Sombras

Sombras

Há algum tempo li um trecho da Alegoria da Caverna e, pela primeira vez, Platão foi fazendo sentido para mim.

“Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente.”

Essa frase ficou em minha cabeça: “todos os movimentos o fariam sofrer”. Quando a gente se movimenta, dói? Só depois de passar muito tempo parado. Aí parece que tem ferrugem nas articulações. Mas o próprio movimento parece que vai lubrificando tudo, até que a gente começa a respirar junto com a batida do coração. Nosso corpo vai transpirando com as passadas. Espera: o cara saiu da caverna e começou a correr? Talvez nem soubesse o que é isso, de tão parado que estava. Platão falou em levantar, virar a cabeça e andar. Levantar, virar a cabeça e andar. Definitivamente não estava falando do cara sedentário que sai correndo.

Acho que falava de um cara vendo televisão, trancado num quarto, olhando sem piscar para aquelas sombras. As imagens falavam com ele e, de tanto que falavam, ele acabava sonhando com elas. Pelo menos isso. Se não tivesse nem isso, morreria. Não sobraria nada. Então ele ficava, confortável, ali naquela poltrona do papai. Por falar em papai, acho que esse cara estava na casa do pai e da mãe dele. Não tinha sido ele quem tinha comprado essa poltrona. Nem sequer sabia a cor dela. E olha que estava sentado ali há muito tempo. Talvez 30 anos, talvez mais. Nem ele sabia, andava sem tempo para pensar: era um programa atrás do outro.

Não imaginava que seria forçado a sair dali. Platão disse isso. Pois é, foi num dia em que seu pai começou, subitamente, a esmurrar a porta dizendo que ia matá-lo.  Ele virou a cabeça, da TV para a porta. Doeu. Parecia que a porta ia cair. Seus olhos ganharam uma expressão apertada, ele segurou firme na poltrona, sentiu o tecido endurecido pelo ressecamento do tempo. Seu corpo todo tremeu. Lembrou-se que tinha corpo. Sentiu algo estranho batendo dentro dele. Não sabia para onde ir, mal conhecia aquele quarto. Pensou que sua única opção seria matar o pai, antes que ele o matasse.

Mas viu a janela e aquela luz amarela entrando pelos frisos. Foi forçado a se levantar. Sentiu medo de enfrentar o pai, sentiu medo de abrir a janela – não fazia a menor ideia do que encontraria atrás dela. Uma rua tranquila? Estaria no décimo andar? Uma avenida tumultuada? Carros? Continuou suando: “meu pai vai me matar”. Olhou para a televisão com os olhos cheios de água. “O que eu faço? Diz! Diz o que é que eu faço?!” Caiu no chão implorando uma resposta. Foi a primeira vez que fez uma pergunta.

Estava todo encolhido, as lágrimas se misturavam com o que escorria do nariz, e tudo isso se misturava com a saliva que escapava de sua boca. Foi desse jeito que se levantou e, com muita dor – seu corpo todo doía – arrancou a televisão da parede e a atirou no chão. Aquele barulho seguiu um minuto de silêncio. Sem referência nenhuma, sentia o corpo pulsar.

Assustou-se com a volta dos murros na porta. Foi doloroso o caminhar até a janela. Mexeu no gancho e a abriu de uma vez. Esticou os braços e espalmou as mãos tentando impedir a passagem da luz. Não viu nada. Seu corpo frio sentiu o toque do sol. Percebeu cheiros verdes e irreconhecíveis ruídos. Notou sombras castanhas e pressentiu perigos. Abriu seus olhos o quanto pôde e procurou pelas antigas imagens. Nada. Olhou para a televisão estilhaçada, sentiu uma angústia sem tamanho. Sabia que precisava pular aquela janela. E o fez.

