Tocaia

Tocaia

É como se minha cabeça estivesse a girar

Não sei se estamos neste ponto novamente

Ou se nunca saímos do lugar

As mesmas sentenças

As mesmas cabeças a rolar

O devir é um disco riscado

Eterno retorno a soar

Em ouvidos cansados

Ansiosos por novidades no ar

Insolúvel poder permanente

Pode tocar seu plano

Pode corromper fulano

Está avisado

Ninguém vai se entocar.

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Voltamos

Voltamos

Voltamos

Ao grito sufocado

Às celas

Às fivelas

Preferia não ver

Voltamos

Aos silenciadas

Revirados

Não nos recuperamos

E já voltamos

Ao choque

Ao tremor

À cadeira

Ao pau

Ainda há trauma

Voltamos

À venda nos olhos

À mordaça

À depravação

Nunca acabou?

Voltamos

Ao inferno

Sempre Falta

Sempre Falta

Falta dinheiro

Falta comprar

Falta sobrar

Falta eu me deixar inteira

Sem nada em mim faltar

Falta escolha

Falta de sobra

Falta de sempre

Falta que imponho

Para que possa faltar

Falta segura

Falta que enlaça

Falta que me calça

Falta quem me vista

Para que eu possa faltar

Falta que faz

Falta que foi

Falta que fiz

Quando fiz faltar

Falta, quanta falta!

Falta que não falha

Buraco que sinto

Ao desejar

Meu Filho e a Luz

Meu Filho e a Luz

Aquela que desponta bem cedinho, e que ilumina a sala sonolenta, passa entre os cachinhos e sua cabecinha fica brilhante. Aliás, todo o contorno do corpo fica com fina luz.  É como se eu pudesse ver cada pelinho do corpo. Sou capaz de contar um a um. Sento-me com ele no chão, encantada com esse fenômeno.  É quando ele se vira para a janela e o rosto se ilumina amarelo. Nessa hora, os olhos ficam verdes incontestes.

Como gostam de afirmar os olhos verdes do meu filho! O que muitos não sabem é que eles mudam de cor. Mergulho no verde, mas é com o mel que me delicio. Aquela cor suave que acontece quando o sol deixa de entrar pela janela. Ocorre por completo: olhos, pele, pelos e cabelo. Tudo carameliza. Sinto o doce de cada olhar e sorriso. Como me faz bem.

Quando ele acorda do sono da tarde, com a cortina meio fechada, pronto, lá está o castanho. Adoro essa palavra! Vem de castanha e significa cor amarronzada. É nesse momento até uma sobrancelha aparece. Tudo se define em linhas, contornos e expressão. São os sorrisos mais largos do dia. O olhar mais denso e profundo. É quando me afundo de tanto cheirar.

Amo meu filho de todas as cores. Ainda não contei que o sorriso dele é azul, contei?

Pela Metade

Pela Metade

Estava difícil respirar naquelas páginas em branco. Nenhuma história lhe vinha. Procurava então fora de si: uma cena, alguém que lhe inspirasse. Nada.

Só vinham coisas que julgava não poder escrever naquele momento. Escrevia, apagava, não terminava. O que é o esboço da escrita que nunca acaba?  O que é o conteúdo de uma gaveta trancada? Medo. Mais do que isso: o medo dos outros.

Nisso consistia o que não terminava. Por outro lado, aquilo martelava: escrevia, relia e mudava. Sempre a sensação de estar sendo má: má amiga, má companheira, má pessoa. “Que ninguém tenha uma amiga escritora!”

E foi pensando em sua maldade que se deteve na palavra má: “mais parece uma palavra cortada! Pobre dela que não se completa!” Escreveu, rabiscou e, finalmente completou: madura, maciça, maluca, matuta e até mesmo mais, mais e mais.

Tudo estava dito: meias palavras não se prestam a nada.

