Soul

Soul

Sou o casal que transa discretamente no sofá da sala. Sem estardalhaços, sem a pirotecnia sexual vendida por aí, um chocolate que derrete silenciosamente na boca.

Sou os corpos suados que se movimentam, o cheiro inconfundível da pele, a respiração de um no ouvido do outro. Até penso que o sofá não é meu, que o apartamento não é meu e que o casal não sou eu. Os sonhos são assim. Parece que aquela cena não tem nada a ver comigo e que fui parar ali por acaso. Tento sair antes que eles me vejam, mas quanto mais tento me retirar, mais me entranho no apartamento. Vou para a cozinha, para o corredor, vejo as portas dos quartos. Deve ter criança dormindo.

Sou dois corpos, de tão juntos, de tão ritmados, um. É um apartamento legal, desses de adulto. Antes de ver o casal, eu estava numa quitinete, num hotel barato que literalmente caía aos pedaços. Até que os vi por uma fresta e fui parar ali com eles. Desconfiei que o homem tivesse me visto. Escondi-me atrás da parede. Não queria atrapalhar aquela intimidade.

Sou a mulher e sou o homem. Eu precisava ter peito e precisava ter pinto. O chão era de madeira e o ar era leve. Senti-me segura. Como se ali eu pudesse me recuperar dos assombros do hotel que desabava. Aquele labirinto de pequenos apartamentos, em que eu me perdia, procurando por afeto, mas onde a única coisa que encontrava era um fluxo insuportável de emoções líquidas e energias caóticas que passava por mim de tempos em tempos. Como uma onda que se agigantasse na minha frente e estourasse dentro de mim. Agora, eu não procurava mais.

Sou aquele sexo tranquilo. Sou os tamanhos que aumentam, os líquidos que escorrem. Nada me vem de fora. Uma das portas do corredor estava entreaberta, era a do quarto do casal. A cama era grande, alta como a de um hotel cinco estrelas. Dois abajures elegantes e azuis estavam acesos num jogo de luz afetuoso. Havia seis travesseiros. Fiquei com vontade de sentir todos ao mesmo tempo.

Sou o peito na boca. A respiração suspensa que volta e murmura prazer. Vi a camisola azul com flores vermelhas estendida na cama. Tirei a roupa que me humilhava. Fui para o banheiro do quarto com o cabelo preso num coque alto. Ali tinha uma vela cheirando macio. Arrisquei-me e entrei no chuveiro. O toque forte da água em meu ombro levou qualquer resquício de medo. Depois, me senti valiosa com a camisola da moça.

Sou o gozo discreto. Sou o casal que transa sem acordar as crianças. Sentei na cama e meus pés saíram do chão. Fui sugada pelo edredom reconfortante. Apaguei, como nunca.

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Coisa Nenhuma

Coisa Nenhuma

Hoje vi uma mocinha passeando com o cachorro na rua. Estava milimetricamente desencanadamente vestida – elas gostam de estar lindas sem parecer ter tido trabalho para isso. Fazia pose, parecia perseguida por algum paparazzi. Vi a moça por poucos segundos e pensei: ela pressente que algo muito grande acontecerá com ela – e a qualquer momento. Ri em deboche. Censurei-me: “Talvez não, talvez ela viva a grande aventura que espera”. O celular tocou. Vi que era o Arthur, mas resolvi não atender dirigindo. Logo veio a mensagem: “Você pode buscar o Pedro? Tenho uma reunião às 11h”. Isso só podia ser um sinal de que a grande aventura não existe. No semáforo escrevi: “Ok, mas hoje ele dorme com você, tenho compromisso”. Só que não tenho.

Não sei o que vou fazer: talvez um vinho, ouvir um jazz, pensar na vida. Meia hora fazendo isso seria o suficiente. E depois? Posso me angustiar e demorar a dormir. Nem pensar. Preciso de alguém hoje. Minhas amigas e amigos são dele também. Não dá, não estou a fim de falar da separação. Droga, vim parar nessa cidade por causa dele. Estacionei. Procurei um batom na bolsa. Peguei o vermelho esquecido em algum bolsinho. Não se pode conseguir nada com um batom nude. Desci do carro como se algum paparazzi estivesse por ali. Parece que esse moço bonito está olhando para mim: “Bom dia, senhora”. Também, 43 anos, já era hora de ter colocado um Botox. Suspirei. Não me abati até agora e já são 8:30h da manhã. Hoje não vou chorar. Hoje farei alguma coisa.

