Vontade

Vontade

Tem que haver calma. Ela gosta também de silêncio. Só um pouco de barulho, só um pouco de fala, nada que exija uma resposta: isso tira sua concentração. Olhos fechados e boca entreaberta. Pode começar no pescoço, cabeça, orelha, barriga, joelhos ou na parte de dentro das coxas. Como um rio, um raio ou um choque, aquele arrepio é levado para um ponto em suas costas. Aquele ponto contrai e o corpo todo se movimenta, o quadril é levado para trás e o peito para frente. Aí tudo nela escorre. Não fale nada, por favor, não estrague esse momento. Ela já está em outro lugar. Só quer sentir. Coloque algo entre suas pernas. Não precisa mexer em muitas partes, só ali. Com vontade. Bem ali. Continuamente. Continuamente. Aí ela vai gostar de olhar e de parar de olhar. Vai imaginar qualquer situação sem caras, descarada. E tudo vai se estimular à medida que agora é outro ponto que pulsa, que abre, aumenta e avermelha. Continua igual, não mexe em nada, não muda nada, sempre assim, não aperta muito, espera. Pronto.

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Pai e Filho

Pai e Filho

Guilherme sofria por amor. Não chegava a ser rejeitado porque não chegava a se declarar. Amava escondido. Padecia todas as noites: chorava antes de dormir. Fazia pedidos. Imaginava o beijo. Dormia suspirando. Tinha uma queda pelo amor platônico. A vida é mesmo dura. Com todos nós. Estava sendo também para Guilherme.

Ivan ouviu o filho chorar. Bateu fraco na porta e entrou. Como Guilherme continuou com o rosto socado no travesseiro, fez apenas um carinho: “o que foi?” Nenhuma resposta. “Por que você está chorando?” Depois de mais alguns soluços: “nada, não é nada”.

Guilherme sentia que tinha todos os motivos do mundo para chorar. “Entendo, na sua idade eu chorava muito”. O filho virou-se meio de lado: “por que, pai?” Ivan passou as mãos pela barba: “acho que por umas espinhas que eu tinha”.

Guilherme deitou-se virado para cima: “mas você já era casado com a mamãe?” Disse como um possível alento. “Não… Nessa época eu nem a conhecia.” Ivan riu sozinho. “Mas você sabia que teria sorte do amor!” Chorou pensando em seu azar.

“Eu? Não filho, nessa época não me achava sortudo, muito menos no amor”. Chegou mesmo a acreditar que as espinhas não o deixariam viver, a não ser quando estivesse com outros amigos espinhentos.

“Então você conheceu a mamãe bem depois das espinhas?” “Sim, bem depois”. O menino suspirou: “é, você demorou para ter sorte”. O pai soltou o ar num riso.

A vida muda para todos. O que quase sempre é um alívio.

Meu Filho e a Luz

Meu Filho e a Luz

Aquela que desponta bem cedinho, e que ilumina a sala sonolenta, passa entre os cachinhos e sua cabecinha fica brilhante. Aliás, todo o contorno do corpo fica com fina luz.  É como se eu pudesse ver cada pelinho do corpo. Sou capaz de contar um a um. Sento-me com ele no chão, encantada com esse fenômeno.  É quando ele se vira para a janela e o rosto se ilumina amarelo. Nessa hora, os olhos ficam verdes incontestes.

Como gostam de afirmar os olhos verdes do meu filho! O que muitos não sabem é que eles mudam de cor. Mergulho no verde, mas é com o mel que me delicio. Aquela cor suave que acontece quando o sol deixa de entrar pela janela. Ocorre por completo: olhos, pele, pelos e cabelo. Tudo carameliza. Sinto o doce de cada olhar e sorriso. Como me faz bem.

Quando ele acorda do sono da tarde, com a cortina meio fechada, pronto, lá está o castanho. Adoro essa palavra! Vem de castanha e significa cor amarronzada. É nesse momento que mais vejo contraste: até uma sobrancelha aparece. Tudo se define em linhas, contornos e expressão. São os sorrisos mais largos do dia. O olhar mais denso e profundo. É quando me afundo de tanto cheirar.

