Alheia

Alheia

Pensava no que fazer da vida. Cada vez que pensava, ouvia uma voz que não era a sua. Era da sua mãe, da sua irmã mais velha, da sua melhor amiga. Aquele monte de vozes em sua cabeça a estavam deixando louca. Sua vontade era ficar surda. Mas duvidou que adiantasse. Já tinha feito o que todo mundo queria. Até o que a vizinha queria ela já tinha feito. Aliás, seu problema não era a falta do fazer. Fazia coisas até demais. “O que faço agora?” Se perguntava dia e noite. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê.

Desejava mais tranquilidade. Até mesmo o êxtase estava perdendo a graça. Esperava algo mais aconchegante. Queria ser amada, amada sem igual. Enquanto isso não acontecia, bem daquele jeito que ela queria, deleitava-se com o deleite dos outros. Entretinha a todos e a si mesma com sua performance: só assim aquele buraco poderia ser disfarçado. Seguia linda, cantando, caminhando, sorrindo e sofrendo.

Tinha o dom de sofrer e rir ao mesmo tempo. Não que o riso tamponasse a tristeza. Ria porque conseguia se enxergar como quem assiste a um filme, às vezes é meio trash, às vezes meio tragicômico. Aí ela ria. Depois chorava. Pronto: ia procurar sua mãe, sua irmã ou sua melhor amiga. Ouvia todas as verdades que não eram dela. Pensava que tinham a vida tão certinha, que só poderiam ter as coisas certas para dizer. E se agarrava naquilo como algo que pudesse tirá-la daquela vida que não era bem dela.

Até que um dia parou. Ficou embaixo da coberta. Ligou a televisão. Ficou ali, pensando, pensando sozinha… Decidiu não fazer nada até saber o que realmente queria. Ficaria ali até entender a falta de sentido. Ficou hipnotizada pelo vazio. Meditou, mas de nada adiantou. Resolveu tomar um banho, já estava meio entediada. Vestiu um casaco amarelo: “ninguém fica triste num casaco desses”. Sabia que conseguiria ser linda naquela noite. Quem sabe alguém até lhe diria isso? Era tudo o que precisava.

Mas, bem no meio do caminho, escorregou e caiu num mar de lama. Quanto mais tentava sair, mais afundava. Pensou que ia se afogar, descia e voltava à superfície. O casaco amarelo não brilhava mais. Debatia-se e respirava apressada. Gritava afônica, desarmônica. Não estava sozinha. Estendiam-lhe a mão, mas tudo estava liso, escorregadio, incerto. Seus olhos diziam “me ajuda, o que eu faço?”. Os ouvidos tentavam entender o que gritavam para ela.

Foi no meio daquele lodo que passou a não se reconhecer mais. Não via sua pele nem suas mãos, suas unhas não se agarravam a mais nada. Estava finalmente surda! Foi quando começou a notar o ritmo do seu corpo. De tanto se concentrar em si, começou a sentir o tônus de seus músculos. Todo movimento era novo: o passo de suas pernas e a energia de seus braços. Sentiu a si mesma como nunca! Teve certeza de que sairia dali, apenas precisaria se movimentar mais, um pouco mais, um pouco mais.

Até que olhou aquelas pessoas e não quis mais ajuda, não quis mais entender o que diziam. Sentia-se forte. Ficou naquele movimento até que começou a se deslocar. Hora que viu, estava andando entre as pessoas. Não quis saber se estava linda, se havia lama embaixo de suas unhas, se o casaco brilhava, se estavam olhando e pensando o quê. Quis apenas caminhar sentindo paz, um sabor novo em seus passos, um frescor de quem está apenas começando a viver.

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Fado

Fado

Estava meio entediada. Fumava mais um cigarro e bebia cerveja, observando a tudo e a todos. Gostava de ficar assim: vendo as pessoas passarem, cumprimentando um e outro, dando pequenas risadas. Em meio a essa distração, Arthur chegou com um sorriso meio preso nos lábios: “posso conversar com você?” Victoria não sabia se era a música alta ou o fato de ele não ter articulado muito bem as palavras o que não a fez ouvir direito. “Posso conversar com você?” Percebeu que o que não a fez entender foi o despropósito da pergunta: estava ali exatamente para conversar. Com ela não tinha dessa: “pode, diz aí”. Ele hesitou, continuou com aquele sorriso preso. Ela intuiu que o papo seria chato. “Vamos lá fora?” Victoria ficou curiosa com ele querer conversar como nas novelas. “Vamos sim.”

