Avoada

Avoada

Dizem que capricórnio é de terra. Tão mais fácil falar sobre a água! Mas sou signo de terra. Grande coisa. Nem sequer acredito em signo. Mas, se acreditasse, gostaria de ser água. Água é mais fluida, pode ser leve, pode ser forte. Mas sou firme. Sou terra. Sou chão. Sou base para alguém? Ah, devo ser. Água sobe, desce, vai e vem. A terra fica ali, reta, plana. Se bem que pode ser fértil. Pode gerar flor e fruto, se tiver semente. Pode ser molhada, ainda bem! Aí vem a água. Por isso casei com escorpião. Água. Molha-me. Se fosse touro, não sei se ia rolar. Touro é terra também. Nem pensar em touro. Me assusta! Minha terra imaginei vermelha, tal qual a terra de minha cidade. Pés no chão. Terra. “Olhos que a terra há de comer”: que triste isso. Prefiro pensar na terra molhada e fresca dando frutos. Preguiça de pensar em terra! Se fosse planeta terra seria melhor. Mas é terra mesmo. Só terra.

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Desejo

Desejo

Que as palavras se tornem líquido
Que as orações levem os restos de nada
Que as sentenças liberem sentidos silenciados
Que o gotejar de frases aconteça ritmado
Que as proposições gerem envoltura
Que a leitura transcorra
Que sobre apenas a obra acabada, porque lida.

Eu

Eu

Sou cabeça: um cânion de pensamentos fundos. Sou o interior conturbado que floresce leve. Sou músculos e entranhas. Sou estrada e bifurcações: não me canso de antecipar mudanças. Chego antes, mesmo que tarde. Sou sonhos, um turbilhão de sonhos todas as noites. Nem posso dizer que sou dia. Sou consciência e inconsciente. Consistente até demais. Amoleço-me com bonitas superficialidades. Sou reentrante e mantenho-me relevo: todos os dias, todos os dias. Sou amor que não padece. Sou equilíbrio, mas não calmaria. Não me aquieto até quando devo, até quando temo. É sentindo cada afluente dentro de mim que vou, sorrindo, todos os dias, todos os dias.

Foto

Foto

Sou eu? Não se parece comigo. Ah se eu soubesse que era tão linda. Meus olhos, muito mais bonitos. Essa criança já experimentou a morte e nem percebeu. Percebo eu. Sinto uma espécie de tranquilidade. Nenhuma tristeza, talvez estranheza: como aconteceu? Que menina linda, morreu, virou eu. Esse resto de infância. Esse resto de beleza. Já não sou minhas vidas acabadas, recortadas. Há no máximo resquícios retraçados. A menina me enaltece. Mas o que me alegra é o findar e o criar. É o bailar dos eus que nem percebo irem e virem. Hora que vejo, já fui!

O Velho

O Velho

Insistem para que eu conheça o mar. Não quero. Quiseram me levar de carro e de avião. Nem pensar. Sair de casa pra quê? Posso vê-lo pela televisão, está de bom tamanho. O que faria diante dele? Não tenho tempo para pensar besteira. Viajar horas para chegar até lá, e depois ter que voltar! Vê se pode. Só ia bagunçar meus horários. Prefiro minha varanda e meus pés estendidos na mureta sólida. Acho que vai chover ainda hoje. Me embrenho no mato, mas não me meto no mar. Aliás, já são seis da tarde.

Levantou-se com vigor inesperado para sua idade. Foi até a geladeira e pegou duas panelas de alumínio amassado: arroz e feijão. Pegou também dois ovos. Levou tudo para o fogão. Esses jovens não sabem muita coisa da vida. Quebrou um dos ovos na frigideira. Acreditam no que dizem para eles. Falam que ver o mar é bom, daí viajam 700 km para isso. Parecia não se importar com o óleo que espirrava. Sair de casa sem necessidade e ainda gastar dinheiro? Preciso consertar meu telhado.

Guardou a frigideira no forno. Encheu o prato e se sentou na cabeceira da mesa azul. Comeu com o garfo grande e com o olhar baixo. Ouviu o barulho da chuva e previu que começaria a gotejar dentro de casa. As coisas tem que ser certas. Deviam saber disso. Levantou-se e distribuiu algumas vasilhas pelo piso vermelho. Se tivesse levado minha vida assim, nada teria ido para frente. Lavou o prato e as panelas com a mão firme. Foi para a varanda ver a chuva cair. Sentiu cheiro de terra molhada. Se me conhecessem, saberiam que quero ficar exatamente aqui.

