Escape

Escape

Escape

Morgana se olhou no espelho. Ajeitou alguns fios de cabelo para que ficassem uniformemente presos em seu coque baixo. Olhou para a boca avermelhada pelo batom e passou a língua nos lábios, como quem saboreia o resto de uma calda. Depois, passou um tempo mirando seus olhos. Sentiu-se sobrevivente de seus quarenta anos de casada – que seriam comemorados naquela noite. Ulisses estava no primeiro andar do apartamento, bebendo algum uísque que não tinha dinheiro para pagar. Ela deu um último suspiro, olhando para o espelho, e se levantou. Precisava encarar aquela noite. Foi para a cozinha verificar se estava tudo encaminhado. Queria que a festa corresse normalmente. Serviu-se de uma taça de espumante e deu um gole fechando os olhos, sentindo, por um momento, o líquido gelado e efervescente em sua boca. Foi para a sala como um lutador que adentra o ringue. Sentou-se numa poltrona de um amarelo suave. Ele estava num banco mais alto, logo atrás. Estavam sem conversar há três dias, ela não sabia o motivo. Morgana já não se descabelava com as oscilações de humor dele.

A voz forte de Ulisses perguntou se a irmã dela e o marido viriam, ela respondeu que sim. “Comunista filho da puta”, ele disse. “Vai começar o desfiladeiro de obscenidades”, pensou Morgana sorvendo mais um gole. “Comunista que bebe uísque e que mama nas tetas do Estado…”. O interfone interrompeu. Chegou a primeira convidada, Alice, uma amiga da anfitriã da época da faculdade. Disse baixinho no ouvido de Morgana enquanto a abraçava: “essa noite eu tinha que ser a primeira”. Morgana deu um sorriso para acalmar a amiga. Abraçaram-se novamente. Ulisses não se levantou, como sempre. Sentaram-se os três e Alice os parabenizou pelos anos de casados: “algo tão raro e difícil nos dias de hoje”. Ulisses retrucou: “Não é tão difícil assim”. Alice não tinha se casado e Ulisses a chamava de “tia” quando ela não estava. “Não é tão difícil com uma mulher como ela”, completou Alice. Todos concordaram sorrindo. Daí em diante, os convidados começaram a chegar.

Fazia anos que Morgana não suportava os amigos dele. Sempre muito cordial, preferia sorrir a dizer o que realmente pensava sobre os assuntos conversados. Não precisava dissimular por muito tempo, já que as mulheres desses maridos, entre as quais se esperava que ela estivesse, sentavam um pouco afastadas dos homens. Morgana nunca entendeu como não se desenvolvia um assunto ali. Ela se esforçava para sorrir entre as mulheres, mas o tédio quase a impedia.

Ulisses, curiosamente, passava mais tempo com os amigos dela que com os dele. Era com eles que se embebedava e chegava ao fim da festa. Conversavam especialmente sobre política. Ele não xingava ninguém de comunista filho da puta – só para Morgana ele fazia isso – mas falava mais alto e tinha um tom ameaçador ao emitir sua opinião. Morgana sempre procurava abrandar as discussões, servindo algo para comer, tentando inserir outros pequenos assuntos na conversa. Não se metia a discutir política, mas amava ouvir seu cunhado falar. Com sua irmã, nunca faltava assunto e afeto, muito embora ela não fizesse ideia do que se passaria naquela noite.

Morgana conversava com ela quando Ulisses disse alto: “Atenção, atenção! Eu quero dizer algumas palavras sobre o motivo disso tudo: não sou eu, nem nosso casamento, é ela!”. Estendeu a mão na direção de Morgana: “Vem cá!”. Ela não se mexeu, ele repetiu “vem cá!”, agora num tom incisivo que foi amenizado pelos convidados que corroboravam para que ela fosse até o marido. As pernas e o sorriso de Morgana fraquejaram quando ela imaginou que ele soubesse alguma coisa. Foi ele quem caminhou e retirou do bolso uma caixa pequena: “para o grande amor de minha vida”. O medo transformou-se em incredulidade e o sorriso continuou ausente. Achou vulgar ser presenteada em público. Abriu envergonhada a caixa que continha um anel de rubi. “Como ele pagou por isso?” – foi o primeiro pensamento dela. Imediatamente, foi desafiada pelo coro: “Discurso, discurso!”. Ao dar mais um gole em sua bebida, percebeu que estava com a mão trêmula. Tinha que falar alguma coisa, qualquer coisa. Em meio a um branco, enxergou apenas seu marido. Com a joia no dedo, apoiou suavemente a mão no rosto dele, e disse: “Obrigada”. Sorriu. O lábio superior tremeu levemente.