Já se conheciam, vira e mexe se falavam. Faziam cursos diferentes, ela jornalismo e ele economia. Arthur gostava de falar por metáforas e ela até curtia. Mas os papos não eram longos, talvez os dois fossem ansiosos demais para estender uma conversa. Caminharam em silêncio. Sentiam-se impedidos de dizer qualquer coisa ao acaso. Não dava para saber se os chuviscos da rua molhavam mais que os pingos que caíam da árvore embaixo da qual pararam. Um de frente para o outro e aquele sorriso continuava ali: “eu te amo”. Victoria se defendeu com uma risada: “Acho que não Arthur, que ideia!” Ele dizia e repetia o que ela nunca havia ouvido: o tal eu te amo. “Era isso que queria te dizer, que te amo”. A única saída que ela tinha era negar, “não Arthur, você não me ama”. E se fosse só uma brincadeira? Aquele sorriso lhe parecia sarcasmo. Melhor não acreditar.

Um carro ou outro passava pela rua e os faróis iluminavam a chuva fina e o asfalto molhado. Victoria começou a ver romantismo aqui e ali: viu os olhos dele brilharem, notou que ele ficou mais bonito e se sentiu mais bonita também. A festa se tornou um resquício. Esperava pelo beijo. Mas ele não a tocava. “Lembra daquela festa em que você beijou o Marcelo?” Ela nunca foi boa com nomes. “Fui embora e fiquei louco”. Victoria não se lembrava que festa era essa. “Naquele dia em que tomamos um café? Fiquei pensando no que você me disse”. Ele colecionava momentos dela. “Eu te amo”. Parecia conhecer seus sentimentos, os sujos e os nobres. Parecia acompanhá-la, conhecer seus passos, suas frustrações e sonhos.

Talvez um dos sonhos dela fosse ouvir eu te amo embaixo de uma árvore, na chuva. Só que ela não retribuiria, nem sequer conhecia esse script, nunca havia dito eu te amo. “Você nasceu para ser amada”. Ele mexia com os sentimentos mais complexos dela. “Você é a pessoa mais linda que já conheci”. Num certo momento, nada mais saía da boca de Victoria. A única coisa que ela conseguiria fazer seria beijá-lo. Foi o que fez. Agora era ele quem parecia não conhecer o roteiro: mal abria a boca. Victoria não entendia como aquilo tudo não poderia acabar num beijo descomunal. Pensou que aquele sorriso era nervoso – as mãos dele estavam frias e o toque trêmulo. Mas a essa altura, queria continuar ao lado dele.

Nada como um amor complicado. Arthur que o diga: “não se apaixone por mim”. Victoria percebeu que qualquer coisa que fizesse demonstraria que acreditava nele – se arrependeu do beijo. Encontrou somente uma saída: “vamos embora”. Foram caminhando na chuva fina, o que tornava a noite sensível. “Você já sabe que sou um cara estranho”. Ela realmente sabia, essa era a fama dele. “Tenho um carma”. Ela riu, sabia que ele começaria a falar com as metáforas de sempre. Tentou abraçá-lo. Foi desajeitado novamente. Ela precisava de um gesto para não explodir em pensamentos. Ele parecia treinado para as ideias, articulava-as como um mestre. Sentaram-se na mureta baixa de um bar fechado, protegendo-se da chuva embaixo de um pequeno toldo. Foi quando puderam se tocar como namorados. Sentados lado a lado, ele a abraçou com um dos braços e ela apoiou-se em seu peito.