Se nada der certo, irei ao cinema, verei um filme sobre alguém que vive uma grande aventura. Aí dormirei tranquila e cheia de esperança besta. Ou, como última opção, vou ler um livro e dormir sem esperança nenhuma. Talvez seja melhor ficar com o Pedro. Não, o Pedro hoje não. Arthur folgado! Lógico que ele estaria com alguém dez anos mais nova que eu e, naturalmente, dez anos mais bonita. Mas não vou entrar nessa, essa fase já foi. Já foi. Vida que segue. Logo ele cansa dela. Aposto! Tão nova! Não importa! Tô bem linda com 43, só falta o Botox. E se eu entrasse num site de encontros? Agora, no trabalho, não dá. Imagina! Como última alternativa, à noite entrarei num site de encontros. Aí já não estarei sozinha. Já não terei que falar em separação. Posso viver uma aventura. Mas não posso deixar rastros no computador, vai que o Pedro vê. O computador é mais dele que meu. Complicou.

O que é meu, afinal? O que é mais meu que de qualquer um? Nem posso ter um cachorro. Odeio cachorro.  Do que eu gosto? Caminhada? Isso, fazer uma caminhada! Coisa de velha. Sempre achei a frase “fazer uma caminhada” coisa de velha. Mas o fim de tarde é lindo nessa cidade. Farei uma caminhada. Quem sabe eu venha a gostar. Quem sabe a caminhada se transforme num encontro interessante ou numa grande aventura. Que ideia, eu mesma não desisti. Grande aventura, coisa nenhuma. Só quero fazer algo que eu goste, com alguém que eu queira encontrar. Esse alguém não existe. Como posso estar sem uma amiga? Como isso aconteceu? Casamento dá nisso? Filhos? Será? E se eu fechar os olhos e imaginar o que eu quero fazer hoje: não sei.

Fiquei parada na frente do computador. Senti uma coisa estranha na hora de respirar, como uma leve falta de ar. Tentei respirar calmamente. Achei estranho. Pensei em levantar para pegar uma água. Não consegui. O coração disparou. Voltou ao normal. Disparou de novo. Respirei. Abri o Google. O mundo está a minha frente e não sei o que procurar. Atualizei a página. Não há conexão com a internet. Não há conexão.

Não consegui procurar nada. Não consigo fazer nada. Melhor ficar com meu filho, que me dá o que fazer. Mas não quero. Vou ligar para minha mãe. Isso pode ser bom, mas não quero desapontá-la, não quero ouvi-la falar sobre minha separação. Não quero! O que posso fazer sem ninguém? Vontade de ir para a cama chorar. Mas hoje eu não quero nem isso. São 9h da manhã. Hoje eu só queria alguém que me dissesse o que fazer.

Escape

Escape

Morgana se olhou no espelho. Ajeitou alguns fios de cabelo para que ficassem uniformemente presos em seu coque baixo. Olhou para a boca avermelhada pelo batom e passou a língua nos lábios, como quem saboreia o resto de uma calda. Depois, passou um tempo mirando seus olhos. Sentiu-se sobrevivente de seus quarenta anos de casada – que seriam comemorados naquela noite. Ulisses estava no primeiro andar do apartamento, bebendo algum uísque que não tinha dinheiro para pagar. Ela deu um último suspiro, olhando para o espelho, e se levantou. Precisava encarar aquela noite.

Foi para a cozinha verificar se estava tudo encaminhado. Queria que a festa corresse normalmente. Serviu-se de uma taça de espumante e deu um gole fechando os olhos. Sentiu, por um momento, o líquido gelado e efervescente em sua boca. Foi para a sala como um lutador que adentra o ringue. Sentou-se numa poltrona de um amarelo suave. Ele estava num banco mais alto, logo atrás. Estavam sem conversar há três dias, ela não sabia o motivo. Morgana já não se descabelava com as oscilações de humor dele.