Ele dormiu bêbado, do modo como ela esperava. Dessa vez, ela não vestiu a camisola, nem tirou a maquiagem. Foi para o closet e retirou lá do alto uma mala que já estava pronta. Olhou para ele e não sentiu vontade de ficar. Deixou sobre o criado mudo um bilhete: “Ulisses: um de nós teria que ter coragem. Nos poupo de explicações desnecessárias. Por favor, aguarde que eu contarei aos mais próximos. Morgana”. Abriu a porta do quarto silenciosamente. Foi descendo as escadas com a bolsa no ombro e a mala nas mãos. Ouvia cada respiração e cada barulho de suas passadas. Lembrou-se de seu pai dizendo que era bobagem uma mulher querer viver sozinha. Foi a primeira vez que os olhos se encheram de lágrimas. Pensou no filho, que tantas vezes dissera para ela se separar. Sorriu enquanto chorava. Abriu a porta do apartamento e daí em diante tomou fôlego. Alice a esperava e a deixaria em um hotel. No carro, Morgana observava a noite, mal ouvia o que sua amiga falava, apenas respirava tranquila com um sorriso na ponta dos lábios.

Glorious Feeling

Glorious Feeling

Heitor saiu do banho, enxugou-se e nem se olhou no espelho. Ele não costumava se olhar no espelho. Espirrou o desodorante. Era o único produto em cima de sua pia, além da pasta e escova de dentes. Saiu do banheiro e abriu a porta do guarda roupa. Somente camisas claras de manga curta e com bolso – onde ele costumava guardar o maço de cigarros. Vestiu uma camisa, bermuda, chinelos e foi ler seu livro. Estava com 65 anos. Vivia separado de sua esposa e tinha duas filhas. Morava sozinho. Sua casa tinha apenas o essencial: sofá, mesa, cadeiras, televisão. Nenhum objeto de decoração, nenhum vaso ou quadro. Tinha uma estante de livros. Passava boa parte de seu tempo lendo. Na cabeceira da mesa de jantar ficava a obra em leitura. Sentou-se. Em cima da mesa, estava um colar de pedras azuis que sua filha havia esquecido. Conversou com ela algumas vezes ao telefone, mas nada dissera sobre o colar. Pensou que era preguiça de falar. Heitor não sabia se estava entediado ou deprimido, mas andava economizando saliva. Não tinha paciência com as pessoas, ultimamente, elas o enfadavam.

Enquanto lia, ficou mexendo nas pedras do colar, como das últimas vezes. Mas, dessa vez, ele focou o objeto enroscado em seus dedos. Reparou no contraste do azul com sua pele. Foi sem pensar que ele se levantou e foi com o colar para o banheiro. Parou em frente ao espelho. Segurando pelas extremidades, apoiou o colar em seu pescoço, mas o colarinho da camisa atrapalhou. Abriu alguns botões, depois todos, e tirou a camisa. Subiu o adereço do peito ao colo e sentiu as pedras geladas. Realinhou seu corpo e se observou no espelho. Trancou a porta rapidamente. Lembrou de quando estava no auge da puberdade. Riu de si mesmo, “nada disso faz sentido”. Manteve a porta trancada e tentou fechar o colar na nuca. Percebeu que não tinha a menor habilidade para isso. “O que estou fazendo, afinal?”. Deixou o colar sobre a pia e voltou para o seu livro. Leu meia página, seu olhar vagueou pelas letras. Leu mais uma página e meia. Voltou ao banheiro. Queria fechar aquele gancho. Tentou de todas as maneiras, até que, “clic”, conseguiu. Sentiu o peso das pedras. Viu-se iluminado e sentiu-se mais moço. Virou-se de um lado, do outro. Contemplou-se. Achou aquilo insólito e resolveu retirar o penduricalho.

Não conseguiu na primeira tentativa, nem na segunda, nem na terceira. Sentiu um frio na barriga, imaginando se alguém aparecesse por ali. Lembrou-se de que quase nunca recebia visitas e que, ainda assim, o telefone tocaria antes, bastava não atender. Novamente, sentiu-se mais jovem. “Mas que ideia”, disse baixinho. Levantou o olhar para o espelho e sorriu um sorriso novo, apertando os lábios. Abriu a torneira, molhou as mãos e as passou pelos cabelos lentamente, deixando seus fios mais escuros, mais molhados e esticados para trás. Fazia tempo que não se olhava com interesse. Pegou a toalha de banho branca e enrolou na cintura. Depois, enrolou-a um pouco mais acima, na altura do peito. Ele precisava de seus braços e mãos para que ela não caísse. Com esse traje, foi dar uma volta pela casa: “com duas filhas, pode haver mais alguma coisa esquecida”. Foi na área de serviço que encontrou um casaquinho vermelho e uma sombrinha, deixados pela faxineira.