Ela acreditou que poderiam ser namorados, ele sabia que isso jamais aconteceria. Victoria não sabia nada sobre ele, tinha ouvido dizer que era de uma família muito rica e que não tinha pai ou mãe. Ele disse baixo “Se eu não tivesse uma cidade para salvar…” Resolveu entrar na dele: “podia me salvar primeiro, antes da cidade inteira”. Ele pegou em seu rosto com as duas mãos: “estarei sempre ali, quando precisar”. Victoria mais uma vez quis beijá-lo. Dessa vez não ousou no gesto, mas nas palavras: “queria ser sua namorada”. Ainda segurando em seu rosto: “não queira, meu amor nunca acaba bem”.

Num movimento rápido a levou ao chão e se sentou sobre seu quadril com as pernas abertas. Suas mãos grandes seguraram com força os braços dela. Assim ele a beijou enquanto ela virava o rosto de um lado para outro. Arthur pedia desculpas baixo em seu ouvido. Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Não faça isso, não chore Victoria”. Tarde demais, as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Ela queria falar, mas o movimento da respiração não deixava. Emitia gemidos finos. Arthur enxugou suas lágrimas com o próprio rosto. Mantinha as mãos firmes nos braços dela. Disse que a amava pediu desculpas mais vezes. “Meu coração está partido”. Ela pressentiu que não sairia mais do meio daquelas pernas e experimentou o descontrole de seus sinais vitais. “Não posso ser um homem na sua vida”. Suas mãos foram para o pescoço de Victoria e ali ficaram até que ela parasse de se debater.

Coisa de Rua

Coisa de Rua

Ela queria me matar. Mas por que diabos? Eu tinha ficado com o carinha dela numa festa. Mas nem sabia que o carinha era dela. E lá precisa querer matar alguém por causa disso? Eu estava meio bêbada quando nos beijamos sentados no chão, encostados em um muro. E a gente até riu, porque aquele beijo nem tinha tanto a ver com a gente. Foi quase uma brincadeira. Nem demos o segundo beijo. Acho. Até que ele beija bem, quem diria! Tão brincalhão que era, nem parecia um cara que beijava bem. Daí, por causa disso, querer me matar? Toma o carinha de volta.

Nem sabia que ela era a fim dele. Vai ver era um amor secreto. Desses que a pessoa não fala: “ele é meu”. Se bem que ela nunca foi de alimentar amor platônico… Sempre foi de deixar a vida correr em seu fluxo mais natural. Quer me matar mesmo? Ela acha que todos os beijos do mundo são dela. Mas eu também quero. Ainda mais um beijo gostoso desses. Com esse sorrisão lindo que ele tem. Fiquei sabendo da ameaça pelo boato que corre na rua. Por essas coisas de bairro. Tem coisa que é de bairro. De rua. Coisa boa essa coisa de rua.

Tudo acontece na rua, de beijo à ameaça de morte. Aí ela estava sentada numa escada de cimento, à noite, loira e ameaçadora com as amigas em volta. Nem veio falar comigo. Mandou recado. Nunca acreditei em recado. Eu ia ficar por ali. Não ia me trancar em casa e deixar de viver o que só poderia ser vivido naquela noite de sexta-feira. Ela não veio. Ficou naquela. Se bobear beijo de novo. Vai ver, nem é verdade essa história. Deve ser outra que tá a fim dele. Mas como vou adivinhar? Se ninguém vier falar comigo, fico com ele de novo. Acho que ele vai querer. Alguém veio me falar: “ela tá a fim dele”. Fui lá então, falar com ela. Tava chorando. Droga. Ficou magoada com o beijo. “Foi mal, eu não sabia”. “Sabia sim, lembra daquele dia, eu falei, todo mundo sabe”. Enxugando as lágrimas. Putz, não lembrava mesmo. Por que diabos eu fui perguntar? Agora não posso mais ficar com ele. Vão dizer que sou traíra. Quem sabe escondido. Ah, deixa pra lá. Ele nem é tudo isso. Só se ele quiser muito e se a gente for mega cúmplices e fizer tudo escondido. Acho que não vai rolar. Ai que saco! Tinha que chorar? Ok, vamos beber mais uma e ver o que rola. A gente nem é tão amiga assim.