Fado

Fado

Estava meio entediada. Fumava mais um cigarro e bebia cerveja, observando a tudo e a todos. Gostava de ficar assim: vendo as pessoas passarem, cumprimentando um e outro, dando pequenas risadas. Em meio a essa distração, Arthur chegou com um sorriso meio preso nos lábios: “posso conversar com você?” Victoria não sabia se era a música alta ou o fato de ele não ter articulado muito bem as palavras o que não a fez ouvir direito. “Posso conversar com você?” Percebeu que o que não a fez entender foi o despropósito da pergunta: estava ali exatamente para conversar. Com ela não tinha dessa: “pode, diz aí”. Ele hesitou, continuou com aquele sorriso preso. Ela intuiu que o papo seria chato. “Vamos lá fora?” Victoria ficou curiosa com ele querer conversar como nas novelas. “Vamos sim.”

Já se conheciam, vira e mexe se falavam. Faziam cursos diferentes, ela jornalismo e ele economia. Arthur gostava de falar por metáforas e ela até curtia. Mas os papos não eram longos, talvez os dois fossem ansiosos demais para estender uma conversa. Caminharam em silêncio. Sentiam-se impedidos de dizer qualquer coisa ao acaso. Não dava para saber se os chuviscos da rua molhavam mais que os pingos que caíam da árvore embaixo da qual pararam. Um de frente para o outro e aquele sorriso continuava ali: “eu te amo”. Victoria se defendeu com uma risada: “Acho que não Arthur, que ideia!” Ele dizia e repetia o que ela nunca havia ouvido: o tal eu te amo. “Era isso que queria te dizer, que te amo”. A única saída que ela tinha era negar, “não Arthur, você não me ama”. E se fosse só uma brincadeira? Aquele sorriso lhe parecia sarcasmo. Melhor não acreditar.

Um carro ou outro passava pela rua e os faróis iluminavam a chuva fina e o asfalto molhado. Victoria começou a ver romantismo aqui e ali: viu os olhos dele brilharem, notou que ele ficou mais bonito e se sentiu mais bonita também. A festa se tornou um resquício. Esperava pelo beijo. Mas ele não a tocava. “Lembra daquela festa em que você beijou o Marcelo?” Ela nunca foi boa com nomes. “Fui embora e fiquei louco”. Victoria não se lembrava que festa era essa. “Naquele dia em que tomamos um café? Fiquei pensando no que você me disse”. Ele colecionava momentos dela. “Eu te amo”. Parecia conhecer seus sentimentos, os sujos e os nobres. Parecia acompanhá-la, conhecer seus passos, suas frustrações e sonhos.

Talvez um dos sonhos dela fosse ouvir eu te amo embaixo de uma árvore, na chuva. Só que ela não retribuiria, nem sequer conhecia esse script, nunca havia dito eu te amo. “Você nasceu para ser amada”. Ele mexia com os sentimentos mais complexos dela. “Você é a pessoa mais linda que já conheci”. Num certo momento, nada mais saía da boca de Victoria. A única coisa que ela conseguiria fazer seria beijá-lo. Foi o que fez. Agora era ele quem parecia não conhecer o roteiro: mal abria a boca. Victoria não entendia como aquilo tudo não poderia acabar num beijo descomunal. Pensou que aquele sorriso era nervoso – as mãos dele estavam frias e o toque trêmulo. Mas a essa altura, queria continuar ao lado dele.

Nada como um amor complicado. Arthur que o diga: “não se apaixone por mim”. Victoria percebeu que qualquer coisa que fizesse demonstraria que acreditava nele – se arrependeu do beijo. Encontrou somente uma saída: “vamos embora”. Foram caminhando na chuva fina, o que tornava a noite sensível. “Você já sabe que sou um cara estranho”. Ela realmente sabia, essa era a fama dele. “Tenho um carma”. Ela riu, sabia que ele começaria a falar com as metáforas de sempre. Tentou abraçá-lo. Foi desajeitado novamente. Ela precisava de um gesto para não explodir em pensamentos. Ele parecia treinado para as ideias, articulava-as como um mestre. Sentaram-se na mureta baixa de um bar fechado, protegendo-se da chuva embaixo de um pequeno toldo. Foi quando puderam se tocar como namorados. Sentados lado a lado, ele a abraçou com um dos braços e ela apoiou-se em seu peito.