 

 

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Mudança

Mudança

A casa já estava vazia. A gente tinha comido uma pizza sentados no chão. Eu queria ir para a rua, mas meu pai falou que não dava mais tempo. “Que saco!”, eu disse. Ainda tínhamos quatro horas de viagem pela frente. Ajudei a carregar o carro com tudo o que não fora no caminhão de mudanças. Desci com uma samambaia da minha mãe, “mais comprida que meu cabelo”, pensei. Depois, com meu som “dois em um”. Andava ouvindo uma fita K7 dos Ramones, Loco Life. Numa das idas até a garagem, corri três casas adiante e ele veio na minha direção, me abraçou em silêncio. Pedi um trago do cigarro. Ele me lembrou que no próximo final de semana iria me visitar. Respondi no máximo um “tá”, e nos beijamos – era o que a gente mais fazia. Ele tinha que ir trabalhar, fazia o turno da noite para ganhar um extra. Queria me despedir dele e dos amigos, mas aos 17 anos a gente não sabe bem como fazer isso. Alguns deles estavam logo ali, sentados no meio fio da praça. Fabiano, sentado na rua, tronco jogado para trás, apoiado nas mãos, brincando com os chinelos que calçava. Eram uns cinco, não havia nenhuma menina. Tinha uma bola ali encostada. Estavam mais quietos que de costume. Assim de short sem camisa, como antes de entrar para tomar banho e jantar, bem magros, bem jovens, bem entrosados. Hoje eu apostaria que estavam vendo nossa movimentação.

Nos treze anos morando ali, não vi ninguém se mudar para mais longe que o bairro ao lado. Na rua de baixo da praça estava o seu João, sentado em frente à sua casa, numa cadeira virada ao contrário, com os braços apoiados no encosto, fumando o cigarro de sempre. Não sei se seu passatempo eram as tragadas ou observar a gente. Tinha dois filhos e uma filha. Hoje penso que ele sabia de todos os segredos escondidos na praça, e que estava ali para nos proteger. Trabalhava como segurança. Na casa ao lado também eram dois meninos e uma menina. Uma mãe que nos vigiava da janela de vidro da cozinha. Ai de nós! Uma vez ela me levou no carnaval do clube e me proibiu de fumar e beijar. Me pegou fazendo as duas coisas. Ai de mim! Na casa seguinte, mais duas meninas. O pai delas gostava de montar telescópio e fez nossa infância ir até os planetas. Mas quando as meninas cresceram, ele não as deixava olhar para o lado.

Eu morava na parte de cima da praça, com minha mãe, pai e duas irmãs. Meu pai não ligava de os meninos baterem bola no muro. Deixava-os entrar para pegar a bola e, até no telhado, eles subiam para pegar pipa. Assim, a frente da minha casa sempre foi um ponto de encontro. Bola, bets, mamãe da rua, pega ladrão, stop. Meu pai costumava dizer que bastava assoviar para que aparecessem 40 crianças. Para todas elas ele colocou uma piscina em casa. Era a única piscina da rua. Corria o boato de que quando a gente viajava, os meninos pulavam o muro para nadar. Só uma mureta dividia minha casa da casa da vizinha. Uma menina que, desde muito nova, ficava sozinha em casa. Pulávamos muito o muro de cá para lá, de lá para cá. Foi lá um dos nossos primeiros bailinhos: música e luz apagada na cozinha. Dancei a noite toda com o mesmo menino cuja orelha de abano encostava gelada em meu rosto. Ele sempre me pedia em namoro, eu sempre pedia para pensar, e sempre dizia que não. Um dia me disse que eu não aceitava porque não sabia beijar, neguei. Aí veio com a pergunta fatídica: “então por que a gente fecha o olho quando beija?” Me senti numa sinuca de bico. Sorte a minha, ele mesmo respondeu, “para dar mais emoção”. Aí começaram as domingueiras. Meu pai levava e buscava, mas eu queria voltar de ônibus. Ouvíamos música no meu som, em frente de casa. Arriscávamos uns passinhos de dança na rua. Depois veio o violão,  meninos de outra rua, o vinho escondido. Veio Odara, Qualquer Coisa, Vaca Profana, dá-lhe Caetano.

