Inscrição

Inscrição

Vejo tanta coisa linda no mundo

Como ouso querer ser bela?

Procuro palavras que possam dizer

O que não sou capaz de pensar

Essas ditas me aprisionam

Em inscrições levianas

Angustia itinerante

Queria um dizer que a arrancasse

Que rasgasse qualquer sentido supérfluo

Que naufragasse subterfúgios

Todos aqueles que me amenizam

Para que eu possa finalmente rodopiar

Jogar expressões ao vento

Até que não precise mais delas.

Palavras. Ah, as palavras.

Invoco todos os dizeres

Despretenciosos

Digam, falem sem parar

Escrevam qualquer bobagem

Até que o inesperado escorra

Lambuzando mentes fixas

Suplico o apagar de silêncios reconfortantes

Direi, sim, o que quer que seja

Dissolverei aquarela

Bela nesse mundo

Nem tanto egoísta

e narcisisticamente assim

Doarei-me ao vazio

Incorrerei em desvios

Sabendo que os dizeres acorrentam-se às palavras

Mas que somente elas podem agitar-se até

Que a cortina caia e o espetáculo aconteça.

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Indispensável

Indispensável

Preciso de nó que me desate, de tremor que me impulsione, de angústia que me movimente. Preciso de medo que me encoraje, de dúvidas que me conduzam. Preciso de crença que me desobrigue. Preciso dar as cartas para jogar. Preciso de mim, preciso de mim. De qualquer loucura que me humanize. Preciso de ilusões que possa realizar. Preciso de sonhos que me acordem, de ar que me inspire, de ideia que me materialize.

Preciso me materializar.

Diário de uma leitora

Diário de uma leitora

Não julguem de antemão: não sou uma grande leitora. Não por ler pouco, mas porque nunca foi fácil encontrar o livro certo.

Quando quis um livro grande li, em meu beliche, Memorial do Convento. Não pulei uma palavra sequer. Queria passar no vestibular e li Dom Casmurro. Queria experimentar sentimentos e li Edgar Alan Poe na cama da minha mãe. Descobri que palavras, e somente elas, podem causar medo.  Queria sofrer por amor antes de amar, me debulhei com A Dama das Camélias. Achei que fosse morrer de amor um dia. Estava entediada quando li Noite na Taverna, do Alvares de Azevedo. Naquelas férias pensei nos que morrem cedo. Estava ansiosa pela juventude que chegava quando li Feliz Ano Velho. Poucas pessoas se lembram de que há uma Virgínia na história – e ela não usava sutiã. Estava com vontade de transgredir e li A Grande Arte, adorei ser fisgada por mistérios e alguma obscenidade. Depois, queria compartilhar leitura com uma amiga e li Encontro Marcado. Passamos a amarrar angústia pelos bares da cidade. Gostava de me olhar no espelho até me estranhar quando li A Náusea, do Sartre. Queria algo rápido e li A Metamorfose. Aprendi que tamanho não é documento. Estava muito absorta em meus pensamentos quando li Água Viva. Compreendi todas as viagens de Clarice Lispector. Queria um grande livro e li Cem Anos de Solidão. Comecei cem vezes até que parei de me importar com o nome dos personagens. Encantei-me com Macondo. Queria impressionar meu futuro marido e li Amor nos Tempos do Cólera. Meu amor por ele aumentou. Não queria nada e fui atraída por Heathcliff, personagem de O Morro dos Ventos Uivantes. Queria passar meu tempo e li O Grande Gatsby. Estava fazendo análise quando li Carta ao Pai. Escrevi algo para o meu também. Queria escrever, li Sobre a Escrita de um autor que nunca havia lido, Stephen King. Acreditei que poderia ser escritora.

Queria ser uma devoradora de livros, mas são eles que me devoram: me fazem sentir medo, desejar amar até o fim, estranhar a simples existência e até desejar escrever. Talvez seja péssima leitora por não procurar leituras, mas encontros.

Escrever

Escrever

Se não puder dar um tapa na cara

Se eu nada arriscar

Se não sentir medo

Se não houver benevolência com possíveis erros

Não poderei escrever.

 

Quero a afronta da folha em branco

Quero molhar o papel de suor

Quero que as entrelinhas abram espaço

Quero minha mão conduzida pelo texto

Por alguns segundos, que seja!

 

Quero uma centelha de curiosidade

Quero um lampejo nos olhos

Quero um rubor na face

Quero ser um sopro no ouvido

Quero abraçar o secreto

Só assim posso escrever.

 

Quero a dor e a beleza num só sentimento.

 

Se não exibir sonhos

Se não arriscar minha vaidade

Se não regozijar na solidão

Nada poderei escrever.

 

Quero que o tempo passe

Quero esquecer a vida

Quero construir um castelo

Quero gente sonhando comigo.