Amo meu filho de todas as cores. Ainda não contei que o sorriso dele é azul, contei?

Cinema

Cinema

Júlia abriu a porta e enlaçou os dois braços no pescoço de Henrique. Estava decidida a não sofrer por ele ter sumido no dia anterior. Ele agarrou sua cintura e a tirou do chão por alguns segundos. Entraram cambaleando, rematando o abraço. Henrique não falaria nada sobre ontem, esperaria que ela conduzisse a coisa. Júlia, feliz por não ter pirado, não perguntaria nada dessa vez. Ele pegou uma cerveja com o riso malandro de quem espera por uma inquirição. Apenas ouviu: “foi até bom que você não apareceu, aproveitei para ir ao cinema”. Henrique deu um gole na cerveja: “com quem?” Agora foi a vez dela pegar sua latinha: “sozinha mesmo”. Ele caminhou para o sofá: “Coisa de vagabunda”. Júlia, com seu vestido florido, sentou-se em seu colo: “fala de novo, não entendi o que você disse”.

“Que mulher que vai ao cinema sozinha é vagabunda. Tá pedindo”. Levantou-se antes que ela saísse de suas pernas. “Fui sozinha porque você sumiu!” Ele andou de um lado para outro, como quem recebe notícia ruim: “que filme você viu?” “Ana e o Sexo.” “Tá de brincadeira!” Continuou em seu vai e vem. Ela, sentada, apoiou os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça: “nossa, nada a ver!” “Se não aconteceu nada, você teve sorte. Ou azar, vai saber”. A última frase foi dita já com o cigarro na boca, em voz baixa e a caminho da varanda. Júlia não se conteve: “Azar? Do que você está falando?” “Vai ver queria mesmo dar para qualquer um”. Pronto, ia começar.

“Ir ao cinema sozinha é normal. Sempre fiz isso, minhas amigas também”. Ele riu: “que amigas?” Gostava de ofendê-las. “Para!” Júlia sabia que seu pedido seria vão. “Ninguém chegou em você?” “Claro que não! E você, onde estava ontem?” Exatamente o que ela tinha se prometido não perguntar. Henrique desviou: “com certeza não estava sozinho no cinema, tenho namorada pra isso”. Os dois estavam em pé, frente a frente: “Chega Henrique, chega!” “É melhor mesmo eu ir embora”. Nessa hora, uma angústia surgiu bem ali na garganta dela: “fica”. Não sabia porque implorava por ele: “ontem você sumiu e hoje vai fazer isso?”

Henrique riu e a abraçou meio de lado. Ela o puxou para perto: “dorme aqui hoje?” “Não sei, amanhã tenho que acordar cedo, vou dar aula”. Saiu do abraço e foi para a geladeira abrir outra cerveja. “Eu também tenho que estudar”. Abraçou-o por trás. Ficaram assim por alguns segundos. Se ele fosse embora, Júlia sabia que se sentiria devastada, não conseguiria ficar numa boa pelo segundo dia consecutivo. Ele se virou para ela e a abraçou: “eu te amo”. Júlia chegou a pensar que tudo acabaria ali e que finalmente poderiam relaxar: “em qual sessão você foi?”. Ela pensou em mentir, mas não conseguiu: “Onze e meia”.

“Vou embora”. Aquela angústia presa na garganta desceu para o estômago, bateu e voltou explodindo em um berro. O berro não era de uma mulher em apuros, era de uma lutadora. Foi junto com a saída desse estrondo que Júlia desfechou um soco certeiro no queijo de seu namorado. Ele foi para trás: “tá maluca?” Não era muito dado a esportes. Ela, por outro lado, controlava toda sua ansiedade correndo, pedalando e marombando. Só que ainda não conhecia sua força. Antes que ele voltasse a seu equilíbrio ela desfechou outro e foi para cima dele. Segurou a cabeça dele e bateu no chão. Assustou-se consigo, mas não conseguiu mais parar.