De certa forma, tinha uma graça em ser a que está saindo, a que vai viver algo novo. Eu intuía o mundo que viria pela frente, mas não podia imaginar o tamanho da ruptura. Não podia imaginar que tudo aquilo se dissiparia de minha vida tão rapidamente. Não demorou nada para eu terminar com o namorado – bastou ele aparecer de macacão branco numa das visitas. Foi assim, sem dramas, que tudo mudou. Naquele dia também não me despedi da casa. Não conseguia conceber que ela não seria mais nossa. Sonho com ela até hoje. Fechamos as portas. Eu e minhas irmãs no banco de trás, esperando a partida. Como se não bastasse, meu pai quis descer do carro para conferir o cadeado do portão. Fiquei com mais raiva dele ainda. Mas estava quieta naquele dia. Não gritei: “bem agora que estou namorando?!” Era quase como se estivéssemos indo ao supermercado. Meu pai ligou o Corcel II verde, que começou a andar vagarosamente. Olhei para trás. Para minha surpresa os meninos sentados no chão olhavam para a gente. Senti, bem ali na barriga, uma coisa que até hoje não sei bem o que é.

 

A tal moça

A tal moça

Uma moça matou diversas pessoas numa casa. Eu estava junto, assistindo a tudo como cúmplice. Ela era eu. Restava uma dúvida: ela me mataria também? Não matou. Beijou-me. Ela fazia isso por mim. Cobrimos os corpos. Preocupava-me se os vizinhos e as crianças veriam. A moça disse que cuidaria de tudo. Eu ficava pensando se conseguiria viver normalmente, sem pagar pelos crimes. Mas a moça parecia muito tranquila.

“Esse encontro com a falta do Outro vai abrir caminho para a necessidade de que o sujeito coloque ali algo de si, com seu estilo imprima sua marca em sua invenção” (Chediak, 2014: 128).

Whatsapp

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Sonhei que eu, minha irmã e minha amiga éramos vizinhas de quintal. Nossos quintais eram divididos por um único muro alto, por meio do qual conversávamos sem nos vermos. O muro não era reto, um muro reto não conseguiria dividir três casas e apenas elas. Somente nós três, mais ninguém. O muro não era bonito, tinha tijolos à mostra. Era bem ali no quintal, aonde os transeuntes não veem. E nossa atividade de comunicação era tão intensa! Achei tão bonito isso. Tão bonito que me dá vontade de chorar. Porque ontem minha amiga mandou uma mensagem de voz abrindo seu coração. E tantas vezes abri meu coração só para elas. E dividimos tão intensamente um momento tão lindo e delicado que foi o início de nossas vidas como mães. Hoje minha irmã propôs que trocássemos fotos daquilo que vemos durante o dia: uma vista da janela do ônibus, um computador, a chegada à psicóloga. Diminuímos nossa distância trocando olhares sinceros, nem sempre bonitos. Brasília, Buenos Aires e Santo Domingo. É com elas que me comunico no quintal da minha casa. Ontem foi lindo quando a Mi disse, “ouçam sozinhas o que vou dizer”. Ela estava dizendo: vamos para o quintal. E rapidamente ali estávamos nós três.

Casa

Casa

Sempre uma casa. Sempre os meus pais. Sempre uma casa que não é deles, mas eles moram lá – claro que essa casa é minha, se não for eu mesma. Sempre uma parte obscura. Uma continuidade aonde ninguém entra, nem eu. Um lugar misterioso – dentro de mim. Estamos na parte conhecida. Mas aquele lugar permanece ali, sempre ali. Nem tentei entrar. Sonho vai. Sonho vem. Sessão vai. Sessão vem. E a casa foi mudando. Passou a ser outras casas possíveis. Essa extensão escura passou a ser mais clara. Virou até um jardim. Virou até outra casa, veja só. Nessa noite virou quarto dentro de quarto. Quartos novos! Bonitos! Mas pra que tanto quarto? Fingi que não era comigo. Não, não deitei na cama. Mas ora bolas, eu que fiz esse quarto dentro de quarto. Mesmo que eu ainda não o entenda muito bem, já sinto um baita orgulho de mim.