Estava meio entediada. Fumava mais um cigarro e bebia cerveja, observando a tudo e a todos. Gostava de ficar assim: vendo as pessoas passarem, cumprimentando um e outro, dando pequenas risadas. Em meio a essa distração, Arthur chegou com um sorriso meio preso nos lábios: “posso conversar com você?” Victoria não sabia se era a música alta ou o fato de ele não ter articulado muito bem as palavras o que não a fez ouvir direito. “Posso conversar com você?” Percebeu que o que não a fez entender foi o despropósito da pergunta: estava ali exatamente para conversar. Com ela não tinha dessa: “pode, diz aí”. Ele hesitou, continuou com aquele sorriso preso. Ela intuiu que o papo seria chato. “Vamos lá fora?” Victoria ficou curiosa com ele querer conversar como nas novelas. “Vamos sim.”

Já se conheciam, vira e mexe se falavam. Faziam cursos diferentes, ela jornalismo e ele economia. Arthur gostava de falar por metáforas e ela até curtia. Mas os papos não eram longos, talvez os dois fossem ansiosos demais para estender uma conversa. Caminharam em silêncio. Sentiam-se impedidos de dizer qualquer coisa ao acaso. Não dava para saber se os chuviscos da rua molhavam mais que os pingos que caíam da árvore embaixo da qual pararam. Um de frente para o outro e aquele sorriso continuava ali: “eu te amo”. Victoria se defendeu com uma risada: “Acho que não Arthur, que ideia!” Ele dizia e repetia o que ela nunca havia ouvido: o tal eu te amo. “Era isso que queria te dizer, que te amo”. A única saída que ela tinha era negar, “não Arthur, você não me ama”. E se fosse só uma brincadeira? Aquele sorriso lhe parecia sarcasmo. Melhor não acreditar.

Um carro ou outro passava pela rua e os faróis iluminavam a chuva fina e o asfalto molhado. Victoria começou a ver romantismo aqui e ali: viu os olhos dele brilharem, notou que ele ficou mais bonito e se sentiu mais bonita também. A festa se tornou um resquício. Esperava pelo beijo. Mas ele não a tocava. “Lembra daquela festa em que você beijou o Marcelo?” Ela nunca foi boa com nomes. “Fui embora e fiquei louco”. Victoria não se lembrava que festa era essa. “Naquele dia em que tomamos um café? Fiquei pensando no que você me disse”. Ele colecionava momentos dela. “Eu te amo”. Parecia conhecer seus sentimentos, os sujos e os nobres. Parecia acompanhá-la, conhecer seus passos, suas frustrações e sonhos.

Talvez um dos sonhos dela fosse ouvir eu te amo embaixo de uma árvore, na chuva. Só que ela não retribuiria, nem sequer conhecia esse script, nunca havia dito eu te amo. “Você nasceu para ser amada”. Ele mexia com os sentimentos mais complexos dela. “Você é a pessoa mais linda que já conheci”. Num certo momento, nada mais saía da boca de Victoria. A única coisa que ela conseguiria fazer seria beijá-lo. Foi o que fez. Agora era ele quem parecia não conhecer o roteiro: mal abria a boca. Victoria não entendia como aquilo tudo não poderia acabar num beijo descomunal. Pensou que aquele sorriso era nervoso – as mãos dele estavam frias e o toque trêmulo. Mas a essa altura, queria continuar ao lado dele.

Nada como um amor complicado. Arthur que o diga: “não se apaixone por mim”. Victoria percebeu que qualquer coisa que fizesse demonstraria que acreditava nele – se arrependeu do beijo. Encontrou somente uma saída: “vamos embora”. Foram caminhando na chuva fina, o que tornava a noite sensível. “Você já sabe que sou um cara estranho”. Ela realmente sabia, essa era a fama dele. “Tenho um carma”. Ela riu, sabia que ele começaria a falar com as metáforas de sempre. Tentou abraçá-lo. Foi desajeitado novamente. Ela precisava de um gesto para não explodir em pensamentos. Ele parecia treinado para as ideias, articulava-as como um mestre. Sentaram-se na mureta baixa de um bar fechado, protegendo-se da chuva embaixo de um pequeno toldo. Foi quando puderam se tocar como namorados. Sentados lado a lado, ele a abraçou com um dos braços e ela apoiou-se em seu peito.

Ela acreditou que poderiam ser namorados, ele sabia que isso jamais aconteceria. Victoria não sabia nada sobre ele, tinha ouvido dizer que era de uma família muito rica e que não tinha pai ou mãe. Ele disse baixo “Se eu não tivesse uma cidade para salvar…” Resolveu entrar na dele: “podia me salvar primeiro, antes da cidade inteira”. Ele pegou em seu rosto com as duas mãos: “estarei sempre ali, quando precisar”. Victoria mais uma vez quis beijá-lo. Dessa vez não ousou no gesto, mas nas palavras: “queria ser sua namorada”. Ainda segurando em seu rosto: “não queira, meu amor nunca acaba bem”.

Num movimento rápido a levou ao chão e se sentou sobre seu quadril com as pernas abertas. Suas mãos grandes seguraram com força os braços dela. Assim ele a beijou enquanto ela virava o rosto de um lado para outro. Arthur pedia desculpas baixo em seu ouvido. Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Não faça isso, não chore Victoria”. Tarde demais, as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos. Ela queria falar, mas o movimento da respiração não deixava. Emitia gemidos finos. Arthur enxugou suas lágrimas com o próprio rosto. Mantinha as mãos firmes nos braços dela. Disse que a amava pediu desculpas mais vezes. “Meu coração está partido”. Ela pressentiu que não sairia mais do meio daquelas pernas e experimentou o descontrole de seus sinais vitais. “Não posso ser um homem na sua vida”. Suas mãos foram para o pescoço de Victoria e ali ficaram até que ela parasse de se debater.

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