Tocaia

Tocaia

É como se minha cabeça estivesse a girar

Não sei se estamos neste ponto novamente

Ou se nunca saímos do lugar

As mesmas sentenças

As mesmas cabeças a rolar

O devir é um disco riscado

Eterno retorno a soar

Em ouvidos cansados

Ansiosos por novidades no ar

Insolúvel poder permanente

Pode tocar seu plano

Pode corromper fulano

Está avisado

Ninguém vai se entocar.

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Inscrição

Inscrição

Vejo tanta coisa linda no mundo

Como ouso querer ser bela?

Procuro palavras que possam dizer

O que não sou capaz de pensar

Essas ditas me aprisionam

Em inscrições levianas

Angustia itinerante

Queria um dizer que a arrancasse

Que rasgasse qualquer sentido supérfluo

Que naufragasse subterfúgios

Todos aqueles que me amenizam

Para que eu possa finalmente rodopiar

Jogar expressões ao vento

Até que não precise mais delas.

Palavras. Ah, as palavras.

Invoco todos os dizeres

Despretenciosos

Digam, falem sem parar

Escrevam qualquer bobagem

Até que o inesperado escorra

Lambuzando mentes fixas

Suplico o apagar de silêncios reconfortantes

Direi, sim, o que quer que seja

Dissolverei aquarela

Bela nesse mundo

Nem tanto egoísta

e narcisisticamente assim

Doarei-me ao vazio

Incorrerei em desvios

Sabendo que os dizeres acorrentam-se às palavras

Mas que somente elas podem agitar-se até

Que a cortina caia e o espetáculo aconteça.

Roda-gigante

Roda-gigante

Mariana vivia numa roda-gigante. Girava dia e noite e, por mais voltas que desse, acabava sempre passando pelos mesmos pontos. No ponto mais baixo, quase botava os pés no chão. Nesses dias, era tomada por um profundo tédio. Mas como a roda é implacável em seu girar, Mariana começava a subir. Via o céu e junto com ele a possibilidade de mil coisas! “Agora vai!” Se inclinava em direção ao azul e balançava os pés feito criança. Chegaria ao ponto aonde ninguém jamais chegou! Seus sonhos eram ambiciosos: acreditava no amor que ninguém havia amado. Vivia cenas de cinema e acreditava em todas elas. Aí vinha um vento chato, ou um sol muito forte: “não, não é possível, de novo não”. Sim, de novo estava naquele ponto de começar a descer. Vinha um frio na barriga, que ela amava e odiava. Não é que amasse, era mais um vício. Nessa descida ela sofria, mas se sentia viva como nunca. Chorava, mas sabia estar num patamar diferente de todas aquelas pessoas ali no chão. Pressentia que logo iria passar por uns diazinhos medíocres – até precisava deles para retomar o fôlego – mas sabia que logo começaria a subir e a subir! Que alegria! Acreditaria em tudo de novo.

Pobre Mariana, começou a ficar tonta de tanto girar. Sentia-se extremamente cansada. Olhava as pessoas com os pés no chão e não as invejava: “de que vale a vida assim?” E fincava o pé na roda. Os giros passaram a ser verdadeiros loopings. Já estava descabelada, alucinada, transtornada, enjoada quando foi arremessada ao solo. Sentiu-se humana como nunca: pela primeira vez teve medo de morrer. Caiu na vida. Toda esfolada que estava, teve que se render àquelas pessoas sem graça. E não é que foi amada? Não viu muito bem quando e como o amor começou em sua vida. Não teve holofotes, nem braços fortes, nem um glamour. Foi somente o amor. Aquele que penetra devagarzinho, que de tão leve nos enche de ar e amplia nossa respiração. Olhou para cima e teve pena dos que estavam presos a girar. Olhou para um lado e para outro, viu horizontes de possibilidades. Respirou fundo.

Indispensável

Indispensável

Preciso de nó que me desate, de tremor que me impulsione, de angústia que me movimente. Preciso de medo que me encoraje, de dúvidas que me conduzam. Preciso de crença que me desobrigue. Preciso dar as cartas para jogar. Preciso de mim, preciso de mim. De qualquer loucura que me humanize. Preciso de ilusões que possa realizar. Preciso de sonhos que me acordem, de ar que me inspire, de ideia que me materialize.

