Meu Filho e a Luz

Meu Filho e a Luz

Aquela que desponta bem cedinho, e que ilumina a sala sonolenta, passa entre os cachinhos e sua cabecinha fica brilhante. Aliás, todo o contorno do corpo fica com fina luz.  É como se eu pudesse ver cada pelinho do corpo. Sou capaz de contar um a um. Sento-me com ele no chão, encantada com esse fenômeno.  É quando ele se vira para a janela e o rosto se ilumina amarelo. Nessa hora, os olhos ficam verdes incontestes.

Como gostam de afirmar os olhos verdes do meu filho! O que muitos não sabem é que eles mudam de cor. Mergulho no verde, mas é com o mel que me delicio. Aquela cor suave que acontece quando o sol deixa de entrar pela janela. Ocorre por completo: olhos, pele, pelos e cabelo. Tudo carameliza. Sinto o doce de cada olhar e sorriso. Como me faz bem.

Quando ele acorda do sono da tarde, com a cortina meio fechada, pronto, lá está o castanho. Adoro essa palavra! Vem de castanha e significa cor amarronzada. É nesse momento que mais vejo contraste: até uma sobrancelha aparece. Tudo se define em linhas, contornos e expressão. São os sorrisos mais largos do dia. O olhar mais denso e profundo. É quando me afundo de tanto cheirar.

Amo meu filho de todas as cores. Ainda não contei que o sorriso dele é azul, contei?

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Estranhos

Estranhos

Lembro que ele disse que queria me conhecer. Estávamos numa praça lotada, eu prestava muita atenção ao telão onde passava a votação dos congressistas que tirariam Collor de Mello da Presidência. Eu tinha 16 anos. No momento da decisão final, em que eclodiram gritos e pulos de alegria, ele perguntou se poderia me conhecer. Eu, que ainda não sabia falar não para quase nada, respondi sim. No mesmo momento ele me abraçou, me levantou e começou a girar. Colocou-me no chão e sumiu na multidão. Nunca mais esqueci.

Lembro que eu subi nos ombros dele e vi o show do alto. Era do Guns N’Roses. Estava chovendo e eu estava em transe. De olhos fechados, cantando e dançando. Até que vi esse moço olhando para mim. Ele apontava para si mesmo. Não entendi. Ele veio mais perto, se abaixou um pouco e eu subi nos seus ombros. Vi November Rain do alto. Depois não sei onde ele foi parar, devo ter procurado. Nunca mais esqueci.

Lembro que ele me disse que eu parecia a sereia do Splash – e eu acreditei. Foi quando dei meu primeiro beijo, numa cidade que não era a minha. Aconteceu porque ele me pegou de surpresa. Se tivesse tido qualquer cerimônia, eu teria fugido. Foi no meio da rua e, para falar a verdade, eu nem senti. Somente quando já estávamos encostados num carro, embaixo de uma árvore, bem no escuro, eu comecei a sentir: a mão dele na minha cintura, a língua, a respiração. Foi aí que ele falou que eu parecia a tal sereia. Nunca mais nos vimos. Nunca mais esqueci.

Lembro que ele me disse que eu era do século XVIII. Eu estava num Congresso, na fila para comprar cerveja. Estava naquela idade em que a gente olha para todo mundo e quer que todo mundo olhe para a gente. Ele surgiu não sei de onde. Era bonito, mas baixo demais. Achei que fosse perguntar meu nome, falar que me conhecia de algum lugar ou tentar furar a fila. Mas ele falou “você é do século XVIII”. Fiquei sem argumento. “Poderia eu ter sido uma inconfidente ou ter tomado a Bastilha? Teria sido homem?”. Antes que eu respirasse ele sumiu. Nunca mais esqueci.

Não tem mais volta

Não tem mais volta

Os Outros começaram a me estranhar. “Não reconheço mais a Virgínia”. Ei, por que você fala como se eu não estivesse aqui? Outro dia ouvi: “Virgínia, não estou te reconhecendo!” Fiquei sem reação. O que você espera de mim? Por que estou ouvindo isso? Eu correspondia à sua expectativa até então? O que mudou? Se eu não estou aqui, quem está?

Achei na casa da minha mãe uma pulseira de quando eu era bem novinha. Coloquei essa pulseira no pulso querendo ser aquela. Mas já havia outra pulsando.

Tirei a pulseira. Melhor não resistir.

“Estamos a todo o momento a mendigar demandas de um Outro, a solicitar que o Outro nos diga o que somos e o que queremos” (Chediak, 2007:55).

Engatinhando II

Engatinhando II

Também tive minhas marcas com meu pai, ah se tive! Uma vez fomos à padaria. Ele agradeceu à moça pelo pão: obrigado broto! Pai, olha o broto aqui! Será que você está cego? Fiquei revoltada nesse dia, por minha mãe, claro.

Outra vez ele levou minha irmã e eu para assistir Um Príncipe em Nova Iorque no cinema. Numa cena havia várias mulheres com o peito de fora numa banheira. Nunca me senti tão despeitada em toda minha vida!