Enquanto berrava, o centro das sobrancelhas se contraía e os olhos arregalavam-se. Mostrava os dentes. Seria capaz de jogar a casa em cima dele, mas se limitou à lata de cerveja. Ele tentava se desvencilhar, mas ela o empurrava, puxava. Rasgou os botões da camisa: “o que você está fazendo? Olha isso!” Ela não conseguia dizer nada, o maxilar estava travado. Ele foi caminhando maltrapilho até a porta. Até que ela começou a gritar com o estômago: “vai embora! Vai embora!” Ele saiu rápido e ela foi direto trancar a porta. Virou-se de frente para a casa bagunçada e ficou respirando forte com a boca seca. Até que deu mais um berro, agora com o corpo todo. Foi para a geladeira e abriu uma latinha bem gelada.

O Velho

O Velho

Insistem para que eu conheça o mar. Não quero. Quiseram me levar de carro e de avião. Nem pensar. Sair de casa pra quê? Posso vê-lo pela televisão, está de bom tamanho. O que faria diante dele? Não tenho tempo para pensar besteira. Viajar horas para chegar até lá, e depois ter que voltar! Vê se pode. Só ia bagunçar meus horários. Prefiro minha varanda e meus pés estendidos na mureta sólida. Acho que vai chover ainda hoje. Me embrenho no mato, mas não me meto no mar. Aliás, já são seis da tarde.

Levantou-se com vigor inesperado para sua idade. Foi até a geladeira e pegou duas panelas de alumínio amassado: arroz e feijão. Pegou também dois ovos. Levou tudo para o fogão. Esses jovens não sabem muita coisa da vida. Quebrou um dos ovos na frigideira. Acreditam no que dizem para eles. Falam que ver o mar é bom, daí viajam 700 km para isso. Parecia não se importar com o óleo que espirrava. Sair de casa sem necessidade e ainda gastar dinheiro? Preciso consertar meu telhado.

Guardou a frigideira no forno. Encheu o prato e se sentou na cabeceira da mesa azul. Comeu com o garfo grande e com o olhar baixo. Ouviu o barulho da chuva e previu que começaria a gotejar dentro de casa. As coisas tem que ser certas. Deviam saber disso. Levantou-se e distribuiu algumas vasilhas pelo piso vermelho. Se tivesse levado minha vida assim, nada teria ido para frente. Lavou o prato e as panelas com a mão firme. Foi para a varanda ver a chuva cair. Sentiu cheiro de terra molhada. Se me conhecessem, saberiam que quero ficar exatamente aqui.

Fado

Fado

Estava meio entediada. Fumava mais um cigarro e bebia cerveja, observando a tudo e a todos. Gostava de ficar assim: vendo as pessoas passarem, cumprimentando um e outro, dando pequenas risadas. Em meio a essa distração, Arthur chegou com um sorriso meio preso nos lábios: “posso conversar com você?” Victoria não sabia se era a música alta ou o fato de ele não ter articulado muito bem as palavras o que não a fez ouvir direito. “Posso conversar com você?” Percebeu que o que não a fez entender foi o despropósito da pergunta: estava ali exatamente para conversar. Com ela não tinha dessa: “pode, diz aí”. Ele hesitou, continuou com aquele sorriso preso. Ela intuiu que o papo seria chato. “Vamos lá fora?” Victoria ficou curiosa com ele querer conversar como nas novelas. “Vamos sim.”

Já se conheciam, vira e mexe se falavam. Faziam cursos diferentes, ela jornalismo e ele economia. Arthur gostava de falar por metáforas e ela até curtia. Mas os papos não eram longos, talvez os dois fossem ansiosos demais para estender uma conversa. Caminharam em silêncio. Sentiam-se impedidos de dizer qualquer coisa ao acaso. Não dava para saber se os chuviscos da rua molhavam mais que os pingos que caíam da árvore embaixo da qual pararam. Um de frente para o outro e aquele sorriso continuava ali: “eu te amo”. Victoria se defendeu com uma risada: “Acho que não Arthur, que ideia!” Ele dizia e repetia o que ela nunca havia ouvido: o tal eu te amo. “Era isso que queria te dizer, que te amo”. A única saída que ela tinha era negar, “não Arthur, você não me ama”. E se fosse só uma brincadeira? Aquele sorriso lhe parecia sarcasmo. Melhor não acreditar.