Preciso me materializar.

Estrelar

Estrelar

Dividimos um curto espaço de tempo sobre a terra e tão pouco nos entendemos. Camila jurava amar Tiago, que hesitava amá-la do jeito que ela queria. O céu se movimenta, as estrelas vão e vêm, a lua fica cheia e minguante e as pessoas ficam ali, insistindo no mesmo ponto. Camila queria porque queria. Ok, não vamos simplificar as coisas. Ela queria porque via nele o que bem entendia. Tiago se mostrava, suas ações eram o que eram. Camila projetava: via nele a possibilidade de céu estrelado enquanto ele chovia, todos os dias. Como pode ser o mundo tão infinito e uma pessoa tão obcecada numa única outra? Coisa esquisita. Ela insistia, implorava. Ele falava que não queria, até desistia. Ela chorava. Ele voltava. Não ajudava, sempre voltava. Abraçavam-se, até achavam que o tempo parava, mas os anos passavam. Ah, o tempo! Podia ele nos ensinar alguma coisa, mas o que ele faz é passar. Camila esperava o dia em que seu amor pudesse encaixar. Mas esse dia demorava, Tiago até que chegava, ela até que se arrumava, achava que iam bailar. Mas sempre chovia como um balde de água fria. Até que um dia, acho que foi com um rodinho pequeno, ela começou a puxar a água. Teve medo de secar a si mesma. Achou que fosse definhar. Engraçado, mas foi puxando aquela água suja no chão que ela passou a ver estrela no céu. Logo reparou que não estava ficando seca, estava era vendo coisa brilhar. Foi então que falou tchau para Tiago. Ele até chorou, acreditam? Mas não respingou nela não. Camila já estava olhando para cima, pensando no mundão grande em que vivia, em tanto segredo escondido por aí, e resolveu caminhar. Foi quando encontrou todas as estrelas que queria, amou uma a uma e até dançou com elas sob o luar.

Vazio

Vazio

Vazio é um buraco que a gente sente bem no peito

Peito que carrega os desejos de quem te amou primeiro

Primeiro amor que não disse a que veio

Veio ensinar e calar o devaneio

Devaneio é o anseio de ser inteiro

Inteiro com um furo bem no meio

Meio que faz do saber não sobranceiro

Sobranceira é a verdade que não aparece no letreiro

Letreiro que se encontra ali no alheio

Alheio que não falta no espelho

Espelho que reflete o desejo

Desejo que lhe vem como despejo

Despejo de dejeto que lhe afeta

Afeta a busca de encontrar o que lhe falta

Falta é um buraco que a gente sente bem no peito.

Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

Pai e Filho

Pai e Filho

Guilherme sofria por amor. Não chegava a ser rejeitado porque não chegava a se declarar. Amava escondido. Padecia todas as noites: chorava antes de dormir. Fazia pedidos. Imaginava o beijo. Dormia suspirando. Tinha uma queda pelo amor platônico. A vida é mesmo dura. Com todos nós. Estava sendo também para Guilherme.

Ivan ouviu o filho chorar. Bateu fraco na porta e entrou. Como Guilherme continuou com o rosto socado no travesseiro, fez apenas um carinho: “o que foi?” Nenhuma resposta. “Por que você está chorando?” Depois de mais alguns soluços: “nada, não é nada”.

Guilherme sentia que tinha todos os motivos do mundo para chorar. “Entendo, na sua idade eu chorava muito”. O filho virou-se meio de lado: “por que, pai?” Ivan passou as mãos pela barba: “acho que por umas espinhas que eu tinha”.

Guilherme deitou-se virado para cima: “mas você já era casado com a mamãe?” Disse como um possível alento. “Não… Nessa época eu nem a conhecia.” Ivan riu sozinho. “Mas você sabia que teria sorte do amor!” Chorou pensando em seu azar.

“Eu? Não filho, nessa época não me achava sortudo, muito menos no amor”. Chegou mesmo a acreditar que as espinhas não o deixariam viver, a não ser quando estivesse com outros amigos espinhentos.

“Então você conheceu a mamãe bem depois das espinhas?” “Sim, bem depois”. O menino suspirou: “é, você demorou para ter sorte”. O pai soltou o ar num riso.

A vida muda para todos. O que quase sempre é um alívio.

Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.