Heitor saiu do banho, enxugou-se e nem se olhou no espelho. Ele não costumava se olhar no espelho. Espirrou o desodorante. Era o único produto em cima de sua pia, além da pasta e escova de dentes. Saiu do banheiro e abriu a porta do guarda roupa. Somente camisas claras de manga curta e com bolso – onde ele costumava guardar o maço de cigarros. Vestiu uma camisa, bermuda, chinelos e foi ler seu livro. Estava com 65 anos. Vivia separado de sua esposa e tinha duas filhas. Morava sozinho. Sua casa tinha apenas o essencial: sofá, mesa, cadeiras, televisão. Nenhum objeto de decoração, nenhum vaso ou quadro. Tinha uma estante de livros. Passava boa parte de seu tempo lendo. Na cabeceira da mesa de jantar ficava a obra em leitura. Sentou-se. Em cima da mesa, estava um colar de pedras azuis que sua filha havia esquecido. Conversara com ela algumas vezes ao telefone, mas nada dissera sobre o colar. Pensou que era preguiça de falar. Heitor não sabia se estava entediado ou deprimido, mas andava economizando saliva. Não tinha paciência com as pessoas, ultimamente elas o enfadavam.

Enquanto lia, ficou mexendo nas pedras do colar, como das últimas vezes. Mas, dessa vez, focou o objeto enroscado em seus dedos. Reparou no contraste do azul com sua pele. Foi sem pensar que se levantou e foi com o colar para o banheiro. Parou em frente ao espelho. Segurando pelas extremidades, apoiou o colar em seu pescoço, mas o colarinho da camisa atrapalhou. Abriu alguns botões, depois todos, e tirou a camisa. Subiu o adereço do peito ao colo e sentiu as pedras geladas. Realinhou seu corpo e se observou no espelho. Trancou a porta rapidamente. Lembrou de quando estava no auge da puberdade. Riu de si mesmo: “nada disso faz sentido”. Manteve a porta trancada e tentou fechar o colar na nuca. Percebeu que não tinha a menor habilidade para isso. “O que estou fazendo, afinal?” Deixou o colar sobre a pia e voltou para o seu livro. Leu meia página, seu olhar vagueou pelas letras. Leu mais uma página e meia. Voltou ao banheiro. Queria fechar aquele gancho. Tentou de todas as maneiras, até que, “clic”, conseguiu. Sentiu o peso das pedras. Viu-se iluminado e sentiu-se mais moço. Virou-se de um lado, do outro. Contemplou-se. Achou aquilo insólito e resolveu retirar o penduricalho.

Não conseguiu na primeira tentativa, nem na segunda, nem na terceira. Sentiu um frio na barriga, imaginando se alguém aparecesse por ali. Lembrou-se de que quase nunca recebia visitas e que, ainda assim, o interfone tocaria antes, bastava não atender. Novamente, sentiu-se mais jovem. “Mas que ideia”, disse baixinho. Levantou o olhar para o espelho e sorriu um sorriso novo, apertando os lábios. Abriu a torneira, molhou as mãos e as passou pelos cabelos lentamente, deixando seus fios mais escuros, mais molhados e esticados para trás. Fazia tempo que não se olhava com interesse. Pegou a toalha de banho branca e enrolou na cintura. Depois, enrolou-a um pouco mais acima, na altura do peito. Ele precisava de seus braços e mãos para que ela não caísse. Com esse traje, foi dar uma volta pela casa: “com duas filhas, pode haver mais alguma coisa esquecida”. Foi na área de serviço que encontrou um casaquinho vermelho e uma sombrinha, deixados pela faxineira.

Voltou para o banheiro com as peças. O casaco vestiu apertado e torto em seus braços. Não importava. O vermelho e o azul das pedras mexeram com ele. Abriu a sombrinha, mas ela mal cabia naquele espaço. Começou a andar pela casa cantando lentamente: “I’m singing in the rain, just singing’ in the rain, what a glorious feeling, I’m happy again…”. Lembrou-se do filme Laranja Mecânica e pensou: “enlouqueci de vez e nem matei ninguém”. Assoviou, como no filme. Continuou deslizando e cantarolando pela sala até que as lágrimas apareceram. Repetiu algumas vezes: “I’m happy again…”. Sentou-se no sofá, “I’m happy again”. Deixou-se chorar. Deitou e foi se encolhendo, juntou os joelhos ao peito, manteve as mãos nos olhos. Tudo ficou escuro e ele permaneceu em silêncio. Tremeu algumas vezes e sentiu a ponta dos dedos formigar. Ateve-se à respiração. Sentiu-se acolhido pelo casaco vermelho. Acalmou-se. Voltou a sentar-se vagarosamente e, com a palma da mão virada para fora, enxugou as suas lágrimas.

Ao levantar-se, estava mais leve. Mexeu os dedos dos pés e das mãos. Jogou o pescoço para trás e girou a cabeça de um lado para outro. Tudo parecia estar ali. Respirou fundo. Começou a caminhar, apoiando, não os calcanhares, mas a ponta dos pés. Sentiu a propulsão de seu corpo. Notou a força que fazia na panturrilha e, para se equilibrar, teve de prender a barriga. Tentou caminhar apoiando um pé na frente do outro: “andar de pernas abertas, nem pensar!”. As mãos foram parar na cintura. No início, mal respirava, depois foi ajustando a respiração aos novos passos. Deixou de olhar para os pés e mirou um ponto qualquer na parede. Foi assim que chegou ao seu lugar preferido da casa, a cabeceira da mesa de jantar. Arrastou a cadeira antes de sentar-se, precisava de espaço. Foi se sentando devagar com as pernas próximas uma da outra. Voltou a ler o livro. Dessa vez, não prestou tanta atenção aos personagens, estava muito ocupado com seus próprios movimentos.

 

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10 comentários sobre “Glorious Feeling

  1. Show Virginia. Não sou nem de longe, infelizmente, adepto a leitura, mas seu texto foi magnético. Li até o fim. Isso é incrível pra mim que sou bombardeado de emails que quando leio é quase sempre de forma rasa. Campeã.

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  2. De repente, interagi com o texto…meu sogro se suicidou há três anos com 67 de idade em situação semelhante. Heitor está em processo de depressão, precisa ser resgatado por ele mesmo é família tem que insistir para que consiga isto. Está aprisionado em seu corpo e deve fazer atividades para se tornar último. Sua vida merece uma guinada antes que a morte, social ou física, o encontre enquanto não percebe que é importante para o mundo é um monte de pessoas que devem fazer parte da sua vida. Ninguém é feliz sozinho!!!

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    1. Oi Maurício, que bom que você viu no personagem a representação de tantas questões, de tantos Heitores. Temos que falar mais sobre tudo isso que permeia nossas vidas e a de pessoas tão queridas. Um abraço para você. Virgínia.

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  3. Amei seu texto muito interessante a forma como coloca à coisas da vida de um solitário,verdadeiramente é muito triste viver só. de modo como ele interaje com os objetos que o cercam parabens

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