Roda-gigante

Roda-gigante

Mariana vivia numa roda-gigante. Girava dia e noite e, por mais voltas que desse, acabava sempre passando pelos mesmos pontos. No ponto mais baixo, quase botava os pés no chão. Nesses dias, era tomada por um profundo tédio. Mas como a roda é implacável em seu girar, Mariana começava a subir. Via o céu e junto com ele a possibilidade de mil coisas! “Agora vai!” Se inclinava em direção ao azul e balançava os pés feito criança. Chegaria ao ponto aonde ninguém jamais chegou! Seus sonhos eram ambiciosos: acreditava no amor que ninguém havia amado. Vivia cenas de cinema e acreditava em todas elas. Aí vinha um vento chato, ou um sol muito forte: “não, não é possível, de novo não”. Sim, de novo estava naquele ponto de começar a descer. Vinha um frio na barriga, que ela amava e odiava. Não é que amasse, era mais um vício. Nessa descida ela sofria, mas se sentia viva como nunca. Chorava, mas sabia estar num patamar diferente de todas aquelas pessoas ali no chão. Pressentia que logo iria passar por uns diazinhos medíocres – até precisava deles para retomar o fôlego – mas sabia que logo começaria a subir e a subir! Que alegria! Acreditaria em tudo de novo.

Pobre Mariana, começou a ficar tonta de tanto girar. Sentia-se extremamente cansada. Olhava as pessoas com os pés no chão e não as invejava: “de que vale a vida assim?” E fincava o pé na roda. Os giros passaram a ser verdadeiros loopings. Já estava descabelada, alucinada, transtornada, enjoada quando foi arremessada ao solo. Sentiu-se humana como nunca: pela primeira vez teve medo de morrer. Caiu na vida. Toda esfolada que estava, teve que se render àquelas pessoas sem graça. E não é que foi amada? Não viu muito bem quando e como o amor começou em sua vida. Não teve holofotes, nem braços fortes, nem um glamour. Foi somente o amor. Aquele que penetra devagarzinho, que de tão leve nos enche de ar e amplia nossa respiração. Olhou para cima e teve pena dos que estavam presos a girar. Olhou para um lado e para outro, viu horizontes de possibilidades. Respirou fundo.

Anúncios

Estrelar

Estrelar

Dividimos um curto espaço de tempo sobre a terra e tão pouco nos entendemos. Camila jurava amar Tiago, que hesitava amá-la do jeito que ela queria. O céu se movimenta, as estrelas vão e vêm, a lua fica cheia e minguante e as pessoas ficam ali, insistindo no mesmo ponto. Camila queria porque queria. Ok, não vamos simplificar as coisas. Ela queria porque via nele o que bem entendia. Tiago se mostrava, suas ações eram o que eram. Camila projetava: via nele a possibilidade de céu estrelado enquanto ele chovia, todos os dias. Como pode ser o mundo tão infinito e uma pessoa tão obcecada numa única outra? Coisa esquisita. Ela insistia, implorava. Ele falava que não queria, até desistia. Ela chorava. Ele voltava. Não ajudava, sempre voltava. Abraçavam-se, até achavam que o tempo parava, mas os anos passavam. Ah, o tempo! Podia ele nos ensinar alguma coisa, mas o que ele faz é passar. Camila esperava o dia em que seu amor pudesse encaixar. Mas esse dia demorava, Tiago até que chegava, ela até que se arrumava, achava que iam bailar. Mas sempre chovia como um balde de água fria. Até que um dia, acho que foi com um rodinho pequeno, ela começou a puxar a água. Teve medo de secar a si mesma. Achou que fosse definhar. Engraçado, mas foi puxando aquela água suja no chão que ela passou a ver estrela no céu. Logo reparou que não estava ficando seca, estava era vendo coisa brilhar. Foi então que falou tchau para Tiago. Ele até chorou, acreditam? Mas não respingou nela não. Camila já estava olhando para cima, pensando no mundão grande em que vivia, em tanto segredo escondido por aí, e resolveu caminhar. Foi quando encontrou todas as estrelas que queria, amou uma a uma e até dançou com elas sob o luar.

