Eram nove horas. Ele disse que chegaria às oito. Ela já tinha acendido dois cigarros, estava fumando o último deles na janela. Pensou que poderia ligar para alguém, talvez para uma amiga que adorava beber chope às sextas. Pegou o celular, passou pelos contatos devagar, abrindo alguns deles. Ligou para ele novamente, e nada. Voltou para a agenda e rolou de A a Z. Antes de desistir, parou no nome dele, “só mais uma vez”, pensou. Nada. 

Foi novamente se olhar no espelho. Levantou a blusa e ajeitou os seios pequenos no sutiã de bojo rosa que havia comprado. Ele deixava sua blusa com mais volume, ela gostava. Se achou tão linda. A calcinha combinava. Ela procurou um brinco mais bonito. Ficou experimentando um após o outro na frente do espelho. Até que arremessou um deles na parede. Olhou de novo no celular. Acendeu mais um cigarro na janela. Se sentia presa naquela quitinete. Não tinha nada para beber.

Sua garganta parecia fechada, como se houvesse um nó enorme ali. Pensou em descer, comprar uma cerveja, mas estava tão sem dinheiro. A garganta fechou mais ainda. Piscou seus olhos e vazaram duas, quatro ou seis lágrimas. Derramou-se no chão e ficou ali por um tempo.

Levantou e se olhou longamente no pequeno espelho do banheiro. Primeiro viu beleza em sua tristeza. Seus olhos ficavam ainda mais claros e sua boca avermelhada. Parecia uma princesa. Depois, continuou se olhando e não se reconheceu mais. Aquele corpo não parecia seu. Por um segundo sentiu tudo girar.

Olhou no relógio, quase dez horas. Teve vontade de explodir. Se jogou na cama. Não cabia mais angústia dentro dela. Não sabia o que fazer. Quanto mais chorava, menos sentia seu corpo e mais sua cabeça pesava e girava. Chorou tanto que a janela saiu do lugar. O teto também se moveu.

Virou-se de lado e sentou-se lentamente. Segurou o telefone. Previu que ele não atenderia e sentiu medo do vazio. Pensou em abrir a mão e deixar o celular cair no chão. Pensou em deitar e ficar ali até dormir. Não conseguiu.

Ligou. Nada. Largou o telefone no chão e nem pensou em gritar. Correu três passos até a janela. Apoiou um pé e as duas mãos no parapeito. Bastou um impulso para seu corpo explodir no ar quente daquela noite.

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