Coisa Nenhuma

Coisa Nenhuma

Hoje vi uma mocinha passeando com o cachorro na rua. Estava milimetricamente desencanadamente vestida – elas gostam de estar lindas sem parecer ter tido trabalho para isso. Fazia pose, parecia perseguida por algum paparazzi. Vi a moça por poucos segundos e pensei: ela pressente que algo muito grande acontecerá com ela – e a qualquer momento. Ri em deboche. Censurei-me: “Talvez não, talvez ela viva a grande aventura que espera”. O celular tocou. Vi que era o Arthur, mas resolvi não atender dirigindo. Logo veio a mensagem: “Você pode buscar o Pedro? Tenho uma reunião às 11h”. Isso só podia ser um sinal de que a grande aventura não existe. No semáforo escrevi: “Ok, mas hoje ele dorme com você, tenho compromisso”. Só que não tenho.

Não sei o que vou fazer: talvez um vinho, ouvir um jazz, pensar na vida. Meia hora fazendo isso seria o suficiente. E depois? Posso me angustiar e demorar a dormir. Nem pensar. Preciso de alguém hoje. Minhas amigas e amigos são dele também. Não dá, não estou a fim de falar da separação. Droga, vim parar nessa cidade por causa dele. Estacionei. Procurei um batom na bolsa. Peguei o vermelho esquecido em algum bolsinho. Não se pode conseguir nada com um batom nude. Desci do carro como se algum paparazzi estivesse por ali. Parece que esse moço bonito está olhando para mim: “Bom dia, senhora”. Também, 43 anos, já era hora de ter colocado um Botox. Suspirei. Não me abati até agora e já são 8:30h da manhã. Hoje não vou chorar. Hoje farei alguma coisa.

Se nada der certo, irei ao cinema, verei um filme sobre alguém que vive uma grande aventura. Aí dormirei tranquila e cheia de esperança besta. Ou, como última opção, vou ler um livro e dormir sem esperança nenhuma. Talvez seja melhor ficar com o Pedro. Não, o Pedro hoje não. Arthur folgado! Lógico que ele estaria com alguém dez anos mais nova que eu e, naturalmente, dez anos mais bonita. Mas não vou entrar nessa, essa fase já foi. Já foi. Vida que segue. Logo ele cansa dela. Aposto! Tão nova! Não importa! Tô bem linda com 43, só falta o Botox. E se eu entrasse num site de encontros? Agora, no trabalho, não dá. Imagina! Como última alternativa, à noite entrarei num site de encontros. Aí já não estarei sozinha. Já não terei que falar em separação. Posso viver uma aventura. Mas não posso deixar rastros no computador, vai que o Pedro vê. O computador é mais dele que meu. Complicou.

O que é meu, afinal? O que é mais meu que de qualquer um? Nem posso ter um cachorro. Odeio cachorro.  Do que eu gosto? Caminhada? Isso, fazer uma caminhada! Coisa de velha. Sempre achei a frase “fazer uma caminhada” coisa de velha. Mas o fim de tarde é lindo nessa cidade. Farei uma caminhada. Quem sabe eu venha a gostar. Quem sabe a caminhada se transforme num encontro interessante ou numa grande aventura. Que ideia, eu mesma não desisti. Grande aventura, coisa nenhuma. Só quero fazer algo que eu goste, com alguém que eu queira encontrar. Esse alguém não existe. Como posso estar sem uma amiga? Como isso aconteceu? Casamento dá nisso? Filhos? Será? E se eu fechar os olhos e imaginar o que eu quero fazer hoje: não sei.

Fiquei parada na frente do computador. Senti uma coisa estranha na hora de respirar, como uma leve falta de ar. Tentei respirar calmamente. Achei estranho. Pensei em levantar para pegar uma água. Não consegui. O coração disparou. Voltou ao normal. Disparou de novo. Respirei. Abri o Google. O mundo está a minha frente e não sei o que procurar. Atualizei a página. Não há conexão com a internet. Não há conexão.

Não consegui procurar nada. Não consigo fazer nada. Melhor ficar com meu filho, que me dá o que fazer. Mas não quero. Vou ligar para minha mãe. Isso pode ser bom, mas não quero desapontá-la, não quero ouvi-la falar sobre minha separação. Não quero! O que posso fazer sem ninguém? Vontade de ir para a cama chorar. Mas hoje eu não quero nem isso. São 9h da manhã. Hoje eu só queria alguém que me dissesse o que fazer.