Agora

Agora

Prefiro céu azul

Prefiro janela de vidro à de madeira

Prefiro o movimento do sofrimento

À inércia da felicidade inquestionável

Prefiro o banco da praça ao da Igreja

Prefiro cumprimentar os vizinhos

Prefiro perguntas

Prefiro cores lisas às estampas que cansam

Prefiro as calças à limitação das saias

Prefiro sonhar todas as noites

Prefiro café com as amigas

Prefiro ouvir opinião a “não sei”

Prefiro arroz e feijão

Prefiro simplicidade

Prefiro mudar de cidade

Prefiro o amanhecer

Prefiro planejar

Prefiro estudar

Prefiro olhar a dissimular

Prefiro conversas profundas

Prefiro um tempo só para mim

Prefiro finais felizes

Prefiro riso fácil

Prefiro o incômodo à complacência

Prefiro a esquerda

Prefiro a natação

Prefiro os que nadam contra a maré

Prefiro amor à paixão

Prefiro os que viram a mesa

Prefiro me expressar

Prefiro saber que quase tudo pode mudar

*Inspirada em Wislawa Szymborska: “Possibilidades”

Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Quando o Inácio me visitou pela primeira vez na maternidade, recebi dele um olhar longo, novo e talvez único. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: “mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… Como devo agir?” Me senti angustiada. “O que foi que aconteceu?” Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. O dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros, sons, tamanhos, cabelos.

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road

Sonhei que eu e André estávamos no show do Paul MacCartney só que o palco ficava do outro lado – estávamos justamente no fundo do palco. Fomos caminhando aos trancos e barrancos, passando por entre pessoas, lama, cadeiras, lixos e objetos variados. O percurso. A travessia. Não poderia ser mais fácil? Não, não poderia. Ver o show do fundo pode ser incômodo e menos prazeroso, mas não exige o esforço do caminhar. Fica ali aquele lixo entre você e o palco, mas ok, você ouve a música. Agora, deslocar-se de um lugar a outro implica enfrentar o lamaçal, passar por entre objetos antigos, enferrujados, e ir deixando aquilo tudo para trás, abandonando mesmo. Claro que isso é extremamente difícil, afinal, são coisas que estão ali há muito tempo, que embora te limitem em sua movimentação, te localizam no espaço, desde sempre. Mas agora há coragem e desejo de atravessar. Para onde? Não se sabe exatamente. O palco ainda não foi visto de frente, e está tudo tão escuro. Mas quem já desfilou na Sapucaí sabe o que é sair da rua perpendicular e ver os holofotes, ouvir finalmente o samba enredo que você tanto ensaiou. É maravilhoso.

Texto para o blog

Texto para o blog

Sabe o que tem sido difícil? Escrever pensando que as pessoas lerão. Não posso falar tanta coisa, afinal, não quero me expor, não quero expor as pessoas próximas. E agora, como escrever sem coragem? A escrita sem coragem é chata e enfadonha, não tem graça, não causa nada. Arrisco-me até a dizer – sem ser escritora – que escrever é surpreender a si mesmo e sempre, sempre ir além. Uma vez um colega meu, há muitos e muitos anos, me fez uma proposta indecorosa: escreva uma cena capaz de me fazer sentir tesão. Nossa, achei um absurdo. Nunca, jamais! Hoje eu entendo o desafio. Ah sim, porque sem quebrar nossos próprios tabus, não há escrita que se preze. Se não houver um desafiar-se, nada sairá. E tem mais: eu gosto de dizeres claros. Insuportáveis são as palavras que quase dizem. E agora, com todo esse ímpeto, qual é o meu problema? Os outros. Eles novamente! Aí entra a bendita psicanálise. De um lado, a minha novidade, a piscina literária, eu dentro dela a flutuar e, de outro, os olhares, as leituras e os desejos alheios. E agora entendo mais uma lição do desafio colocado por meu amigo: provoque. Agora, só não posso me ocupar do que causarei em cada um. Por isso sigo em frente. Não quero ficar fechada num bloquinho de anotações no fundo da gaveta. Assim vou me esquecer de mim!

O Desamparo Original

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Nascer é estar fadado ao desamparo. Ele pode ser maior ou menor, mas sempre existe. O que eu não imaginava é que poderíamos carregar essa condição conosco por tanto tempo. A gente cresce, vira adulto, compreendemos nossos pais, suas ausências, falhas, entendemos que eles são humanos imperfeitos, compreendemos, perdoamos. Mas o doido é que o desamparo, o sentimento continua presente, se atualizando nas mais diversas situações. E nos sentimos sós. Sentimo-nos desamparados. Hoje esse buraco é quase concreto para mim. Sou capaz se senti-lo. Sinto também que no lugar desse buraco eu não coloquei nada. Mas em outro lugar eu construí algo novo, que me tornou adulta, que me fez menos adolescente desamparada desesperada. Uma tranquilidade completamente nova. Acho que são os “recursos” que temos que criar. Tem dias que a criança grita. Mas aí eu falo: calma, menina!

Saia de tule

Saia de tule

Quem não fica linda vestida numa saia de tule? Eu estava assim em meu sonho. E veja só, e vou mesmo para Nova Iorque com o marido e com amigos, e lá vou vestir uma saia de tule rosa. Muito feminina. Isso não era minha cara. Nunca fui de me permitir esses prazeres rosados. Tanto que no sonho, tive que subir em cacos de vidro e ficar na ponta dos pés. Cacos do que eu era. Detalhe: de tão leve, nem me machuquei.