Eu

Eu

Sou cabeça: um cânion de pensamentos fundos. Sou o interior conturbado que floresce leve. Sou músculos e entranhas. Sou estrada e bifurcações: não me canso de antecipar mudanças. Chego antes, mesmo que tarde. Sou sonhos, um turbilhão de sonhos todas as noites. Nem posso dizer que sou dia. Sou consciência e inconsciente. Consistente até demais. Amoleço-me com bonitas superficialidades. Sou reentrante e mantenho-me relevo: todos os dias, todos os dias. Sou amor que não padece. Sou equilíbrio, mas não calmaria. Não me aquieto até quando devo, até quando temo. É sentindo cada afluente dentro de mim que vou, sorrindo, todos os dias, todos os dias.

Foto

Foto

Sou eu? Não se parece comigo. Ah se eu soubesse que era tão linda. Meus olhos, muito mais bonitos. Essa criança já experimentou a morte e nem percebeu. Percebo eu. Sinto uma espécie de tranquilidade. Nenhuma tristeza, talvez estranheza: como aconteceu? Que menina linda, morreu, virou eu. Esse resto de infância. Esse resto de beleza. Já não sou minhas vidas acabadas, recortadas. Há no máximo resquícios retraçados. A menina me enaltece. Mas o que me alegra é o findar e o criar. É o bailar dos eus que nem percebo irem e virem. Hora que vejo, já fui!

Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Quando o Inácio me visitou pela primeira vez na maternidade, recebi dele um olhar longo, novo e talvez único. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: “mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… Como devo agir?” Me senti angustiada. “O que foi que aconteceu?” Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. O dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros, sons, tamanhos, cabelos.

O Negócio do Parto

O Negócio do Parto

Escrevi sobre a entrega do parto normal mas muito rapidamente me entreguei à cesárea. De um lado a médica, de outro a doula. Em meio à noite, ao líquido escorrendo, às contrações, em meio ao frio, no meio de um “não aguento mais”, de um “vamos resolver logo”, de um medo do desconhecido que seria a espera, em meio à falta de garantias, em meio a isso e mais um pouco, pendi para um lado, precisando muito da força do outro. Pois bem, fui feliz para a cesárea. A doula segurando minha mão, o marido ali presente e… Nosso filho nasceu! Está tudo bem com ele? Sim, está tudo bem! E dra., tudo bem aí embaixo? Aqui? Tudo ótimo! Assim fui para a recuperação me recuperar super bem. Eu estava tão feliz! Feliz inclusive com a cirurgia. Decisão certa. Está tudo bem! Olha como ele é lindo! Que delícia. Mas aí… Me levaram para o quarto. Um quarto quadrado. Fiquei ali dois dias e meio. Sem ver a luz do sol. Mais de 48h no ar condicionado. Depois de 24h virei uma leoa. Presa. Pense. Uma vontade de pegar meu filho e sair por aí! Mostrar para ele o mundo que eu queria mostrar para ele – e que não tinha nada a ver com aquele quarto feio. Mas eu estava ali. Pessoas entrando de 20 em 20 minutos, inclusive durante a noite, para dar remédios (eu não poderia tomá-los em casa?), para dar banho em mim (meu marido faria isso muito bem!), para dar banho no meu filho (não importava se ele estivesse dormindo ou no peito), para fazer testes (não podemos fazer isso depois?), inclusive para tocar um agogô no ouvido dele e dizer que a audição dele está ok. Como assim? Que teste é esse? Ah, e para colocar termômetro no meu sovaco, hahaha, putz. Nada que eu via fazia sentido. E foi aí, somente aí, que entendi porque as pessoas querem parto normal em casa. Antes o problema fosse a cesárea! Mas é um pacote. Um pacote que te persegue até a saída da maternidade. O dia da alta não passava. Conseguimos ser liberados somente depois das 15h, eu finalmente estava pronta para pegá-lo no colo e sair correndo!! Mas não… O protocolo é ele sair dentro de um berço de plástico carregado por uma funcionária. E na porta do elevador ela diz: o quartinho está esperando por ele? Não, quem o espera é a avó e o irmão. Não vale a pena mencionar tudo, o texto ficaria tão enfadonho quanto o quarto. Mas saí de lá compreendendo muito as mulheres que têm seus filhos em casa, e que depois do nascimento se jogam na cama, em família.