 

Se não houver tudo isso, nem quero escrever.

Cinema

Cinema

Júlia abriu a porta e enlaçou os dois braços no pescoço de Henrique. Estava decidida a não sofrer por ele ter sumido no dia anterior. Ele agarrou sua cintura e a tirou do chão por alguns segundos. Entraram cambaleando, rematando o abraço. Henrique não falaria nada sobre ontem, esperaria que ela conduzisse a coisa. Júlia, feliz por não ter pirado, não perguntaria nada dessa vez. Ele pegou uma cerveja com o riso malandro de quem espera por uma inquirição. Apenas ouviu: “foi até bom que você não apareceu, aproveitei para ir ao cinema”. Henrique deu um gole na cerveja: “com quem?” Agora foi a vez dela pegar sua latinha: “sozinha mesmo”. Ele caminhou para o sofá: “Coisa de vagabunda”. Júlia, com seu vestido florido, sentou-se em seu colo: “fala de novo, não entendi o que você disse”.

“Que mulher que vai ao cinema sozinha é vagabunda. Tá pedindo”. Levantou-se antes que ela saísse de suas pernas. “Fui sozinha porque você sumiu!” Ele andou de um lado para outro, como quem recebe notícia ruim: “que filme você viu?” “Ana e o Sexo.” “Tá de brincadeira!” Continuou em seu vai e vem. Ela, sentada, apoiou os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça: “nossa, nada a ver!” “Se não aconteceu nada, você teve sorte. Ou azar, vai saber”. A última frase foi dita já com o cigarro na boca, em voz baixa e a caminho da varanda. Júlia não se conteve: “Azar? Do que você está falando?” “Vai ver queria mesmo dar para qualquer um”. Pronto, ia começar.

“Ir ao cinema sozinha é normal. Sempre fiz isso, minhas amigas também”. Ele riu: “que amigas?” Gostava de ofendê-las. “Para!” Júlia sabia que seu pedido seria vão. “Ninguém chegou em você?” “Claro que não! E você, onde estava ontem?” Exatamente o que ela tinha se prometido não perguntar. Henrique desviou: “com certeza não estava sozinho no cinema, tenho namorada pra isso”. Os dois estavam em pé, frente a frente: “Chega Henrique, chega!” “É melhor mesmo eu ir embora”. Nessa hora, uma angústia surgiu bem ali na garganta dela: “fica”. Não sabia porque implorava por ele: “ontem você sumiu e hoje vai fazer isso?”

Henrique riu e a abraçou meio de lado. Ela o puxou para perto: “dorme aqui hoje?” “Não sei, amanhã tenho que acordar cedo, vou dar aula”. Saiu do abraço e foi para a geladeira abrir outra cerveja. “Eu também tenho que estudar”. Abraçou-o por trás. Ficaram assim por alguns segundos. Se ele fosse embora, Júlia sabia que se sentiria devastada, não conseguiria ficar numa boa pelo segundo dia consecutivo. Ele se virou para ela e a abraçou: “eu te amo”. Júlia chegou a pensar que tudo acabaria ali e que finalmente poderiam relaxar: “em qual sessão você foi?”. Ela pensou em mentir, mas não conseguiu: “Onze e meia”.

“Vou embora”. Aquela angústia presa na garganta desceu para o estômago, bateu e voltou explodindo em um berro. O berro não era de uma mulher em apuros, era de uma lutadora. Foi junto com a saída desse estrondo que Júlia desfechou um soco certeiro no queijo de seu namorado. Ele foi para trás: “tá maluca?” Não era muito dado a esportes. Ela, por outro lado, controlava toda sua ansiedade correndo, pedalando e marombando. Só que ainda não conhecia sua força. Antes que ele voltasse a seu equilíbrio ela desfechou outro e foi para cima dele. Segurou a cabeça dele e bateu no chão. Assustou-se consigo, mas não conseguiu mais parar.

Enquanto berrava, o centro das sobrancelhas se contraía e os olhos arregalavam-se. Mostrava os dentes. Seria capaz de jogar a casa em cima dele, mas se limitou à lata de cerveja. Ele tentava se desvencilhar, mas ela o empurrava, puxava. Rasgou os botões da camisa: “o que você está fazendo? Olha isso!” Ela não conseguia dizer nada, o maxilar estava travado. Ele foi caminhando maltrapilho até a porta. Até que ela começou a gritar com o estômago: “vai embora! Vai embora!” Ele saiu rápido e ela foi direto trancar a porta. Virou-se de frente para a casa bagunçada e ficou respirando forte com a boca seca. Até que deu mais um berro, agora com o corpo todo. Foi para a geladeira e abriu uma latinha bem gelada.

