Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

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Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Quando o Inácio me visitou pela primeira vez na maternidade, recebi dele um olhar longo, novo e talvez único. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: “mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… Como devo agir?” Me senti angustiada. “O que foi que aconteceu?” Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. O dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros, sons, tamanhos, cabelos.

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road

Sonhei que eu e André estávamos no show do Paul MacCartney só que o palco ficava do outro lado – estávamos justamente no fundo do palco. Fomos caminhando aos trancos e barrancos, passando por entre pessoas, lama, cadeiras, lixos e objetos variados. O percurso. A travessia. Não poderia ser mais fácil? Não, não poderia. Ver o show do fundo pode ser incômodo e menos prazeroso, mas não exige o esforço do caminhar. Fica ali aquele lixo entre você e o palco, mas ok, você ouve a música. Agora, deslocar-se de um lugar a outro implica enfrentar o lamaçal, passar por entre objetos antigos, enferrujados, e ir deixando aquilo tudo para trás, abandonando mesmo. Claro que isso é extremamente difícil, afinal, são coisas que estão ali há muito tempo, que embora te limitem em sua movimentação, te localizam no espaço, desde sempre. Mas agora há coragem e desejo de atravessar. Para onde? Não se sabe exatamente. O palco ainda não foi visto de frente, e está tudo tão escuro. Mas quem já desfilou na Sapucaí sabe o que é sair da rua perpendicular e ver os holofotes, ouvir finalmente o samba enredo que você tanto ensaiou. É maravilhoso.

Texto para o blog

Texto para o blog

Sabe o que tem sido difícil? Escrever pensando que as pessoas lerão. Não posso falar tanta coisa, afinal, não quero me expor, não quero expor as pessoas próximas. E agora, como escrever sem coragem? A escrita sem coragem é chata e enfadonha, não tem graça, não causa nada. Arrisco-me até a dizer – sem ser escritora – que escrever é surpreender a si mesmo e sempre, sempre ir além. Uma vez um colega meu, há muitos e muitos anos, me fez uma proposta indecorosa: escreva uma cena capaz de me fazer sentir tesão. Nossa, achei um absurdo. Nunca, jamais! Hoje eu entendo o desafio. Ah sim, porque sem quebrar nossos próprios tabus, não há escrita que se preze. Se não houver um desafiar-se, nada sairá. E tem mais: eu gosto de dizeres claros. Insuportáveis são as palavras que quase dizem. E agora, com todo esse ímpeto, qual é o meu problema? Os outros. Eles novamente! Aí entra a bendita psicanálise. De um lado, a minha novidade, a piscina literária, eu dentro dela a flutuar e, de outro, os olhares, as leituras e os desejos alheios. E agora entendo mais uma lição do desafio colocado por meu amigo: provoque. Agora, só não posso me ocupar do que causarei em cada um. Por isso sigo em frente. Não quero ficar fechada num bloquinho de anotações no fundo da gaveta. Assim vou me esquecer de mim!

O Desamparo Original

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Nascer é estar fadado ao desamparo. Ele pode ser maior ou menor, mas sempre existe. O que eu não imaginava é que poderíamos carregar essa condição conosco por tanto tempo. A gente cresce, vira adulto, compreendemos nossos pais, suas ausências, falhas, entendemos que eles são humanos imperfeitos, compreendemos, perdoamos. Mas o doido é que o desamparo, o sentimento continua presente, se atualizando nas mais diversas situações. E nos sentimos sós. Sentimo-nos desamparados. Hoje esse buraco é quase concreto para mim. Sou capaz se senti-lo. Sinto também que no lugar desse buraco eu não coloquei nada. Mas em outro lugar eu construí algo novo, que me tornou adulta, que me fez menos adolescente desamparada desesperada. Uma tranquilidade completamente nova. Acho que são os “recursos” que temos que criar. Tem dias que a criança grita. Mas aí eu falo: calma, menina!