Um carro ou outro passava pela rua e os faróis iluminavam a chuva fina e o asfalto molhado. Victoria começou a ver romantismo aqui e ali: viu os olhos dele brilharem, notou que ele ficou mais bonito e se sentiu mais bonita também. A festa se tornou um resquício. Esperava pelo beijo. Mas ele não a tocava. “Lembra daquela festa em que você beijou o Marcelo?” Ela nunca foi boa com nomes. “Fui embora e fiquei louco”. Victoria não se lembrava que festa era essa. “Naquele dia em que tomamos um café? Fiquei pensando no que você me disse”. Ele colecionava momentos dela. “Eu te amo”. Parecia conhecer seus sentimentos, os sujos e os nobres. Parecia acompanhá-la, conhecer seus passos, suas frustrações e sonhos.

Talvez um dos sonhos dela fosse ouvir eu te amo embaixo de uma árvore, na chuva. Só que ela não retribuiria, nem sequer conhecia esse script, nunca havia dito eu te amo. “Você nasceu para ser amada”. Ele mexia com os sentimentos mais complexos dela. “Você é a pessoa mais linda que já conheci”. Num certo momento, nada mais saía da boca de Victoria. A única coisa que ela conseguiria fazer seria beijá-lo. Foi o que fez. Agora era ele quem parecia não conhecer o roteiro: mal abria a boca. Victoria não entendia como aquilo tudo não poderia acabar num beijo descomunal. Pensou que aquele sorriso era nervoso – as mãos dele estavam frias e o toque trêmulo. Mas a essa altura, queria continuar ao lado dele.

Nada como um amor complicado. Arthur que o diga: “não se apaixone por mim”. Victoria percebeu que qualquer coisa que fizesse demonstraria que acreditava nele – se arrependeu do beijo. Encontrou somente uma saída: “vamos embora”. Foram caminhando na chuva fina, o que tornava a noite sensível. “Você já sabe que sou um cara estranho”. Ela realmente sabia, essa era a fama dele. “Tenho um carma”. Ela riu, sabia que ele começaria a falar com as metáforas de sempre. Tentou abraçá-lo. Foi desajeitado novamente. Ela precisava de um gesto para não explodir em pensamentos. Ele parecia treinado para as ideias, articulava-as como um mestre. Sentaram-se na mureta baixa de um bar fechado, protegendo-se da chuva embaixo de um pequeno toldo. Foi quando puderam se tocar como namorados. Sentados lado a lado, ele a abraçou com um dos braços e ela apoiou-se em seu peito.

Ela acreditou que poderiam ser namorados, ele sabia que isso jamais aconteceria. Victoria não sabia nada sobre ele, tinha ouvido dizer que era de uma família muito rica e que não tinha pai ou mãe. Ele disse baixo “Se eu não tivesse uma cidade para salvar…” Resolveu entrar na dele: “podia me salvar primeiro, antes da cidade inteira”. Ele pegou em seu rosto com as duas mãos: “estarei sempre ali, quando precisar”. Victoria mais uma vez quis beijá-lo. Dessa vez não ousou no gesto, mas nas palavras: “queria ser sua namorada”. Ainda segurando em seu rosto: “não queira, meu amor nunca acaba bem”.

Num movimento rápido a levou ao chão e se sentou sobre seu quadril com as pernas abertas. Suas mãos grandes seguraram com força os braços dela. Assim ele a beijou enquanto ela virava o rosto de um lado para outro. Arthur pedia desculpas baixo em seu ouvido. Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Não faça isso, não chore Victoria”. Tarde demais, as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Ela queria falar, mas o movimento da respiração não deixava. Emitia gemidos finos. Arthur enxugou suas lágrimas com o próprio rosto. Mantinha as mãos firmes nos braços dela. Disse que a amava pediu desculpas mais vezes. “Meu coração está partido”. Ela pressentiu que não sairia mais do meio daquelas pernas e experimentou o descontrole de seus sinais vitais. “Não posso ser um homem na sua vida”. Suas mãos foram para o pescoço de Victoria e ali ficaram até que ela parasse de se debater.