A voz forte de Ulisses perguntou se a irmã dela e o marido viriam, ela respondeu que sim. “Comunista filho da puta”, ele disse. “Vai começar o desfiladeiro de obscenidades”, pensou Morgana sorvendo mais um gole. “Comunista que bebe uísque e que mama nas tetas do Estado…”. O interfone interrompeu. Era Alice, uma amiga da anfitriã da época da faculdade. Disse baixinho no ouvido de Morgana enquanto a abraçava: “Essa noite eu tinha que ser a primeira”. Morgana deu um sorriso para acalmar a amiga. Abraçaram-se novamente. Ulisses não se levantou, como sempre. Sentaram-se os três e Alice os parabenizou pelos anos de casados: “algo tão raro e difícil nos dias de hoje”. Ulisses retrucou: “Não é tão difícil assim”. Alice não tinha se casado e Ulisses a chamava de “tia” quando ela não estava. “Não é tão difícil com uma mulher como ela”, completou Alice. Ulisses concordou sorrindo. Daí em diante, os convidados começaram a chegar.

Fazia anos que Morgana não suportava os amigos dele. Sempre muito cordial, preferia sorrir a dizer o que realmente pensava sobre os assuntos conversados. Não precisava dissimular por muito tempo, já que as mulheres desses maridos, entre as quais se esperava que ela estivesse, sentavam um pouco afastadas dos homens. Morgana nunca entendeu como não se desenvolvia um assunto ali. Ela se esforçava para sorrir entre as mulheres, mas o tédio quase a impedia.

Ulisses, curiosamente, passava mais tempo com os amigos dela que com os dele. Era com eles que se embebedava e chegava ao fim da festa. Conversavam especialmente sobre política. Ele não xingava ninguém de comunista filho da puta – só para Morgana ele fazia isso – mas falava mais alto e tinha um tom ameaçador ao emitir sua opinião. Morgana sempre procurava abrandar as discussões, servindo algo para comer, tentando inserir outros pequenos assuntos na conversa. Não se metia a discutir política, mas amava ouvir seu cunhado falar. Com sua irmã, nunca faltava assunto e afeto, muito embora ela não fizesse ideia do que se passaria naquela noite.

Morgana conversava com ela quando Ulisses disse alto: “Atenção, atenção! Eu quero dizer algumas palavras sobre o motivo disso tudo: não sou eu, nem nosso casamento, é ela!”. Estendeu a mão na direção de Morgana: “Vem cá!”. Ela não se mexeu, ele repetiu “vem cá!”, agora num tom incisivo que foi amenizado pelos convidados que corroboravam para que ela fosse até o marido. As pernas e o sorriso de Morgana fraquejaram quando ela imaginou que ele soubesse. Foi ele quem caminhou e retirou do bolso uma caixa pequena: “para o grande amor de minha vida”. O medo transformou-se em incredulidade e o sorriso continuou ausente. Achou vulgar ser presenteada em público. Abriu envergonhada a caixa que continha um anel de rubi. “Como ele pagou por isso?” – foi o primeiro pensamento dela. Imediatamente, foi desafiada pelo coro: “Discurso, discurso!”. Ao dar mais um gole em sua bebida, percebeu que estava com a mão trêmula. Tinha que falar alguma coisa, qualquer coisa. Em meio a um branco, enxergou apenas seu marido. Com a joia no dedo, apoiou suavemente a mão no rosto dele, e disse: “Obrigada”. Sorriu. O lábio superior tremeu levemente.

Ele dormiu bêbado, do modo como ela esperava. Dessa vez, ela não vestiu a camisola, nem tirou a maquiagem. Foi para o closet e retirou lá do alto uma mala já pronta. Olhou para ele e não sentiu vontade de ficar. Deixou sobre o criado mudo um bilhete: “Ulisses: um de nós teria que ter coragem. Nos poupo de explicações desnecessárias. Por favor, aguarde que eu contarei aos mais próximos. Morgana”. Abriu a porta do quarto silenciosamente. Foi descendo as escadas com a bolsa no ombro e a mala nas mãos. Ouvia cada respiração e cada barulho de suas passadas. Lembrou-se de seu pai dizendo que era bobagem uma mulher querer viver sozinha. Foi a primeira vez que os olhos se encheram de lágrimas. Pensou no filho, que tantas vezes dissera para ela se separar. Sorriu enquanto chorava. Abriu a porta do apartamento e daí em diante tomou fôlego. Alice a esperava e a deixaria em um hotel. No carro, Morgana observava a noite. Mal ouvia o que sua amiga falava, apenas respirava tranquila com um sorriso na ponta dos lábios.

