O rosto no asfalto. O corpo pesado, as articulações enrijecidas. Não conseguia se movimentar e nem mesmo perceber em que posição estava. Uma das mãos, colada ao solo, sentia a temperatura amena de um dia sem sol. Ouvia apenas a sua própria respiração. Ofegava para se manter calma ao sentir-se viva. Pensou em gritar, mas havia imobilidade em sua voz. Estava sozinha? Silenciou para ouvir o som de qualquer outro alguém. Não percebeu rastro de pessoa que fosse. Voltou a pulsar sua respiração. Para onde estava indo? Para onde estava indo? Não se lembrava. Insistiu na certeza de que ia para algum lugar. Para onde? Para onde? Vazio na partida e na chegada. Nada. Só aquela estrada. E se não estivesse trafegando de um lado a outro? Poderia ter sido vítima de ato ilícito. O que fizeram comigo? O que fizeram comigo? Jogaram-me como dejeto! Mas bem no meio da pista? Não me fizeram um mal completo: respiro no meio da estrada. Preciso me levantar. Preciso me levantar. Movimentou o corpo com força e, nesse momento, gritou de dor e coragem até que ficasse com mãos e joelhos apoiados no chão. Teve vontade de se sentar sobre os pés e chorar. Mas as lágrimas poderiam enferrujar seu movimento. Esforçou-se até que seu corpo ficasse em pé. Não cogitou olhar para trás: desistiu de sua memória. Não quis se lembrar se tinha pai ou mãe. Não quis saber se procuravam por ela. Queria seguir a estrada à sua frente.

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2 comentários sobre “Estrada

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