Descarada

Descarada

Sonhei com um filme inteiro. O sonho acabou bem no fim do filme, quando se acenderam as luzes. Eu passei da tela para a poltrona. Pois é, em algum momento estive no filme, mas terminei expectadora. A cena final era um cara “duas caras”. Era o Selton Melo. Ele já fez irmãos na TV? Mas, de todo, jeito ele tem um irmão bem parecido com ele. O Danton. Engraçado, tenho dois filhos parecidos. Mas não vou começar essa viagem agora.

Quero falar do filme que fiz essa noite. Então, na cena final, ele, Selton, se levanta de um banco alto em um bar, havia uma moça com ele, sentada num sofá mais baixo. Ele se vira de costas para ela e levanta seu cabelo: tinha outra cara ali. Ele era duas caras. Isso explicava o filme inteiro. Pá – as luzes se acendem. Eu tive tempo de pensar que odeio esse tipo de final. A cara estava ali o tempo todo e ninguém viu. Que jeito de explicar as coisas! Não gostei desse final. Mas acordei, não tive tempo de fazer outro.

Como o Selton foi parar ali e como virei expectadora dessa história?

Estava sozinha no cinema. Vai ver por isso pedi ajuda dele. Tinha que fazer o filme, ele entende de filme, o coloquei ali. E claro, tem a glória que é ele trabalhar num roteiro meu. Bom, se estou escrevendo, qualquer coisa que seja, já não estou mais ali. Sim, quem escreve não está mais naquilo que escreve. Aí, faz o quê? Usa as pessoas para criar personagens. Duas caras? Muito mais do que isso. Duas, três, quatro caras. Não estando mais ali, na história daquele filme, coloquei o Selton no meu lugar. O que se pode esperar de um ator? Duas caras do caramba.

Tudo ali passando na tela. Eu só olhando e pensando: que merda de final. Precisa colocar a cara na cabeça do cara? Muito explícito. Escancarar as mil caras. Na próxima vez, tentarei ser mais discreta.

Caça Palavras

Caça Palavras

A palavra escorrega. Esvai. Parece até que foge. Ela quer mais de mim. Mais dedicação, mais anotação. Ela não me espera. Vai rápido. Escoa. Quando vejo, perdi. Aí vem outra. Passa pulando. Tento pegá-la num rodopio! Deslizo. Procuro palavras como quem tenta lembrar de um sonho. Elas parecem presas a fios invisíveis: que se desprendem, se embaralham, me enganam. Mas não posso ser injusta. As palavras são generosas. Estão aqui e ali, vão e voltam. Elas precisam de alguém que as escreva. Pobres e tentadoras palavras sozinhas. Somente quando minha mente dança – na mesma medida da perseverança – elas escorrem para o papel. Juntas, desfilam sentidos inesperados. Maravilhosas entrelinhas. Me encontro bem ali no que não foi escrito. Naquilo que precisa de palavras, mas que não pode ser dito. E elas, danadas, continuam pulando aqui e ali, para que sejam agarradas e para  que, finalmente, possam rasgar sentidos. Descaradamente.

O Poeta

O Poeta

Num dia comum, ninguém diria que ele nasceu para a poesia. Lidava com a vida e com a morte, dentro de uma ambulância. Mas era sem a touca branca que seus cabelos se expandiam, e sua mente brincava com as palavras. Sem a máscara, sua boca declamava. Sem o uniforme hermético seu corpo mimetizava. E era assim, despido, que ele mergulhava na piscina literária. Ali ele nadava de braçada, mergulhava e boiava no mais perfeito dia, com a mais perfeita luz. Sem eira nem beira, ele desfrutava a fluidez.

Até que a água se agitou sem motivo aparente. Ele parou de boiar e viu, do lado de fora, uma pessoa. “Minha mãe?” O sol passou a atrapalhar sua visão. Um segundo agito, mais forte, fez entrar água em seu nariz e ele quase engasgou as palavras. Ainda recuperando o ar, percebeu mais olhares. A família inteira, amigos, e quem ele até não conhecia. Uma multidão. Uma onda agigantou-se à sua frente. E outra, e outras. Seu corpo ficou tenso na expectativa de saber para onde fugir. “O que querem de mim?” Sua boca fechada. Sua mente desejou sair dali e vestir seu uniforme, a ambulância lhe pareceu um lugar seguro.

O poeta, sensível que era, sentiu que deveria fugir dos olhares alheios. Quanto mais fundo mergulhasse, mais livre estaria. Deep inside. Mergulhou. Sentiu o vazio. Sentiu medo. Achou que não voltaria. Mas foi ali, num lugar onde não chega nada, além de seu próprio desejo, que ele começou a ouvir um piiiiiiiiiiii. Pirado. Pirotécnico. As palavras não paravam de vir à sua mente. E foi pensando em rimas, ritmo, aliterações, versos e estrofes que ele voltou à superfície esbanjando poesia! Se havia uma multidão olhando, ele nem reparou.