O Negócio do Parto

O Negócio do Parto

Escrevi sobre a entrega do parto normal mas muito rapidamente me entreguei à cesárea. De um lado a médica, de outro a doula. Em meio à noite, ao líquido escorrendo, às contrações, em meio ao frio, no meio de um “não aguento mais”, de um “vamos resolver logo”, de um medo do desconhecido que seria a espera, em meio à falta de garantias, em meio a isso e mais um pouco, pendi para um lado, precisando muito da força do outro. Pois bem, fui feliz para a cesárea. A doula segurando minha mão, o marido ali presente e… Nosso filho nasceu! Está tudo bem com ele? Sim, está tudo bem! E dra., tudo bem aí embaixo? Aqui? Tudo ótimo! Assim fui para a recuperação me recuperar super bem. Eu estava tão feliz! Feliz inclusive com a cirurgia. Decisão certa. Está tudo bem! Olha como ele é lindo! Que delícia. Mas aí… Me levaram para o quarto. Um quarto quadrado. Fiquei ali dois dias e meio. Sem ver a luz do sol. Mais de 48h no ar condicionado. Depois de 24h virei uma leoa. Presa. Pense. Uma vontade de pegar meu filho e sair por aí! Mostrar para ele o mundo que eu queria mostrar para ele – e que não tinha nada a ver com aquele quarto feio. Mas eu estava ali. Pessoas entrando de 20 em 20 minutos, inclusive durante a noite, para dar remédios (eu não poderia tomá-los em casa?), para dar banho em mim (meu marido faria isso muito bem!), para dar banho no meu filho (não importava se ele estivesse dormindo ou no peito), para fazer testes (não podemos fazer isso depois?), inclusive para tocar um agogô no ouvido dele e dizer que a audição dele está ok. Como assim? Que teste é esse? Ah, e para colocar termômetro no meu sovaco, hahaha, putz. Nada que eu via fazia sentido. E foi aí, somente aí, que entendi porque as pessoas querem parto normal em casa. Antes o problema fosse a cesárea! Mas é um pacote. Um pacote que te persegue até a saída da maternidade. O dia da alta não passava. Conseguimos ser liberados somente depois das 15h, eu finalmente estava pronta para pegá-lo no colo e sair correndo!! Mas não… O protocolo é ele sair dentro de um berço de plástico carregado por uma funcionária. E na porta do elevador ela diz: o quartinho está esperando por ele? Não, quem o espera é a avó e o irmão. Não vale a pena mencionar tudo, o texto ficaria tão enfadonho quanto o quarto. Mas saí de lá compreendendo muito as mulheres que têm seus filhos em casa, e que depois do nascimento se jogam na cama, em família.

O amor

O amor

O amor. Falo daquele que é bem concreto. Não daquele que a gente sente pelos passarinhos, pelo céu azul e por toda a humanidade. Mas daquele que a gente constrói com uma pessoa. Que podem ser duas, que podem ser mais. Aquele amor que dá para beijar, apertar e cheirar. Dá para olhar para ele e se emocionar – não tem coisa mais linda nesse mundo. Um amor assim só acontece quando a gente está leve – ah sim, temos que nos desvencilhar de um monte de coisa, o amor não suporta caraminholas. Ele é essencialmente descomplicado. Tá, tudo lindo, lindo mesmo, mas o que eu achei difícil nessa coisa de amar? Primeiro tive que aprender muito. Acho mesmo que a gente não nasce sabendo amar ou, se nasce, a coisa pode complicar, e a gente tem que descomplicar tudo de novo. Somente isso já é um baita percurso, muito individual e árduo. A gente aprende sozinho, curioso isso, não? Bom, aí a pessoa descomplicou, e é capaz de amar. Aí ela junta com outra – que podem ser duas, que podem ser mais – que também já sabe amar, que está preparada para a aventura mais tranquila do mundo. Sim, no começo aquilo tudo: frios e arrepios. Mas depois a vida se aquieta, inevitável. E aí vem a segunda parte difícil, que não é exatamente a falta da adrenalina e da tensão, esses vícios já cessaram. Mas o amor, o amor tem um senso de realidade muito grande. O fato de não viver em tensão e adrenalina coloca os pés da gente no chão, e aí, aí vem aprender a viver. A gente se humaniza no amor. Aprende a viver sabendo que vai morrer. Ama querendo viver. E ele te dá tudo: espaço, tempo, calma, apoio e tranquilidade para uma nova construção de prioridades, vontades e desejos. Aquele lugar que você amorosamente escolheu para viver te acolhe de um jeito e te fala, vai lá, viver de verdade! Aqui está seguro. Aí é se jogar e se multiplicar! Experimentar e arriscar. Se descobrir. Tem noção da maravilha que é isso? É o amor.