Ela acreditou que poderiam ser namorados, ele sabia que isso jamais aconteceria. Victoria não sabia nada sobre ele, tinha ouvido dizer que era de uma família muito rica e que não tinha pai ou mãe. Ele disse baixo “Se eu não tivesse uma cidade para salvar…” Resolveu entrar na dele: “podia me salvar primeiro, antes da cidade inteira”. Ele pegou em seu rosto com as duas mãos: “estarei sempre ali, quando precisar”. Victoria mais uma vez quis beijá-lo. Dessa vez não ousou no gesto, mas nas palavras: “queria ser sua namorada”. Ainda segurando em seu rosto: “não queira, meu amor nunca acaba bem”.

Num movimento rápido a levou ao chão e se sentou sobre seu quadril com as pernas abertas. Suas mãos grandes seguraram com força os braços dela. Assim ele a beijou enquanto ela virava o rosto de um lado para outro. Arthur pedia desculpas baixo em seu ouvido. Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Não faça isso, não chore Victoria”. Tarde demais, as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Ela queria falar, mas o movimento da respiração não deixava. Emitia gemidos finos. Arthur enxugou suas lágrimas com o próprio rosto. Mantinha as mãos firmes nos braços dela. Disse que a amava pediu desculpas mais vezes. “Meu coração está partido”. Ela pressentiu que não sairia mais do meio daquelas pernas e experimentou o descontrole de seus sinais vitais. “Não posso ser um homem na sua vida”. Suas mãos foram para o pescoço de Victoria e ali ficaram até que ela parasse de se debater.

Pane

Pane

Eduarda dava volta ao mundo todos os dias. “Good morning ladies and gentleman. Welcome aboard”. Tinha alguma coisa errada. “In a few moments, the flight attendants will be passing around the cabin to offer you hot or cold drinks”. O que eu faço?” – se perguntava dia e noite enquanto sorria servindo os passageiros. Sentia que sua vida não era bem sua, mas não sabia dizer bem por quê. “The Captain has turned on the fasten seat belt sign”. Não conseguia exatamente o que queria, e sempre queria tanta coisa! We are looking forward to seeing you on board again”.

Uma das coisas que ela queria, conseguia quase que completamente: era linda. Mais do que isso: todos viam sua beleza. Vaidosa como era, curtia a sombra azul e o batom avermelhado que passava todos os dias. O contentamento com a aparência fazia diminuir a angústia dos piores dias. Agora, quando nem a maquiagem adiantava, era porque os piores dias se estendiam demais. Aí ela amaldiçoava o vermelho e o azul do céu.

Conheceu 40 países vomitando. Nunca se dera bem com a altura e sempre resistiu a tomar remédios. “Quem mesmo me deu a ideia de ser comissária?”. Detestava turbulências! Já tinha suado e chorado muitas vezes. Sempre quis conhecer o mundo, mas nunca desejou pingar cansada em diferentes países, com diferentes pessoas, em épocas do ano não propícias, independente do clima ou de seu temperamento. Temperamento: ninguém se importava com isso. Não aguentava mais sorrir: ninguém se importava com isso. Não aguentava mais concordar. Sentia-se inchada naqueles dias.

Voava espremida. “Será que se eu explodir, o avião explode junto?” Olhava com raiva pela janela pequena que fazia a imensidão perder o sentido. Não cabia mais ali. Não aguentava mais servir. Não aguentava mais limpar. Só que não tinha uma bomba colada ao corpo. Desejou que alguém fizesse uma loucura. Estava muito cansada. Foi para o banheiro e olhou-se fixamente no espelho. Fitou seus olhos arrebitados. Molhou as mãos e, com a ajuda da água, esticou melhor seus cabelos presos no coque alto.

Desistiu de esticar os cabelos e fez o movimento contrário com as mãos, arrepiando os fios no topo da cabeça. Respirou longamente e vestiu seu pequeno chapéu com tranquilidade. Depois, pegou o batom e avermelhou a boca sem suavidade. Resolveu aumentar os lábios. Pensou em borrar-se toda. Controlou-se. Sentiu-se abafada. Uma leve tontura. Passou um lápis preto nos olhos. “Tenho que dar um jeito de sair daqui”. Passou e repassou o lápis muitas vezes, dentro e fora dos olhos, quase se machucou. Ouviu batidas na porta. Os olhos avermelharam, pensou que ia chorar, mas logo se sentiu seca, tão seca que quase não conseguia se movimentar.

Batidas. Molhou as mãos e passou no rosto. Conseguiu se manchar toda. Não queria mais nada daquilo. Batidas: “estamos te esperando”. Eduarda abriu apenas uma fresta, o suficiente para mostrar seu rosto para a colega: “não consigo sair”. A amiga pensou rápido – pendurou uma placa de interditado do lado de fora da porta.

