Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Quando o Inácio me visitou pela primeira vez na maternidade, recebi dele um olhar longo, novo e talvez único. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: “mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… Como devo agir?” Me senti angustiada. “O que foi que aconteceu?” Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. O dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros, sons, tamanhos, cabelos.

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Tranquila

Tranquila

De repente, nem tão de repente assim, parece que encontrei o caminho. Aquele que nada tem a ver com estereótipos, com aquilo que as pessoas esperam, que nada tem a ver com uma linha reta. Porque a gente precisa do vai e vem, precisa experimentar para perceber o que realmente que faz sentido. Aquilo que nos interessa. E os projetos de vida vão aparecendo: partir da fala, da introspecção, da reflexão, da observação, do incômodo, do desassossego e do enfrentamento. E agora parece que estou assim… Num mar de paz.

O Mito da Caverna

O Mito da Caverna

Já faz tempo coloquei um trecho do texto A Alegoria da Caverna nas redes sociais:

“Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente.”

Um amigo filósofo e amante da psicanálise perguntou: Platão? Eu disse que sim e contei que me sentia saindo da caverna. Percebia que até então eu estava relativamente tranquila, lidando com a sombra dos objetos e das pessoas, inclusive com sombras de mim mesma. Fantasias! Mas que naquele momento eu me sentia ofuscada por essa luz que não me deixava ver nitidamente ali fora. Ainda não sabia o que me parecia mais concreto: as sombras que eu estava abandonando ou a realidade ainda invisível diante de mim.

Aí disse para ele que não deveria caminhar muito, porque minha psicóloga estava de férias. E ele disse: depois que começamos, não tem como parar.

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road

Sonhei que eu e André estávamos no show do Paul MacCartney só que o palco ficava do outro lado – estávamos justamente no fundo do palco. Fomos caminhando aos trancos e barrancos, passando por entre pessoas, lama, cadeiras, lixos e objetos variados. O percurso. A travessia. Não poderia ser mais fácil? Não, não poderia. Ver o show do fundo pode ser incômodo e menos prazeroso, mas não exige o esforço do caminhar. Fica ali aquele lixo entre você e o palco, mas ok, você ouve a música. Agora, deslocar-se de um lugar a outro implica enfrentar o lamaçal, passar por entre objetos antigos, enferrujados, e ir deixando aquilo tudo para trás, abandonando mesmo. Claro que isso é extremamente difícil, afinal, são coisas que estão ali há muito tempo, que embora te limitem em sua movimentação, te localizam no espaço, desde sempre. Mas agora há coragem e desejo de atravessar. Para onde? Não se sabe exatamente. O palco ainda não foi visto de frente, e está tudo tão escuro. Mas quem já desfilou na Sapucaí sabe o que é sair da rua perpendicular e ver os holofotes, ouvir finalmente o samba enredo que você tanto ensaiou. É maravilhoso.

Texto para o blog

Texto para o blog

Sabe o que tem sido difícil? Escrever pensando que as pessoas lerão. Não posso falar tanta coisa, afinal, não quero me expor, não quero expor as pessoas próximas. E agora, como escrever sem coragem? A escrita sem coragem é chata e enfadonha, não tem graça, não causa nada. Arrisco-me até a dizer – sem ser escritora – que escrever é surpreender a si mesmo e sempre, sempre ir além. Uma vez um colega meu, há muitos e muitos anos, me fez uma proposta indecorosa: escreva uma cena capaz de me fazer sentir tesão. Nossa, achei um absurdo. Nunca, jamais! Hoje eu entendo o desafio. Ah sim, porque sem quebrar nossos próprios tabus, não há escrita que se preze. Se não houver um desafiar-se, nada sairá. E tem mais: eu gosto de dizeres claros. Insuportáveis são as palavras que quase dizem. E agora, com todo esse ímpeto, qual é o meu problema? Os outros. Eles novamente! Aí entra a bendita psicanálise. De um lado, a minha novidade, a piscina literária, eu dentro dela a flutuar e, de outro, os olhares, as leituras e os desejos alheios. E agora entendo mais uma lição do desafio colocado por meu amigo: provoque. Agora, só não posso me ocupar do que causarei em cada um. Por isso sigo em frente. Não quero ficar fechada num bloquinho de anotações no fundo da gaveta. Assim vou me esquecer de mim!

