Descarada

Descarada

Sonhei com um filme inteiro. O sonho acabou bem no fim do filme, quando se acenderam as luzes. Eu passei da tela para a poltrona. Pois é, em algum momento estive no filme, mas terminei expectadora. A cena final era um cara “duas caras”. Era o Selton Melo. Ele já fez irmãos na TV? Mas, de todo, jeito ele tem um irmão bem parecido com ele. O Danton. Engraçado, tenho dois filhos parecidos. Mas não vou começar essa viagem agora.

Quero falar do filme que fiz essa noite. Então, na cena final, ele, Selton, se levanta de um banco alto em um bar, havia uma moça com ele, sentada num sofá mais baixo. Ele se vira de costas para ela e levanta seu cabelo: tinha outra cara ali. Ele era duas caras. Isso explicava o filme inteiro. Pá – as luzes se acendem. Eu tive tempo de pensar que odeio esse tipo de final. A cara estava ali o tempo todo e ninguém viu. Que jeito de explicar as coisas! Não gostei desse final. Mas acordei, não tive tempo de fazer outro.

Como o Selton foi parar ali e como virei expectadora dessa história?

Estava sozinha no cinema. Vai ver por isso pedi ajuda dele. Tinha que fazer o filme, ele entende de filme, o coloquei ali. E claro, tem a glória que é ele trabalhar num roteiro meu. Bom, se estou escrevendo, qualquer coisa que seja, já não estou mais ali. Sim, quem escreve não está mais naquilo que escreve. Aí, faz o quê? Usa as pessoas para criar personagens. Duas caras? Muito mais do que isso. Duas, três, quatro caras. Não estando mais ali, na história daquele filme, coloquei o Selton no meu lugar. O que se pode esperar de um ator? Duas caras do caramba.

Tudo ali passando na tela. Eu só olhando e pensando: que merda de final. Precisa colocar a cara na cabeça do cara? Muito explícito. Escancarar as mil caras. Na próxima vez, tentarei ser mais discreta.

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Soul

Soul

Sou o casal que transa discretamente no sofá da sala. Sem estardalhaços, sem a pirotecnia sexual vendida por aí, um chocolate que derrete silenciosamente na boca.

Sou os corpos suados que se movimentam, o cheiro inconfundível da pele, a respiração de um no ouvido do outro. Até penso que o sofá não é meu, que o apartamento não é meu e que o casal não sou eu. Os sonhos são assim. Parece que aquela cena não tem nada a ver comigo e que fui parar ali por acaso. Tento sair antes que eles me vejam, mas quanto mais tento me retirar, mais me entranho no apartamento. Vou para a cozinha, para o corredor, vejo as portas dos quartos. Deve ter criança dormindo.

Sou dois corpos, de tão juntos, de tão ritmados, um. É um apartamento legal, desses de adulto. Antes de ver o casal, eu estava numa quitinete, num hotel barato que literalmente caía aos pedaços. Até que os vi por uma fresta e fui parar ali com eles. Desconfiei que o homem tivesse me visto. Escondi-me atrás da parede. Não queria atrapalhar aquela intimidade.

Sou a mulher e sou o homem. Eu precisava ter peito e precisava ter pinto. O chão era de madeira e o ar era leve. Senti-me segura. Como se ali eu pudesse me recuperar dos assombros do hotel que desabava. Aquele labirinto de pequenos apartamentos, em que eu me perdia, procurando por afeto, mas onde a única coisa que encontrava era um fluxo insuportável de emoções líquidas e energias caóticas que passava por mim de tempos em tempos. Como uma onda que se agigantasse na minha frente e estourasse dentro de mim. Agora, eu não procurava mais.

Sou aquele sexo tranquilo. Sou os tamanhos que aumentam, os líquidos que escorrem. Nada me vem de fora. Uma das portas do corredor estava entreaberta, era a do quarto do casal. A cama era grande, alta como a de um hotel cinco estrelas. Dois abajures elegantes e azuis estavam acesos num jogo de luz afetuoso. Havia seis travesseiros. Fiquei com vontade de sentir todos ao mesmo tempo.