Escape

Escape

Morgana se olhou no espelho. Ajeitou alguns fios de cabelo para que ficassem uniformemente presos em seu coque baixo. Olhou para a boca avermelhada pelo batom e passou a língua nos lábios, como quem saboreia o resto de uma calda. Depois, passou um tempo mirando seus olhos. Sentiu-se sobrevivente de seus quarenta anos de casada – que seriam comemorados naquela noite. Ulisses estava no primeiro andar do apartamento, bebendo algum uísque que não tinha dinheiro para pagar. Ela deu um último suspiro, olhando para o espelho, e se levantou. Precisava encarar aquela noite.

Foi para a cozinha verificar se estava tudo encaminhado. Queria que a festa corresse normalmente. Serviu-se de uma taça de espumante e deu um gole fechando os olhos. Sentiu, por um momento, o líquido gelado e efervescente em sua boca. Foi para a sala como um lutador que adentra o ringue. Sentou-se numa poltrona de um amarelo suave. Ele estava num banco mais alto, logo atrás. Estavam sem conversar há três dias, ela não sabia o motivo. Morgana já não se descabelava com as oscilações de humor dele.

A voz forte de Ulisses perguntou se a irmã dela e o marido viriam, ela respondeu que sim. “Comunista filho da puta”, ele disse. “Vai começar o desfiladeiro de obscenidades”, pensou Morgana sorvendo mais um gole. “Comunista que bebe uísque e que mama nas tetas do Estado…”. O interfone interrompeu. Era Alice, uma amiga da anfitriã da época da faculdade. Disse baixinho no ouvido de Morgana enquanto a abraçava: “Essa noite eu tinha que ser a primeira”. Morgana deu um sorriso para acalmar a amiga. Abraçaram-se novamente. Ulisses não se levantou, como sempre. Sentaram-se os três e Alice os parabenizou pelos anos de casados: “algo tão raro e difícil nos dias de hoje”. Ulisses retrucou: “Não é tão difícil assim”. Alice não tinha se casado e Ulisses a chamava de “tia” quando ela não estava. “Não é tão difícil com uma mulher como ela”, completou Alice. Ulisses concordou sorrindo. Daí em diante, os convidados começaram a chegar.

Fazia anos que Morgana não suportava os amigos dele. Sempre muito cordial, preferia sorrir a dizer o que realmente pensava sobre os assuntos conversados. Não precisava dissimular por muito tempo, já que as mulheres desses maridos, entre as quais se esperava que ela estivesse, sentavam um pouco afastadas dos homens. Morgana nunca entendeu como não se desenvolvia um assunto ali. Ela se esforçava para sorrir entre as mulheres, mas o tédio quase a impedia.

Ulisses, curiosamente, passava mais tempo com os amigos dela que com os dele. Era com eles que se embebedava e chegava ao fim da festa. Conversavam especialmente sobre política. Ele não xingava ninguém de comunista filho da puta – só para Morgana ele fazia isso – mas falava mais alto e tinha um tom ameaçador ao emitir sua opinião. Morgana sempre procurava abrandar as discussões, servindo algo para comer, tentando inserir outros pequenos assuntos na conversa. Não se metia a discutir política, mas amava ouvir seu cunhado falar. Com sua irmã, nunca faltava assunto e afeto, muito embora ela não fizesse ideia do que se passaria naquela noite.

Morgana conversava com ela quando Ulisses disse alto: “Atenção, atenção! Eu quero dizer algumas palavras sobre o motivo disso tudo: não sou eu, nem nosso casamento, é ela!”. Estendeu a mão na direção de Morgana: “Vem cá!”. Ela não se mexeu, ele repetiu “vem cá!”, agora num tom incisivo que foi amenizado pelos convidados que corroboravam para que ela fosse até o marido. As pernas e o sorriso de Morgana fraquejaram quando ela imaginou que ele soubesse. Foi ele quem caminhou e retirou do bolso uma caixa pequena: “para o grande amor de minha vida”. O medo transformou-se em incredulidade e o sorriso continuou ausente. Achou vulgar ser presenteada em público. Abriu envergonhada a caixa que continha um anel de rubi. “Como ele pagou por isso?” – foi o primeiro pensamento dela. Imediatamente, foi desafiada pelo coro: “Discurso, discurso!”. Ao dar mais um gole em sua bebida, percebeu que estava com a mão trêmula. Tinha que falar alguma coisa, qualquer coisa. Em meio a um branco, enxergou apenas seu marido. Com a joia no dedo, apoiou suavemente a mão no rosto dele, e disse: “Obrigada”. Sorriu. O lábio superior tremeu levemente.