Soul

Soul

Sou o casal que transa discretamente no sofá da sala. Sem estardalhaços, sem a pirotecnia sexual vendida por aí, um chocolate que derrete silenciosamente na boca.

Sou os corpos suados que se movimentam, o cheiro inconfundível da pele, a respiração de um no ouvido do outro. Até penso que o sofá não é meu, que o apartamento não é meu e que o casal não sou eu. Os sonhos são assim. Parece que aquela cena não tem nada a ver comigo e que fui parar ali por acaso. Tento sair antes que eles me vejam, mas quanto mais tento me retirar, mais me entranho no apartamento. Vou para a cozinha, para o corredor, vejo as portas dos quartos. Deve ter criança dormindo.

Sou dois corpos, de tão juntos, de tão ritmados, um. É um apartamento legal, desses de adulto. Antes de ver o casal, eu estava numa quitinete, num hotel barato que literalmente caía aos pedaços. Até que os vi por uma fresta e fui parar ali com eles. Desconfiei que o homem tivesse me visto. Escondi-me atrás da parede. Não queria atrapalhar aquela intimidade.

Sou a mulher e sou o homem. Eu precisava ter peito e precisava ter pinto. O chão era de madeira e o ar era leve. Senti-me segura. Como se ali eu pudesse me recuperar dos assombros do hotel que desabava. Aquele labirinto de pequenos apartamentos, em que eu me perdia, procurando por afeto, mas onde a única coisa que encontrava era um fluxo insuportável de emoções líquidas e energias caóticas que passava por mim de tempos em tempos. Como uma onda que se agigantasse na minha frente e estourasse dentro de mim. Agora, eu não procurava mais.

Sou aquele sexo tranquilo. Sou os tamanhos que aumentam, os líquidos que escorrem. Nada me vem de fora. Uma das portas do corredor estava entreaberta, era a do quarto do casal. A cama era grande, alta como a de um hotel cinco estrelas. Dois abajures elegantes e azuis estavam acesos num jogo de luz afetuoso. Havia seis travesseiros. Fiquei com vontade de sentir todos ao mesmo tempo.

Sou o peito na boca. A respiração suspensa que volta e murmura prazer. Vi a camisola azul com flores vermelhas estendida na cama. Tirei a roupa que me humilhava. Fui para o banheiro do quarto com o cabelo preso num coque alto. Ali tinha uma vela cheirando macio. Arrisquei-me e entrei no chuveiro. O toque forte da água em meu ombro levou qualquer resquício de medo. Depois, me senti valiosa com a camisola da moça.

Sou o gozo discreto. Sou o casal que transa sem acordar as crianças. Sentei na cama e meus pés saíram do chão. Fui sugada pelo edredom reconfortante. Apaguei, como nunca.

Coisa Nenhuma

Coisa Nenhuma

Hoje vi uma mocinha passeando com o cachorro na rua. Estava milimetricamente desencanadamente vestida – elas gostam de estar lindas sem parecer ter tido trabalho para isso. Fazia pose, parecia perseguida por algum paparazzi. Vi a moça por poucos segundos e pensei: ela pressente que algo muito grande acontecerá com ela – e a qualquer momento. Ri em deboche. Censurei-me: “Talvez não, talvez ela viva a grande aventura que espera”. O celular tocou. Vi que era o Arthur, mas resolvi não atender dirigindo. Logo veio a mensagem: “Você pode buscar o Pedro? Tenho uma reunião às 11h”. Isso só podia ser um sinal de que a grande aventura não existe. No semáforo escrevi: “Ok, mas hoje ele dorme com você, tenho compromisso”. Só que não tenho.

