Escrevi sobre a entrega do parto normal mas muito rapidamente me entreguei à cesárea. De um lado a médica, de outro a doula. Em meio à noite, ao líquido escorrendo, às contrações, em meio ao frio, no meio de um “não aguento mais”, de um “vamos resolver logo”, de um medo do desconhecido que seria a espera, em meio à falta de garantias, em meio a isso e mais um pouco, pendi para um lado, precisando muito da força do outro. Pois bem, fui feliz para a cesárea. A doula segurando minha mão, o marido ali presente e… Nosso filho nasceu! Está tudo bem com ele? Sim, está tudo bem! E dra., tudo bem aí embaixo? Aqui? Tudo ótimo! Assim fui para a recuperação me recuperar super bem. Eu estava tão feliz! Feliz inclusive com a cirurgia. Decisão certa. Está tudo bem! Olha como ele é lindo! Que delícia. Mas aí… Me levaram para o quarto. Um quarto quadrado. Fiquei ali dois dias e meio. Sem ver a luz do sol. Mais de 48h no ar condicionado. Depois de 24h virei uma leoa. Presa. Pense. Uma vontade de pegar meu filho e sair por aí! Mostrar para ele o mundo que eu queria mostrar para ele – e que não tinha nada a ver com aquele quarto feio. Mas eu estava ali. Pessoas entrando de 20 em 20 minutos, inclusive durante a noite, para dar remédios (eu não poderia tomá-los em casa?), para dar banho em mim (meu marido faria isso muito bem!), para dar banho no meu filho (não importava se ele estivesse dormindo ou no peito), para fazer testes (não podemos fazer isso depois?), inclusive para tocar um agogô no ouvido dele e dizer que a audição dele está ok. Como assim? Que teste é esse? Ah, e para colocar termômetro no meu sovaco, hahaha, putz. Nada que eu via fazia sentido. E foi aí, somente aí, que entendi porque as pessoas querem parto normal em casa. Antes o problema fosse a cesárea! Mas é um pacote. Um pacote que te persegue até a saída da maternidade. O dia da alta não passava. Conseguimos ser liberados somente depois das 15h, eu finalmente estava pronta para pegá-lo no colo e sair correndo!! Mas não… O protocolo é ele sair dentro de um berço de plástico carregado por uma funcionária. E na porta do elevador ela diz: o quartinho está esperando por ele? Não, quem o espera é a avó e o irmão. Não vale a pena mencionar tudo, o texto ficaria tão enfadonho quanto o quarto. Mas saí de lá compreendendo muito as mulheres que têm seus filhos em casa, e que depois do nascimento se jogam na cama, em família.

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6 comentários sobre “O Negócio do Parto

  1. Pois é, Vi, e tudo vai pelo caminho do que você escreveu antes: retornar ao natural. Há quanto tempo deixamos de parir, de dar o peito, de ser mamíferos? Sejamos mamíferos! Cria debaixo da teta, mamando e ninguém se aproxime que a leoa ruge.

    Amo vocês!

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  2. Vi, que relato mais sincero e humano! Na época em que minha filha nasceu, por uma cesárea que eu sempre acreditei ser necessária, eu não tinha essa consciência. Era tudo novidade. Eu era muito jovem. Não tinha ideia do “negócio” do parto. Fiquei feliz os dias no quarto de hospital, sem questionar o que hoje eu questionaria. Eu não era defensora de parto normal, pois para mim esse era o jeito natural de nascer. Não precisava de ativismo. Só seria feita uma cirurgia se fosse necessária. Hoje, dezoito anos depois, eu vejo o negócio do parto. E vejo mesmo, literalmente, fotografando nascimentos. E foi de tanto ver esse pacote que você relatou que resolvi voltar meus olhos para outras formas de receber um bebê. Não sou ativista, não levanto bandeiras, mas me encantei com a natureza que presenciei algumas vezes. Tudo parece fazer sentido.
    Obrigada por compartilhar palavras tão íntimas! E siga leoa, lambendo suas crias.
    Beijo

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    1. Oi Ana! Eu também! Quando Inácio nasceu eu me senti muito bem nos dois dias de hospital. Era como se estivéssemos seguros com todos os cuidados médicos. Já dessa vez… Sabe, o segundo filho deveria mesmo vir antes do primeiro 😉. Além disso, toda a campanha em torno do parto normal ajuda nessa relativização do aparato médico. É importante falarmos sobre tudo isso, com ativismo ou sem. E suas fotos contribuem demais! Um beijo enorme para você!

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