Ele dormiu bêbado, do modo como ela esperava. Dessa vez, ela não vestiu a camisola, nem tirou a maquiagem. Foi para o closet e retirou lá do alto uma mala já pronta. Olhou para ele e não sentiu vontade de ficar. Deixou sobre o criado mudo um bilhete: “Ulisses: um de nós teria que ter coragem. Nos poupo de explicações desnecessárias. Por favor, aguarde que eu contarei aos mais próximos. Morgana”. Abriu a porta do quarto silenciosamente. Foi descendo as escadas com a bolsa no ombro e a mala nas mãos. Ouvia cada respiração e cada barulho de suas passadas. Lembrou-se de seu pai dizendo que era bobagem uma mulher querer viver sozinha. Foi a primeira vez que os olhos se encheram de lágrimas. Pensou no filho, que tantas vezes dissera para ela se separar. Sorriu enquanto chorava. Abriu a porta do apartamento e daí em diante tomou fôlego. Alice a esperava e a deixaria em um hotel. No carro, Morgana observava a noite. Mal ouvia o que sua amiga falava, apenas respirava tranquila com um sorriso na ponta dos lábios.

Mudança

Mudança

A casa já estava vazia. A gente tinha comido uma pizza sentados no chão. Eu queria ir para a rua, mas meu pai falou que não dava mais tempo. “Que saco!”, eu disse. Ainda tínhamos quatro horas de viagem pela frente. Ajudei a carregar o carro com tudo o que não fora no caminhão de mudanças. Desci com uma samambaia da minha mãe, “mais comprida que meu cabelo”, pensei. Depois, com meu som “dois em um”. Andava ouvindo uma fita K7 dos Ramones, Loco Life. Numa das idas até a garagem, corri três casas adiante e ele veio na minha direção, me abraçou em silêncio. Pedi um trago do cigarro. Ele me lembrou que no próximo final de semana iria me visitar. Respondi no máximo um “tá”, e nos beijamos – era o que a gente mais fazia. Ele tinha que ir trabalhar, fazia o turno da noite para ganhar um extra. Queria me despedir dele e dos amigos, mas aos 17 anos a gente não sabe bem como fazer isso. Alguns deles estavam logo ali, sentados no meio fio da praça. Fabiano, sentado na rua, tronco jogado para trás, apoiado nas mãos, brincando com os chinelos que calçava. Eram uns cinco, não havia nenhuma menina. Tinha uma bola ali encostada. Estavam mais quietos que de costume. Assim de short sem camisa, como antes de entrar para tomar banho e jantar, bem magros, bem jovens, bem entrosados. Hoje eu apostaria que estavam vendo nossa movimentação.

Nos treze anos morando ali, não vi ninguém se mudar para mais longe que o bairro ao lado. Na rua de baixo da praça estava o seu João, sentado em frente à sua casa, numa cadeira virada ao contrário, com os braços apoiados no encosto, fumando o cigarro de sempre. Não sei se seu passatempo eram as tragadas ou observar a gente. Tinha dois filhos e uma filha. Hoje penso que ele sabia de todos os segredos escondidos na praça, e que estava ali para nos proteger. Trabalhava como segurança. Na casa ao lado também eram dois meninos e uma menina. Uma mãe que nos vigiava da janela de vidro da cozinha. Ai de nós! Uma vez ela me levou no carnaval do clube e me proibiu de fumar e beijar. Me pegou fazendo as duas coisas. Ai de mim! Na casa seguinte, mais duas meninas. O pai delas gostava de montar telescópio e fez nossa infância ir até os planetas. Mas quando as meninas cresceram, ele não as deixava olhar para o lado.