Eduarda ficou sentada no vaso até o avião pousasse. Sem cinto e sem segurança nenhuma. Tirou os sapatos e a blusa de dentro da saia. Soltou seus cabelos que imediatamente armaram-se desalinhados. Esperou todo mundo descer e continuou se desmontando. Saiu sem olhar para os lados, sem responder ou sorrir para ninguém. Caminhou no seu ritmo e sentiu seus pés no chão.

 

Descarada

Descarada

Sonhei com um filme inteiro. O sonho acabou bem no fim do filme, quando se acenderam as luzes. Eu passei da tela para a poltrona. Pois é, em algum momento estive no filme, mas terminei expectadora. A cena final era um cara “duas caras”. Era o Selton Melo. Ele já fez irmãos na TV? Mas, de todo, jeito ele tem um irmão bem parecido com ele. O Danton. Engraçado, tenho dois filhos parecidos. Mas não vou começar essa viagem agora.

Quero falar do filme que fiz essa noite. Então, na cena final, ele, Selton, se levanta de um banco alto em um bar, havia uma moça com ele, sentada num sofá mais baixo. Ele se vira de costas para ela e levanta seu cabelo: tinha outra cara ali. Ele era duas caras. Isso explicava o filme inteiro. Pá – as luzes se acendem. Eu tive tempo de pensar que odeio esse tipo de final. A cara estava ali o tempo todo e ninguém viu. Que jeito de explicar as coisas! Não gostei desse final. Mas acordei, não tive tempo de fazer outro.

Como o Selton foi parar ali e como virei expectadora dessa história?

Estava sozinha no cinema. Vai ver por isso pedi ajuda dele. Tinha que fazer o filme, ele entende de filme, o coloquei ali. E claro, tem a glória que é ele trabalhar num roteiro meu. Bom, se estou escrevendo, qualquer coisa que seja, já não estou mais ali. Sim, quem escreve não está mais naquilo que escreve. Aí, faz o quê? Usa as pessoas para criar personagens. Duas caras? Muito mais do que isso. Duas, três, quatro caras. Não estando mais ali, na história daquele filme, coloquei o Selton no meu lugar. O que se pode esperar de um ator? Duas caras do caramba.

Tudo ali passando na tela. Eu só olhando e pensando: que merda de final. Precisa colocar a cara na cabeça do cara? Muito explícito. Escancarar as mil caras. Na próxima vez, tentarei ser mais discreta.

Aérea

De tão leve quase não tem peso: a gente pega e parece que não sente. Cabe no bolso. Com um esforço pequeno conseguiria quebrar o seu pescoço. Daquelas coisas que a gente pensa que pode fazer, mas não faz. Parece que ele é de madeira, mas não pesa como madeira. Deve ser de algum material que desconheço. Sua asa parece uma folha, tem como se fossem sulcos. Não sei exatamente o que são sulcos, mas penso naquilo que faz os desenhos numa folha, e que estão na asa desse passarinho. Não sei se ele está chocando um ovinho ou na posição de levantar voo. Não entendo absolutamente nada de passarinhos. Espero que não seja o pássaro que dizem que é o espírito santo. Até hoje não entendi essa história, a parte da pomba. Sabe, às vezes me pergunto em que mundo eu vivo. Dos pássaros gosto do canto e das cores. Gosto que são pequenos e bonitos quando olhamos de longe. Desconfio dos animais olhados de perto. Sempre me decepcionei com os bichos ao vivo. Que feios! Desconfio até dos passarinhos mais lindos.

Caça Palavras

Caça Palavras

A palavra escorrega. Esvai. Parece até que foge. Ela quer mais de mim. Mais dedicação, mais anotação. Ela não me espera. Vai rápido. Escoa. Quando vejo, perdi. Aí vem outra. Passa pulando. Tento pegá-la num rodopio! Deslizo. Procuro palavras como quem tenta lembrar de um sonho. Elas parecem presas a fios invisíveis: que se desprendem, se embaralham, me enganam. Mas não posso ser injusta. As palavras são generosas. Estão aqui e ali, vão e voltam. Elas precisam de alguém que as escreva. Pobres e tentadoras palavras sozinhas. Somente quando minha mente dança – na mesma medida da perseverança – elas escorrem para o papel. Juntas, desfilam sentidos inesperados. Maravilhosas entrelinhas. Me encontro bem ali no que não foi escrito. Naquilo que precisa de palavras, mas que não pode ser dito. E elas, danadas, continuam pulando aqui e ali, para que sejam agarradas e para  que, finalmente, possam rasgar sentidos. Descaradamente.