Sou o peito na boca. A respiração suspensa que volta e murmura prazer. Vi a camisola azul com flores vermelhas estendida na cama. Tirei a roupa que me humilhava. Fui para o banheiro do quarto com o cabelo preso num coque alto. Ali tinha uma vela cheirando macio. Arrisquei-me e entrei no chuveiro. O toque forte da água em meu ombro levou qualquer resquício de medo. Depois, me senti valiosa com a camisola da moça.

Sou o gozo discreto. Sou o casal que transa sem acordar as crianças. Sentei na cama e meus pés saíram do chão. Fui sugada pelo edredom reconfortante. Apaguei, como nunca.

Coisa de Rua

Coisa de Rua

Ela queria me matar. Mas por que diabos? Eu tinha ficado com o carinha dela numa festa. Mas nem sabia que o carinha era dela. E lá precisa querer matar alguém por causa disso? Eu estava meio bêbada quando nos beijamos sentados no chão, encostados em um muro. E a gente até riu, porque aquele beijo nem tinha tanto a ver com a gente. Foi quase uma brincadeira. Nem demos o segundo beijo. Acho. Até que ele beija bem, quem diria! Tão brincalhão que era, nem parecia um cara que beijava bem. Daí, por causa disso, querer me matar? Toma o carinha de volta.

Nem sabia que ela era a fim dele. Vai ver era um amor secreto. Desses que a pessoa não fala: “ele é meu”. Se bem que ela nunca foi de alimentar amor platônico… Sempre foi de deixar a vida correr em seu fluxo mais natural. Quer me matar mesmo? Ela acha que todos os beijos do mundo são dela. Mas eu também quero. Ainda mais um beijo gostoso desses. Com esse sorrisão lindo que ele tem. Fiquei sabendo da ameaça pelo boato que corre na rua. Por essas coisas de bairro. Tem coisa que é de bairro. De rua. Coisa boa essa coisa de rua.

Tudo acontece na rua, de beijo à ameaça de morte. Aí ela estava sentada numa escada de cimento, à noite, loira e ameaçadora com as amigas em volta. Nem veio falar comigo. Mandou recado. Nunca acreditei em recado. Eu ia ficar por ali. Não ia me trancar em casa e deixar de viver o que só poderia ser vivido naquela noite de sexta-feira. Ela não veio. Ficou naquela. Se bobear beijo de novo. Vai ver, nem é verdade essa história. Deve ser outra que tá a fim dele. Mas como vou adivinhar? Se ninguém vier falar comigo, fico com ele de novo. Acho que ele vai querer. Alguém veio me falar: “ela tá a fim dele”. Fui lá então, falar com ela. Tava chorando. Droga. Ficou magoada com o beijo. “Foi mal, eu não sabia”. “Sabia sim, lembra daquele dia, eu falei, todo mundo sabe”. Enxugando as lágrimas. Putz, não lembrava mesmo. Por que diabos eu fui perguntar? Agora não posso mais ficar com ele. Vão dizer que sou traíra. Quem sabe escondido. Ah, deixa pra lá. Ele nem é tudo isso. Só se ele quiser muito e se a gente for mega cúmplices e fizer tudo escondido. Acho que não vai rolar. Ai que saco! Tinha que chorar? Ok, vamos beber mais uma e ver o que rola. A gente nem é tão amiga assim.

