consciência e inconsciente. Consistente até demais. Amoleço-me com bonitas superficialidades. Sou reentrante e mantenho-me relevo: todos os dias, todos os dias. Sou amor que não padece. Sou equilíbrio, mas não calmaria. Não me aquieto até quando devo, até quando temo. É sentindo cada afluente dentro de mim que vou, sorrindo, todos os dias, todos os dias.

Fado

Fado

Estava meio entediada. Fumava mais um cigarro e bebia cerveja, observando a tudo e a todos. Gostava de ficar assim: vendo as pessoas passarem, cumprimentando um e outro, dando pequenas risadas. Em meio a essa distração, Arthur chegou com um sorriso meio preso nos lábios: “posso conversar com você?” Victoria não sabia se era a música alta ou o fato de ele não ter articulado muito bem as palavras o que não a fez ouvir direito. “Posso conversar com você?” Percebeu que o que não a fez entender foi o despropósito da pergunta: estava ali exatamente para conversar. Com ela não tinha dessa: “pode, diz aí”. Ele hesitou, continuou com aquele sorriso preso. Ela intuiu que o papo seria chato. “Vamos lá fora?” Victoria ficou curiosa com ele querer conversar como nas novelas. “Vamos sim.”

Já se conheciam, vira e mexe se falavam. Faziam cursos diferentes, ela jornalismo e ele economia. Arthur gostava de falar por metáforas e ela até curtia. Mas os papos não eram longos, talvez os dois fossem ansiosos demais para estender uma conversa. Caminharam em silêncio. Sentiam-se impedidos de dizer qualquer coisa ao acaso. Não dava para saber se os chuviscos da rua molhavam mais que os pingos que caíam da árvore embaixo da qual pararam. Um de frente para o outro e aquele sorriso continuava ali: “eu te amo”. Victoria se defendeu com uma risada: “Acho que não Arthur, que ideia!” Ele dizia e repetia o que ela nunca havia ouvido: o tal eu te amo. “Era isso que queria te dizer, que te amo”. A única saída que ela tinha era negar, “não Arthur, você não me ama”. E se fosse só uma brincadeira? Aquele sorriso lhe parecia sarcasmo. Melhor não acreditar.

Um carro ou outro passava pela rua e os faróis iluminavam a chuva fina e o asfalto molhado. Victoria começou a ver romantismo aqui e ali: viu os olhos dele brilharem, notou que ele ficou mais bonito e se sentiu mais bonita também. A festa se tornou um resquício. Esperava pelo beijo. Mas ele não a tocava. “Lembra daquela festa em que você beijou o Marcelo?” Ela nunca foi boa com nomes. “Fui embora e fiquei louco”. Victoria não se lembrava que festa era essa. “Naquele dia em que tomamos um café? Fiquei pensando no que você me disse”. Ele colecionava momentos dela. “Eu te amo”. Parecia conhecer seus sentimentos, os sujos e os nobres. Parecia acompanhá-la, conhecer seus passos, suas frustrações e sonhos.

Talvez um dos sonhos dela fosse ouvir eu te amo embaixo de uma árvore, na chuva. Só que ela não retribuiria, nem sequer conhecia esse script, nunca havia dito eu te amo. “Você nasceu para ser amada”. Ele mexia com os sentimentos mais complexos dela. “Você é a pessoa mais linda que já conheci”. Num certo momento, nada mais saía da boca de Victoria. A única coisa que ela conseguiria fazer seria beijá-lo. Foi o que fez. Agora era ele quem parecia não conhecer o roteiro: mal abria a boca. Victoria não entendia como aquilo tudo não poderia acabar num beijo descomunal. Pensou que aquele sorriso era nervoso – as mãos dele estavam frias e o toque trêmulo. Mas a essa altura, queria continuar ao lado dele.

Nada como um amor complicado. Arthur que o diga: “não se apaixone por mim”. Victoria percebeu que qualquer coisa que fizesse demonstraria que acreditava nele – se arrependeu do beijo. Encontrou somente uma saída: “vamos embora”. Foram caminhando na chuva fina, o que tornava a noite sensível. “Você já sabe que sou um cara estranho”. Ela realmente sabia, essa era a fama dele. “Tenho um carma”. Ela riu, sabia que ele começaria a falar com as metáforas de sempre. Tentou abraçá-lo. Foi desajeitado novamente. Ela precisava de um gesto para não explodir em pensamentos. Ele parecia treinado para as ideias, articulava-as como um mestre. Sentaram-se na mureta baixa de um bar fechado, protegendo-se da chuva embaixo de um pequeno toldo. Foi quando puderam se tocar como namorados. Sentados lado a lado, ele a abraçou com um dos braços e ela apoiou-se em seu peito.