Não sei o que vou fazer: talvez um vinho, ouvir um jazz, pensar na vida. Meia hora fazendo isso seria o suficiente. E depois? Posso me angustiar e demorar a dormir. Nem pensar. Preciso de alguém hoje. Minhas amigas e amigos são dele também. Não dá, não estou a fim de falar da separação. Droga, vim parar nessa cidade por causa dele. Estacionei. Procurei um batom na bolsa. Peguei o vermelho esquecido em algum bolsinho. Não se pode conseguir nada com um batom nude. Desci do carro como se algum paparazzi estivesse por ali. Parece que esse moço bonito está olhando para mim: “Bom dia, senhora”. Também, 43 anos, já era hora de ter colocado um Botox. Suspirei. Não me abati até agora e já são 8:30h da manhã. Hoje não vou chorar. Hoje farei alguma coisa.

Se nada der certo, irei ao cinema, verei um filme sobre alguém que vive uma grande aventura. Aí dormirei tranquila e cheia de esperança besta. Ou, como última opção, vou ler um livro e dormir sem esperança nenhuma. Talvez seja melhor ficar com o Pedro. Não, o Pedro hoje não. Arthur folgado! Lógico que ele estaria com alguém dez anos mais nova que eu e, naturalmente, dez anos mais bonita. Mas não vou entrar nessa, essa fase já foi. Já foi. Vida que segue. Logo ele cansa dela. Aposto! Tão nova! Não importa! Tô bem linda com 43, só falta o Botox. E se eu entrasse num site de encontros? Agora, no trabalho, não dá. Imagina! Como última alternativa, à noite entrarei num site de encontros. Aí já não estarei sozinha. Já não terei que falar em separação. Posso viver uma aventura. Mas não posso deixar rastros no computador, vai que o Pedro vê. O computador é mais dele que meu. Complicou.

O que é meu, afinal? O que é mais meu que de qualquer um? Nem posso ter um cachorro. Odeio cachorro.  Do que eu gosto? Caminhada? Isso, fazer uma caminhada! Coisa de velha. Sempre achei a frase “fazer uma caminhada” coisa de velha. Mas o fim de tarde é lindo nessa cidade. Farei uma caminhada. Quem sabe eu venha a gostar. Quem sabe a caminhada se transforme num encontro interessante ou numa grande aventura. Que ideia, eu mesma não desisti. Grande aventura, coisa nenhuma. Só quero fazer algo que eu goste, com alguém que eu queira encontrar. Esse alguém não existe. Como posso estar sem uma amiga? Como isso aconteceu? Casamento dá nisso? Filhos? Será? E se eu fechar os olhos e imaginar o que eu quero fazer hoje: não sei.

Fiquei parada na frente do computador. Senti uma coisa estranha na hora de respirar, como uma leve falta de ar. Tentei respirar calmamente. Achei estranho. Pensei em levantar para pegar uma água. Não consegui. O coração disparou. Voltou ao normal. Disparou de novo. Respirei. Abri o Google. O mundo está a minha frente e não sei o que procurar. Atualizei a página. Não há conexão com a internet. Não há conexão.

Não consegui procurar nada. Não consigo fazer nada. Melhor ficar com meu filho, que me dá o que fazer. Mas não quero. Vou ligar para minha mãe. Isso pode ser bom, mas não quero desapontá-la, não quero ouvi-la falar sobre minha separação. Não quero! O que posso fazer sem ninguém? Vontade de ir para a cama chorar. Mas hoje eu não quero nem isso. São 9h da manhã. Hoje eu só queria alguém que me dissesse o que fazer.

Escape

Escape

Morgana se olhou no espelho. Ajeitou alguns fios de cabelo para que ficassem uniformemente presos em seu coque baixo. Olhou para a boca avermelhada pelo batom e passou a língua nos lábios, como quem saboreia o resto de uma calda. Depois, passou um tempo mirando seus olhos. Sentiu-se sobrevivente de seus quarenta anos de casada – que seriam comemorados naquela noite. Ulisses estava no primeiro andar do apartamento, bebendo algum uísque que não tinha dinheiro para pagar. Ela deu um último suspiro, olhando para o espelho, e se levantou. Precisava encarar aquela noite.