Rio-Brasília

Rio-Brasília

Sobrevoava o Rio de Janeiro. Um Rio sem Cristo, sem morro, sem Pão de Açúcar, sem praia. Uma cidade tranquila, e de tão tranquila e longe do mar, se parecia mais com Brasília. As copas das árvores floridas em linha reta. Seria a Paissandú? Não, era a longa proporção brasiliense. O voo tinha uma paz que não se encontra no céu carioca, onde o êxtase e o deslumbramento não dão sossego. No Rio, o frenesi vai até o céu aporrinhar Cristo. Vê se pode? O sonho era calmo, era deleite, era azul. Azul candango de alta resolução. Nada da imensidão azulada que se avista da Orla, de Santa, daqui, de acolá. Também havia silêncio no sobrevoo. Apenas o canto de pássaros, como apitos tocados por crianças, ora de maneira mais fraca, ora de modo entrecortado, ora assopros pequeninos. Não se lembrava de ter ouvido tantos pássaros na Zona Sul como ouve na Asa Norte. Só podia ser Brasília naquela noite. Não ouviu gritos, não ouviu choro, não viu ninguém transando, não havia dor ou medo, não tinha cigarro, nem bebida. Não sentiu ansiedade nem obsessão. Foi o voo mais amoroso do mundo. Finalmente, dez anos depois de entrar na cidade, sentia que agora era a vez de a cidade entrar em sua vida. Nunca é tarde para entender que a Capital mudou de lugar. A velha sede já era. Os episódios estão no Planalto Central e não na Central Globo de Produções. Mas, então, por que ainda pensar que era o Rio de Janeiro? Ah, o Rio não sai assim tão fácil dos sonhos de alguém.

 

Figurantes

Figurantes

Eu estava num hall muito lindo, chique, grandioso e silencioso. Como um templo. Eu me sentei ali, fiquei observando. Havia uma fonte. Duas mulheres dançando na água. Acho que nuas, certeza que lindas. Rolavam de um lado para outro, fazendo uma performance. No começo achei bonito. Depois estranhei. Elas vão ficar dançando até quando? Para quem? Uma delas deu uma espiada, para ver se havia alguém ali. Tive a esperança de que só dançavam na presença de alguém. Mas ainda assim me incomodou ver mulheres figurando uma paisagem.

The Long and Winding Road

The Long and Winding Road

Sonhei que eu e André estávamos no show do Paul MacCartney só que o palco ficava do outro lado – estávamos justamente no fundo do palco. Fomos caminhando aos trancos e barrancos, passando por entre pessoas, lama, cadeiras, lixos e objetos variados. O percurso. A travessia. Não poderia ser mais fácil? Não, não poderia. Ver o show do fundo pode ser incômodo e menos prazeroso, mas não exige o esforço do caminhar. Fica ali aquele lixo entre você e o palco, mas ok, você ouve a música. Agora, deslocar-se de um lugar a outro implica enfrentar o lamaçal, passar por entre objetos antigos, enferrujados, e ir deixando aquilo tudo para trás, abandonando mesmo. Claro que isso é extremamente difícil, afinal, são coisas que estão ali há muito tempo, que embora te limitem em sua movimentação, te localizam no espaço, desde sempre. Mas agora há coragem e desejo de atravessar. Para onde? Não se sabe exatamente. O palco ainda não foi visto de frente, e está tudo tão escuro. Mas quem já desfilou na Sapucaí sabe o que é sair da rua perpendicular e ver os holofotes, ouvir finalmente o samba enredo que você tanto ensaiou. É maravilhoso.

Castração

Castração

Não me lembro sobre como fui parar naquele lugar. Era “eu” espaço depois de uma porta. Somente uma porta e, depois dela, um corredor comprido, e aí salas, cozinhas, espaços mais amplos. Não tinha janelas, não havia como sair dali. Não havia outra opção se não mergulhar na loucura e no que ali acontecia independentemente da minha vontade. Pessoas tendo que entrar em contato com suas dores, pessoas sangrando, pessoas pela metade, quebradas. Numa cena uma atriz transava em pé com um cara. Eu estava vendo. Havia evidências incontroláveis do que eu sentia. Olhavam, apontavam para mim e riam. Eu não queria fazer parte daquilo ao mesmo tempo não havia opção. Não havia controle. Incomodava-me a intensidade da situação e quão desnuda ela era, tão escancarada, tão animal, tão aflorada de sentimentos. Nesse espaço tudo vinha sem floreios. Nesse espaço minha mãe morreu. Não me lembro mais da situação e nem como. Via outras pessoas sofrendo, havia muitas encenações dramáticas nas quais nos envolvíamos. Passei por algumas. Até que comecei a enfrentar as situações desse espaço. Saquei o drama e a intensidade do que era vivenciado ali e que eu tinha que experimentar aquilo. O inconsciente, os sentimentos, estava tudo ali. Quando acabou a sessão a psicóloga disse: acho que você está lidando melhor com a castração. Não entendi, mas fiquei aliviada.