Saia de tule

Saia de tule

Quem não fica linda vestida numa saia de tule? Eu estava assim em meu sonho. E veja só, e vou mesmo para Nova Iorque com o marido e com amigos, e lá vou vestir uma saia de tule rosa. Muito feminina. Isso não era minha cara. Nunca fui de me permitir esses prazeres rosados. Tanto que no sonho, tive que subir em cacos de vidro e ficar na ponta dos pés. Cacos do que eu era. Detalhe: de tão leve, nem me machuquei.

Toma aqui a sua liberdade

Toma aqui a sua liberdade

Não é fácil ser casada com meu marido. Primeiramente tenho que estar preparada para ser amada e somente isso já é muita coisa. Ser tratada com doçura todos os dias, e-v-e-r-y s-i-n-g-l-e d-a-y. Mas todo dia mesmo? Sim, todos os dias. Doçura, respeito e carinho todos os dias. Será possível? Nenhum desaforo? Nenhuma crise machista? Nenhuma acusação, nenhuma censura? Não, nenhuma! Então surgiu um mundo novo. Um homem novo, uma mulher nova. Porque nós mulheres, estamos muito preparadas para adversidades, ah sim… Mas preparadas para o amor? Ah, não é fácil! Posso fazer o que eu quiser, veja só! Cortar o cabelo curtinho (“que coragem, o que seu marido achou?”), ter um desafio novo, o de fazer um blog (“que coragem, o que seu marido acha?”), até amigos homens eu posso ter (“seu marido não tem ciúme?”). Que doido né? Então estou experimentando a maior liberdade da minha vida. Agora é comigo: nenhuma crise machista, nenhuma censura.

Whatsapp

Whatsapp

Sonhei que eu, minha irmã e minha amiga éramos vizinhas de quintal. Nossos quintais eram divididos por um único muro alto, por meio do qual conversávamos sem nos vermos. O muro não era reto, um muro reto não conseguiria dividir três casas e apenas elas. Somente nós três, mais ninguém. O muro não era bonito, tinha tijolos à mostra. Era bem ali no quintal, aonde os transeuntes não veem. E nossa atividade de comunicação era tão intensa! Achei tão bonito isso. Tão bonito que me dá vontade de chorar. Porque ontem minha amiga mandou uma mensagem de voz abrindo seu coração. E tantas vezes abri meu coração só para elas. E dividimos tão intensamente um momento tão lindo e delicado que foi o início de nossas vidas como mães. Hoje minha irmã propôs que trocássemos fotos daquilo que vemos durante o dia: uma vista da janela do ônibus, um computador, a chegada à psicóloga. Diminuímos nossa distância trocando olhares sinceros, nem sempre bonitos. Brasília, Buenos Aires e Santo Domingo. É com elas que me comunico no quintal da minha casa. Ontem foi lindo quando a Mi disse, “ouçam sozinhas o que vou dizer”. Ela estava dizendo: vamos para o quintal. E rapidamente ali estávamos nós três.

Casa

Casa

Sempre uma casa. Sempre os meus pais. Sempre uma casa que não é deles, mas eles moram lá – claro que essa casa é minha, se não for eu mesma. Sempre uma parte obscura. Uma continuidade aonde ninguém entra, nem eu. Um lugar misterioso – dentro de mim. Estamos na parte conhecida. Mas aquele lugar permanece ali, sempre ali. Nem tentei entrar. Sonho vai. Sonho vem. Sessão vai. Sessão vem. E a casa foi mudando. Passou a ser outras casas possíveis. Essa extensão escura passou a ser mais clara. Virou até um jardim. Virou até outra casa, veja só. Nessa noite virou quarto dentro de quarto. Quartos novos! Bonitos! Mas pra que tanto quarto? Fingi que não era comigo. Não, não deitei na cama. Mas ora bolas, eu que fiz esse quarto dentro de quarto. Mesmo que eu ainda não o entenda muito bem, já sinto um baita orgulho de mim.