Foi para a cozinha verificar se estava tudo encaminhado. Queria que a festa corresse normalmente. Serviu-se de uma taça de espumante e deu um gole fechando os olhos. Sentiu, por um momento, o líquido gelado e efervescente em sua boca. Foi para a sala como um lutador que adentra o ringue. Sentou-se numa poltrona de um amarelo suave. Ele estava num banco mais alto, logo atrás. Estavam sem conversar há três dias, ela não sabia o motivo. Morgana já não se descabelava com as oscilações de humor dele.

A voz forte de Ulisses perguntou se a irmã dela e o marido viriam, ela respondeu que sim. “Comunista filho da puta”, ele disse. “Vai começar o desfiladeiro de obscenidades”, pensou Morgana sorvendo mais um gole. “Comunista que bebe uísque e que mama nas tetas do Estado…”. O interfone interrompeu. Era Alice, uma amiga da anfitriã da época da faculdade. Disse baixinho no ouvido de Morgana enquanto a abraçava: “Essa noite eu tinha que ser a primeira”. Morgana deu um sorriso para acalmar a amiga. Abraçaram-se novamente. Ulisses não se levantou, como sempre. Sentaram-se os três e Alice os parabenizou pelos anos de casados: “algo tão raro e difícil nos dias de hoje”. Ulisses retrucou: “Não é tão difícil assim”. Alice não tinha se casado e Ulisses a chamava de “tia” quando ela não estava. “Não é tão difícil com uma mulher como ela”, completou Alice. Ulisses concordou sorrindo. Daí em diante, os convidados começaram a chegar.

Fazia anos que Morgana não suportava os amigos dele. Sempre muito cordial, preferia sorrir a dizer o que realmente pensava sobre os assuntos conversados. Não precisava dissimular por muito tempo, já que as mulheres desses maridos, entre as quais se esperava que ela estivesse, sentavam um pouco afastadas dos homens. Morgana nunca entendeu como não se desenvolvia um assunto ali. Ela se esforçava para sorrir entre as mulheres, mas o tédio quase a impedia.

Ulisses, curiosamente, passava mais tempo com os amigos dela que com os dele. Era com eles que se embebedava e chegava ao fim da festa. Conversavam especialmente sobre política. Ele não xingava ninguém de comunista filho da puta – só para Morgana ele fazia isso – mas falava mais alto e tinha um tom ameaçador ao emitir sua opinião. Morgana sempre procurava abrandar as discussões, servindo algo para comer, tentando inserir outros pequenos assuntos na conversa. Não se metia a discutir política, mas amava ouvir seu cunhado falar. Com sua irmã, nunca faltava assunto e afeto, muito embora ela não fizesse ideia do que se passaria naquela noite.

Morgana conversava com ela quando Ulisses disse alto: “Atenção, atenção! Eu quero dizer algumas palavras sobre o motivo disso tudo: não sou eu, nem nosso casamento, é ela!”. Estendeu a mão na direção de Morgana: “Vem cá!”. Ela não se mexeu, ele repetiu “vem cá!”, agora num tom incisivo que foi amenizado pelos convidados que corroboravam para que ela fosse até o marido. As pernas e o sorriso de Morgana fraquejaram quando ela imaginou que ele soubesse. Foi ele quem caminhou e retirou do bolso uma caixa pequena: “para o grande amor de minha vida”. O medo transformou-se em incredulidade e o sorriso continuou ausente. Achou vulgar ser presenteada em público. Abriu envergonhada a caixa que continha um anel de rubi. “Como ele pagou por isso?” – foi o primeiro pensamento dela. Imediatamente, foi desafiada pelo coro: “Discurso, discurso!”. Ao dar mais um gole em sua bebida, percebeu que estava com a mão trêmula. Tinha que falar alguma coisa, qualquer coisa. Em meio a um branco, enxergou apenas seu marido. Com a joia no dedo, apoiou suavemente a mão no rosto dele, e disse: “Obrigada”. Sorriu. O lábio superior tremeu levemente.