Cadê a analista?

Cadê a analista?

Sonhei com a minha psicóloga. A gente estava num sofá, como amigas, as pernas de uma sobre as pernas da outra. Quanta intimidade.  Ela me falava que voltaria para o interior de São Paulo, para perto de sua família, pois estava muito difícil viver Brasília, já que seu marido não a ajudava em nada. Olha só, ela tem problemas?! Seria ela tão humana quanto eu? Vi os pés dela. Ah, humano demais! Que estranho! Mas sério: embora ela nunca tenha dito, tenho certeza de que ela não é casada com um traste. Certeza que o marido dela é um cara legal. Certeza que ela é muito inteligente. Certeza que ela me entende totalmente. Certeza que somos parecidas. Quase iguais. Ela e eu. Apenas. Seria somente eu? Cadê ela, afinal? Mas ainda assim, no meu sonho eu disse que não saberia o que fazer sem ela. Ela apenas sorriu, fazendo cara de que eu saberia sim. Perguntei se ela teria alguma colega para me indicar, e ela sorriu novamente, desaprovando totalmente minha pergunta. Às vezes parece que ela não precisa dizer nada para que eu entenda o que deve ser compreendido.

Entre quatro paredes

Entre quatro paredes

Comecei a ter sonhos sexuais. Deve ter a ver com o Freud. Já perguntei para minha psicóloga se quando Freud fala em sexo, é sexo mesmo. Ela disse que é mais amplo que isso. Entendi que diz respeito àquilo que fazemos com tesão. Pode ser qualquer coisa. Se bem que uma vez li umas partes do livro dele, e parecia que ele falava de sexo, sexo mesmo. Bom, longe de mim entender. Aí fui contando meu sonho e a psicóloga disse: sempre tem alguém observando. Verdade! Como estudei Sociologia, na hora imaginei a presença da sociedade, aquela coerção que sentimos mesmo quando estamos sozinhos. Que pode ser o Grande Outro. Que pode ser Deus. Dizem que o que ocorre entre quatro paredes não diz respeito a mais ninguém. Será? Como se ali houvesse espaço para transgressão, para o inusitado, para o completamente novo, quem sabe até para a inversão de valores. Eu posso ser pudica demais. Mas o fato é que me sinto completamente coerente dentro e fora de quatro paredes. A grande diferença, para mim, é que algumas coisas eu só faço entre quatro paredes. Mas sabe, sobre o prazer e sobre esses observadores, teve uma coisa diferente nesse sonho. Essa presença não me intimidou. Fui até o fim. E para mim, é aí onde posso chegar. Pois não acredito num espaço suspenso esvaziado de sentido, não acredito em quatro paredes, mas acredito que mesmo assim, mesmo com essas presenças, olhares, expectativas, palpites, censuras, temos que ir adiante naquilo que nos dá prazer. Simples assim.

A tal moça

A tal moça

Uma moça matou diversas pessoas numa casa. Eu estava junto, assistindo a tudo como cúmplice. Ela era eu. Restava uma dúvida: ela me mataria também? Não matou. Beijou-me. Ela fazia isso por mim. Cobrimos os corpos. Preocupava-me se os vizinhos e as crianças veriam. A moça disse que cuidaria de tudo. Eu ficava pensando se conseguiria viver normalmente, sem pagar pelos crimes. Mas a moça parecia muito tranquila.

“Esse encontro com a falta do Outro vai abrir caminho para a necessidade de que o sujeito coloque ali algo de si, com seu estilo imprima sua marca em sua invenção” (Chediak, 2014: 128).