Ela acreditou que poderiam ser namorados, ele sabia que isso jamais aconteceria. Victoria não sabia nada sobre ele, tinha ouvido dizer que era de uma família muito rica e que não tinha pai ou mãe. Ele disse baixo “Se eu não tivesse uma cidade para salvar…” Resolveu entrar na dele: “podia me salvar primeiro, antes da cidade inteira”. Ele pegou em seu rosto com as duas mãos: “estarei sempre ali, quando precisar”. Victoria mais uma vez quis beijá-lo. Dessa vez não ousou no gesto, mas nas palavras: “queria ser sua namorada”. Ainda segurando em seu rosto: “não queira, meu amor nunca acaba bem”.

Num movimento rápido a levou ao chão e se sentou sobre seu quadril com as pernas abertas. Suas mãos grandes seguraram com força os braços dela. Assim ele a beijou enquanto ela virava o rosto de um lado para outro. Arthur pedia desculpas baixo em seu ouvido. Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Não faça isso, não chore Victoria”. Tarde demais, as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Ela queria falar, mas o movimento da respiração não deixava. Emitia gemidos finos. Arthur enxugou suas lágrimas com o próprio rosto. Mantinha as mãos firmes nos braços dela. Disse que a amava pediu desculpas mais vezes. “Meu coração está partido”. Ela pressentiu que não sairia mais do meio daquelas pernas e experimentou o descontrole de seus sinais vitais. “Não posso ser um homem na sua vida”. Suas mãos foram para o pescoço de Victoria e ali ficaram até que ela parasse de se debater.

Pane

Pane

Eduarda dava volta ao mundo todos os dias. “Good morning ladies and gentleman. Welcome aboard”. Tinha alguma coisa errada. “In a few moments, the flight attendants will be passing around the cabin to offer you hot or cold drinks”. O que eu faço?” – se perguntava dia e noite enquanto sorria servindo os passageiros. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê. “The Captain has turned on the fasten seat belt sign”. Não conseguia exatamente o que queria, e sempre queria tanta coisa! We are looking forward to seeing you on board again”.

Uma das coisas que ela queria, conseguia quase que completamente: era linda. Mais do que isso: todos viam sua beleza. Vaidosa como era, curtia a sombra azul e o batom avermelhado que passava todos os dias. O contentamento com a aparência fazia diminuir a angústia dos piores dias. Agora, quando nem a maquiagem adiantava, era porque os piores dias se estendiam demais. Aí ela amaldiçoava o vermelho e o azul do céu.

Conheceu 40 países vomitando. Nunca se dera bem com a altura e sempre resistiu a tomar remédios. “Quem mesmo me deu a ideia de ser comissária?”. Detestava turbulências! Já tinha suado e chorado muitas vezes. Sempre quis conhecer o mundo, mas nunca desejou pingar cansada em diferentes países, com diferentes pessoas, em épocas do ano não propícias, independente do clima ou de seu temperamento. Temperamento: ninguém se importava com isso. Não aguentava mais sorrir: ninguém se importava com isso. Não aguentava mais concordar. Sentia-se inchada naqueles dias.

Voava espremida. “Será que se eu explodir, o avião explode junto?” Olhava com raiva pela janela pequena que fazia a imensidão perder o sentido. Não cabia mais ali. Não aguentava mais servir. Não aguentava mais limpar. Só que não tinha uma bomba colada ao corpo. Desejou que alguém fizesse uma loucura. Estava muito cansada. Foi para o banheiro e olhou-se fixamente no espelho. Fitou seus olhos arrebitados. Molhou as mãos e, com a ajuda da água, esticou melhor seus cabelos presos no coque alto.

Desistiu de esticar os cabelos e fez o movimento contrário com as mãos, arrepiando os fios no topo da cabeça. Respirou longamente e vestiu seu pequeno chapéu com tranquilidade. Depois, pegou o batom e avermelhou a boca sem suavidade. Resolveu aumentar os lábios. Pensou em borrar-se toda. Controlou-se. Sentiu-se abafada. Uma leve tontura. Passou um lápis preto nos olhos. “Tenho que dar um jeito de sair daqui”. Passou e repassou o lápis muitas vezes, dentro e fora dos olhos, quase se machucou. Ouviu batidas na porta. Os olhos avermelharam, pensou que ia chorar, mas logo se sentiu seca, tão seca que quase não conseguia se movimentar.

Batidas. Molhou as mãos e passou no rosto. Conseguiu se manchar toda. Não queria mais nada daquilo. Batidas: “estamos te esperando”. Eduarda abriu apenas uma fresta, o suficiente para mostrar seu rosto para a colega: “não consigo sair”. A amiga pensou rápido – pendurou uma placa de interditado do lado de fora da porta.

Eduarda ficou sentada no vaso até o avião pousasse. Sem cinto e sem segurança nenhuma. Tirou os sapatos e a blusa de dentro da saia. Soltou seus cabelos que imediatamente armaram-se desalinhados. Esperou todo mundo descer e continuou se desmontando. Saiu sem olhar para os lados, sem responder ou sorrir para ninguém. Caminhou no seu ritmo e sentiu seus pés no chão.