Ele dormiu bêbado, do modo como ela esperava. Dessa vez, ela não vestiu a camisola, nem tirou a maquiagem. Foi para o closet e retirou lá do alto uma mala já pronta. Olhou para ele e não sentiu vontade de ficar. Deixou sobre o criado mudo um bilhete: “Ulisses: um de nós teria que ter coragem. Nos poupo de explicações desnecessárias. Por favor, aguarde que eu contarei aos mais próximos. Morgana”. Abriu a porta do quarto silenciosamente. Foi descendo as escadas com a bolsa no ombro e a mala nas mãos. Ouvia cada respiração e cada barulho de suas passadas. Lembrou-se de seu pai dizendo que era bobagem uma mulher querer viver sozinha. Foi a primeira vez que os olhos se encheram de lágrimas. Pensou no filho, que tantas vezes dissera para ela se separar. Sorriu enquanto chorava. Abriu a porta do apartamento e daí em diante tomou fôlego. Alice a esperava e a deixaria em um hotel. No carro, Morgana observava a noite. Mal ouvia o que sua amiga falava, apenas respirava tranquila com um sorriso na ponta dos lábios.

O Negócio do Parto

O Negócio do Parto

Escrevi sobre a entrega do parto normal mas muito rapidamente me entreguei à cesárea. De um lado a médica, de outro a doula. Em meio à noite, ao líquido escorrendo, às contrações, em meio ao frio, no meio de um “não aguento mais”, de um “vamos resolver logo”, de um medo do desconhecido que seria a espera, em meio à falta de garantias, em meio a isso e mais um pouco, pendi para um lado, precisando muito da força do outro. Pois bem, fui feliz para a cesárea. A doula segurando minha mão, o marido ali presente e… Nosso filho nasceu! Está tudo bem com ele? Sim, está tudo bem! E dra., tudo bem aí embaixo? Aqui? Tudo ótimo! Assim fui para a recuperação me recuperar super bem. Eu estava tão feliz! Feliz inclusive com a cirurgia. Decisão certa. Está tudo bem! Olha como ele é lindo! Que delícia. Mas aí… Me levaram para o quarto. Um quarto quadrado. Fiquei ali dois dias e meio. Sem ver a luz do sol. Mais de 48h no ar condicionado. Depois de 24h virei uma leoa. Presa. Pense. Uma vontade de pegar meu filho e sair por aí! Mostrar para ele o mundo que eu queria mostrar para ele – e que não tinha nada a ver com aquele quarto feio. Mas eu estava ali. Pessoas entrando de 20 em 20 minutos, inclusive durante a noite, para dar remédios (eu não poderia tomá-los em casa?), para dar banho em mim (meu marido faria isso muito bem!), para dar banho no meu filho (não importava se ele estivesse dormindo ou no peito), para fazer testes (não podemos fazer isso depois?), inclusive para tocar um agogô no ouvido dele e dizer que a audição dele está ok. Como assim? Que teste é esse? Ah, e para colocar termômetro no meu sovaco, hahaha, putz. Nada que eu via fazia sentido. E foi aí, somente aí, que entendi porque as pessoas querem parto normal em casa. Antes o problema fosse a cesárea! Mas é um pacote. Um pacote que te persegue até a saída da maternidade. O dia da alta não passava. Conseguimos ser liberados somente depois das 15h, eu finalmente estava pronta para pegá-lo no colo e sair correndo!! Mas não… O protocolo é ele sair dentro de um berço de plástico carregado por uma funcionária. E na porta do elevador ela diz: o quartinho está esperando por ele? Não, quem o espera é a avó e o irmão. Não vale a pena mencionar tudo, o texto ficaria tão enfadonho quanto o quarto. Mas saí de lá compreendendo muito as mulheres que têm seus filhos em casa, e que depois do nascimento se jogam na cama, em família.