O Desamparo Original

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Nascer é estar fadado ao desamparo. Ele pode ser maior ou menor, mas sempre existe. O que eu não imaginava é que poderíamos carregar essa condição conosco por tanto tempo. A gente cresce, vira adulto, compreendemos nossos pais, suas ausências, falhas, entendemos que eles são humanos imperfeitos, compreendemos, perdoamos. Mas o doido é que o desamparo, o sentimento continua presente, se atualizando nas mais diversas situações. E nos sentimos sós. Sentimo-nos desamparados. Hoje esse buraco é quase concreto para mim. Sou capaz se senti-lo. Sinto também que no lugar desse buraco eu não coloquei nada. Mas em outro lugar eu construí algo novo, que me tornou adulta, que me fez menos adolescente desamparada desesperada. Uma tranquilidade completamente nova. Acho que são os “recursos” que temos que criar. Tem dias que a criança grita. Mas aí eu falo: calma, menina!

Saia de tule

Saia de tule

Quem não fica linda vestida numa saia de tule? Eu estava assim em meu sonho. E veja só, e vou mesmo para Nova Iorque com o marido e com amigos, e lá vou vestir uma saia de tule rosa. Muito feminina. Isso não era minha cara. Nunca fui de me permitir esses prazeres rosados. Tanto que no sonho, tive que subir em cacos de vidro e ficar na ponta dos pés. Cacos do que eu era. Detalhe: de tão leve, nem me machuquei.

Toma aqui a sua liberdade

Toma aqui a sua liberdade

Não é fácil ser casada com meu marido. Primeiramente tenho que estar preparada para ser amada e somente isso já é muita coisa. Ser tratada com doçura todos os dias, e-v-e-r-y s-i-n-g-l-e d-a-y. Mas todo dia mesmo? Sim, todos os dias. Doçura, respeito e carinho todos os dias. Será possível? Nenhum desaforo? Nenhuma crise machista? Nenhuma acusação, nenhuma censura? Não, nenhuma! Então surgiu um mundo novo. Um homem novo, uma mulher nova. Porque nós mulheres, estamos muito preparadas para adversidades, ah sim… Mas preparadas para o amor? Ah, não é fácil! Posso fazer o que eu quiser, veja só! Cortar o cabelo curtinho (“que coragem, o que seu marido achou?”), ter um desafio novo, o de fazer um blog (“que coragem, o que seu marido acha?”), até amigos homens eu posso ter (“seu marido não tem ciúme?”). Que doido né? Então estou experimentando a maior liberdade da minha vida. Agora é comigo: nenhuma crise machista, nenhuma censura, fazer o que eu quiser.

Whatsapp

Whatsapp

Sonhei que eu, minha irmã e minha amiga éramos vizinhas de quintal. Nossos quintais eram divididos por um único muro alto, por meio do qual conversávamos sem nos vermos. O muro não era reto, um muro reto não conseguiria dividir três casas e apenas elas. Somente nós três, mais ninguém. O muro não era bonito, tinha tijolos à mostra. Era bem ali no quintal, aonde os transeuntes não veem. E nossa atividade de comunicação era tão intensa! Achei tão bonito isso. Tão bonito que me dá vontade de chorar. Porque ontem minha amiga mandou uma mensagem de voz abrindo seu coração. E tantas vezes abri meu coração só para elas. E dividimos tão intensamente um momento tão lindo e delicado que foi o início de nossas vidas como mães. Hoje minha irmã propôs que trocássemos fotos daquilo que vemos durante o dia: uma vista da janela do ônibus, um computador, a chegada à psicóloga. Diminuímos nossa distância trocando olhares sinceros, nem sempre bonitos. Brasília, Buenos Aires e Santo Domingo. É com elas que me comunico no quintal da minha casa. Ontem foi lindo quando a Mi disse, “ouçam sozinhas o que vou dizer”. Ela estava dizendo: vamos para o quintal. E rapidamente ali estávamos nós três.

Casa

Casa

Sempre uma casa. Sempre os meus pais. Sempre uma casa que não é deles, mas eles moram lá – claro que essa casa é minha, se não for eu mesma. Sempre uma parte obscura. Uma continuidade aonde ninguém entra, nem eu. Um lugar misterioso – dentro de mim. Estamos na parte conhecida. Mas aquele lugar permanece ali, sempre ali. Nem tentei entrar. Sonho vai. Sonho vem. Sessão vai. Sessão vem. E a casa foi mudando. Passou a ser outras casas possíveis. Essa extensão escura passou a ser mais clara. Virou até um jardim. Virou até outra casa, veja só. Nessa noite virou quarto dentro de quarto. Quartos novos! Bonitos! Mas pra que tanto quarto? Fingi que não era comigo. Não, não deitei na cama. Mas ora bolas, eu que fiz esse quarto dentro de quarto. Mesmo que eu ainda não o entenda muito bem, já sinto um baita orgulho de mim.