Eu morava na parte de cima da praça, com minha mãe, pai e duas irmãs. Meu pai não ligava de os meninos baterem bola no muro. Deixava-os entrar para pegar a bola e, até no telhado, eles subiam para pegar pipa. Assim, a frente da minha casa sempre foi um ponto de encontro. Bola, bets, mamãe da rua, pega ladrão, stop. Meu pai costumava dizer que bastava assoviar para que aparecessem 40 crianças. Para todas elas ele colocou uma piscina em casa. Era a única piscina da rua. Corria o boato de que quando a gente viajava, os meninos pulavam o muro para nadar. Só uma mureta dividia minha casa da casa da vizinha. Uma menina que, desde muito nova, ficava sozinha em casa. Pulávamos muito o muro de cá para lá, de lá para cá. Foi lá um dos nossos primeiros bailinhos: música e luz apagada na cozinha. Dancei a noite toda com o mesmo menino cuja orelha de abano encostava gelada em meu rosto. Ele sempre me pedia em namoro, eu sempre pedia para pensar, e sempre dizia que não. Um dia me disse que eu não aceitava porque não sabia beijar, neguei. Aí veio com a pergunta fatídica: “então por que a gente fecha o olho quando beija?” Me senti numa sinuca de bico. Sorte a minha, ele mesmo respondeu, “para dar mais emoção”. Aí começaram as domingueiras. Meu pai levava e buscava, mas eu queria voltar de ônibus. Ouvíamos música no meu som, em frente de casa. Arriscávamos uns passinhos de dança na rua. Depois veio o violão,  meninos de outra rua, o vinho escondido. Veio Odara, Qualquer Coisa, Vaca Profana, dá-lhe Caetano.

De certa forma, tinha uma graça em ser a que está saindo, a que vai viver algo novo. Eu intuía o mundo que viria pela frente, mas não podia imaginar o tamanho da ruptura. Não podia imaginar que tudo aquilo se dissiparia de minha vida tão rapidamente. Não demorou nada para eu terminar com o namorado – bastou ele aparecer de macacão branco numa das visitas. Foi assim, sem dramas, que tudo mudou. Naquele dia também não me despedi da casa. Não conseguia conceber que ela não seria mais nossa. Sonho com ela até hoje. Fechamos as portas. Eu e minhas irmãs no banco de trás, esperando a partida. Como se não bastasse, meu pai quis descer do carro para conferir o cadeado do portão. Fiquei com mais raiva dele ainda. Mas estava quieta naquele dia. Não gritei: “bem agora que estou namorando?!” Era quase como se estivéssemos indo ao supermercado. Meu pai ligou o Corcel II verde, que começou a andar vagarosamente. Olhei para trás. Para minha surpresa os meninos sentados no chão olhavam para a gente. Senti, bem ali na barriga, uma coisa que até hoje não sei bem o que é.

 

Whatsapp

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Sonhei que eu, minha irmã e minha amiga éramos vizinhas de quintal. Nossos quintais eram divididos por um único muro alto, por meio do qual conversávamos sem nos vermos. O muro não era reto, um muro reto não conseguiria dividir três casas e apenas elas. Somente nós três, mais ninguém. O muro não era bonito, tinha tijolos à mostra. Era bem ali no quintal, aonde os transeuntes não veem. E nossa atividade de comunicação era tão intensa! Achei tão bonito isso. Tão bonito que me dá vontade de chorar. Porque ontem minha amiga mandou uma mensagem de voz abrindo seu coração. E tantas vezes abri meu coração só para elas. E dividimos tão intensamente um momento tão lindo e delicado que foi o início de nossas vidas como mães. Hoje minha irmã propôs que trocássemos fotos daquilo que vemos durante o dia: uma vista da janela do ônibus, um computador, a chegada à psicóloga. Diminuímos nossa distância trocando olhares sinceros, nem sempre bonitos. Brasília, Buenos Aires e Santo Domingo. É com elas que me comunico no quintal da minha casa. Ontem foi lindo quando a Mi disse, “ouçam sozinhas o que vou dizer”. Ela estava dizendo: vamos para o quintal. E rapidamente ali estávamos nós três.