A casa já estava vazia. A gente tinha comido uma pizza sentados no chão. Eu queria ir para a rua, mas meu pai falou que não dava mais tempo. “Que saco!”, eu disse. Ainda tínhamos quatro horas de viagem pela frente. Ajudei a carregar o carro com tudo o que não fora no caminhão de mudanças. Desci com uma samambaia da minha mãe, “mais comprida que meu cabelo”, pensei. Depois, com meu som “dois em um”. Andava ouvindo uma fita K7 dos Ramones, Loco Life. Numa das idas até a garagem, corri três casas adiante e ele veio na minha direção, me abraçou em silêncio. Pedi um trago do cigarro. Ele me lembrou que no próximo final de semana iria me visitar. Respondi no máximo um “tá”, e nos beijamos – era o que a gente mais fazia. Ele tinha que ir trabalhar, fazia o turno da noite para ganhar um extra. Queria me despedir dele e dos amigos, mas aos 17 anos a gente não sabe bem como fazer isso. Alguns deles estavam logo ali, sentados no meio fio da praça. Fabiano, sentado na rua, tronco jogado para trás, apoiado nas mãos, brincando com os chinelos que calçava. Eram uns cinco, não havia nenhuma menina. Tinha uma bola ali encostada. Estavam mais quietos que de costume. Assim de short sem camisa, como antes de entrar para tomar banho e jantar, bem magros, bem jovens, bem entrosados. Hoje eu apostaria que estavam vendo nossa movimentação.

Nos treze anos morando ali, não vi ninguém se mudar para mais longe que o bairro ao lado. Na rua de baixo da praça estava o seu João, sentado em frente à sua casa, numa cadeira virada ao contrário, com os braços apoiados no encosto, fumando o cigarro de sempre. Não sei se seu passatempo eram as tragadas ou observar a gente. Tinha dois filhos e uma filha. Hoje penso que ele sabia de todos os segredos escondidos na praça, e que estava ali para nos proteger. Trabalhava como segurança. Na casa ao lado também eram dois meninos e uma menina. Uma mãe que nos vigiava da janela de vidro da cozinha. Ai de nós! Uma vez ela me levou no carnaval do clube e me proibiu de fumar e beijar. Me pegou fazendo as duas coisas. Ai de mim! Na casa seguinte, mais duas meninas. O pai delas gostava de montar telescópio e fez nossa infância ir até os planetas. Mas quando as meninas cresceram, ele não as deixava olhar para o lado.

Eu morava na parte de cima da praça, com minha mãe, pai e duas irmãs. Meu pai não ligava de os meninos baterem bola no muro. Deixava-os entrar para pegar a bola e, até no telhado, eles subiam para pegar pipa. Assim, a frente da minha casa sempre foi um ponto de encontro. Bola, bets, mamãe da rua, pega ladrão, stop. Meu pai costumava dizer que bastava assoviar para que aparecessem 40 crianças. Para todas elas ele colocou uma piscina em casa. Era a única piscina da rua. Corria o boato de que quando a gente viajava, os meninos pulavam o muro para nadar. Só uma mureta dividia minha casa da casa da vizinha. Uma menina que, desde muito nova, ficava sozinha em casa. Pulávamos muito o muro de cá para lá, de lá para cá. Foi lá um dos nossos primeiros bailinhos: música e luz apagada na cozinha. Dancei a noite toda com o mesmo menino cuja orelha de abano encostava gelada em meu rosto. Ele sempre me pedia em namoro, eu sempre pedia para pensar, e sempre dizia que não. Um dia me disse que eu não aceitava porque não sabia beijar, neguei. Aí veio com a pergunta fatídica: “então por que a gente fecha o olho quando beija?” Me senti numa sinuca de bico. Sorte a minha, ele mesmo respondeu, “para dar mais emoção”. Aí começaram as domingueiras. Meu pai levava e buscava, mas eu queria voltar de ônibus. Ouvíamos música no meu som, em frente de casa. Arriscávamos uns passinhos de dança na rua. Depois veio o violão,  meninos de outra rua, o vinho escondido. Veio Odara, Qualquer Coisa, Vaca Profana, dá-lhe Caetano.

De certa forma, tinha uma graça em ser a que está saindo, a que vai viver algo novo. Eu intuía o mundo que viria pela frente, mas não podia imaginar o tamanho da ruptura. Não podia imaginar que tudo aquilo se dissiparia de minha vida tão rapidamente. Não demorou nada para eu terminar com o namorado – bastou ele aparecer de macacão branco numa das visitas. Foi assim, sem dramas, que tudo mudou. Naquele dia também não me despedi da casa. Não conseguia conceber que ela não seria mais nossa. Sonho com ela até hoje. Fechamos as portas. Eu e minhas irmãs no banco de trás, esperando a partida. Como se não bastasse, meu pai quis descer do carro para conferir o cadeado do portão. Fiquei com mais raiva dele ainda. Mas estava quieta naquele dia. Não gritei: “bem agora que estou namorando?!” Era quase como se estivéssemos indo ao supermercado. Meu pai ligou o Corcel II verde, que começou a andar vagarosamente. Olhei para trás. Para minha surpresa os meninos sentados no chão olhavam para a gente. Senti, bem ali na barriga, uma coisa que até hoje não sei bem o que é.

 

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2 comentários sobre “Mudança

  1. Emocionante e lindo ter vivido o antes e o depois da mudança com você, amiga linda! Também sentir o aperto e fazer nem sei quantas vezes o trecho Ribeirão/Campinas/Ribeirão.

    Agora nos toca trechos maiores, mas mais lindos! Com certeza!

    Love you!
    A filha da mãe do vitrô (que só parece brava, mas não me deixava perder um carnaval)

    Curtido por 2 pessoas

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