Voltou para o banheiro com as peças. O casaco vestiu apertado e torto em seus braços. Não importava, o vermelho e o azul das pedras mexeram com ele. Abriu a sombrinha, mas ela mal cabia naquele espaço. Começou a andar pela casa cantando lentamente: “I’m singing in the rain, just singing’ in the rain, what a glorious feeling, I’m happy again…”. Lembrou-se do filme Laranja Mecânica e pensou: “enlouqueci de vez e nem matei ninguém”. Assoviou, como no filme. Continuou deslizando e cantarolando pela sala até que as lágrimas apareceram. Repetiu algumas vezes: “I’m happy again…”. Sentou-se no sofá, “I’m happy again”. Deixou-se chorar, apenas. Deitou e foi se encolhendo, juntou os joelhos ao peito, manteve as mãos nos olhos. Tudo ficou escuro e ele permaneceu em silêncio, por um minuto. Tremeu algumas vezes e sentiu a ponta dos dedos formigar. Ateve-se à respiração. Sentiu-se acolhido pelo casaco vermelho. Acalmou-se. Voltou a sentar-se vagarosamente e, com a palma da mão virada para fora, enxugou as suas lágrimas.

Ao se levantar, estava mais leve. Mexeu os dedos dos pés e das mãos. Jogou o pescoço para trás e girou a cabeça de um lado para outro. Tudo parecia estar ali. Respirou fundo. Esticou uma das pernas à frente e começou a caminhar, apoiando, não os calcanhares, mas a ponta dos pés. Sentiu a propulsão de seu corpo. Notou a força que fazia na panturrilha e, para se equilibrar, teve de prender a barriga. Tentou caminhar apoiando um pé na frente do outro: “andar de pernas abertas, nem pensar!”. As mãos foram parar na cintura. No início, ele mal respirava, depois foi ajustando a respiração aos novos passos. Deixou de olhar para os pés. Aquela imagem já não lhe agradava. Mirou um ponto qualquer na parede. E foi assim que ele chegou ao seu lugar preferido da casa, a cabeceira da mesa de jantar. Arrastou a cadeira antes de sentar-se, precisava de espaço. Foi se sentando devagar com as pernas próximas uma da outra. Voltou a ler o livro. Dessa vez, não prestou tanta atenção aos personagens, estava muito ocupado com seus próprios movimentos.

 

Brincando de rimar

Brincando de rimar

Era madrugada

Eu estava calada

Deitada e pelada

Me sentido amada

Mesmo com a palmada

 

Já estava viciada

Em ser maltratada

 

A noite estava estrelada

Bem ventilada

O vento trouxe uma fada

Meio azulada

 

Pensei estar pirada

Joguei uma almofada

Na fada penteada

 

Ela disse: “desmiolada!

Para de ser alienada!

Pega sua estrada!

Segue a lua prateada!”

 

Achei que era piada

Da fada emaconhada

 

Ainda ouvi da safada:

“Você está enrolada

Ouve a minha chamada”

 

Fiquei encafifada

Depois emocionada

Com a fada bem intencionada

Comigo tão preocupada

 

Juntei a papelada

Me senti empoderada 

Uma mulher emancipada

 

Fui para a calçada

Percebi que a vida é nada

Sem a gente ser amada

Confinamento

Confinamento

Eram nove horas. Ele disse que chegaria às oito. Ela já tinha acendido dois cigarros, estava fumando o último deles na janela. Pensou que poderia ligar para alguém, talvez para uma amiga que adorava beber chope às sextas. Pegou o celular, passou pelos contatos devagar, abrindo alguns deles. Ligou para ele novamente, e nada. Voltou para a agenda e rolou de A a Z. Antes de desistir, parou no nome dele, “só mais uma vez”, pensou. Nada. 

Foi novamente se olhar no espelho. Levantou a blusa e ajeitou os seios pequenos no sutiã de bojo rosa que havia comprado. Ele deixava sua blusa com mais volume, ela gostava. Se achou tão linda. A calcinha combinava. Ela procurou um brinco mais bonito. Ficou experimentando um após o outro na frente do espelho. Até que arremessou um deles na parede. Olhou de novo no celular. Acendeu mais um cigarro na janela. Se sentia presa naquela quitinete. Não tinha nada para beber.

Sua garganta parecia fechada, como se houvesse um nó enorme ali. Pensou em descer, comprar uma cerveja, mas estava tão sem dinheiro. A garganta fechou mais ainda. Piscou seus olhos e vazaram duas, quatro ou seis lágrimas. Derramou-se no chão e ficou ali por um tempo.

Levantou e se olhou longamente no pequeno espelho do banheiro. Primeiro viu beleza em sua tristeza. Seus olhos ficavam ainda mais claros e sua boca avermelhada. Parecia uma princesa. Depois, continuou se olhando e não se reconheceu mais. Aquele corpo não parecia seu. Por um segundo sentiu tudo girar.

Olhou no relógio, quase dez horas. Teve vontade de explodir. Se jogou na cama. Não cabia mais angústia dentro dela. Não sabia o que fazer. Quanto mais chorava, menos sentia seu corpo e mais sua cabeça pesava e girava. Chorou tanto que a janela saiu do lugar. O teto também se moveu.

Virou-se de lado e sentou-se lentamente. Segurou o telefone. Previu que ele não atenderia e sentiu medo do vazio. Pensou em abrir a mão e deixar o celular cair no chão. Pensou em deitar e ficar ali até dormir. Não conseguiu.

Ligou. Nada. Largou o telefone no chão e nem pensou em gritar. Correu três passos até a janela. Apoiou um pé e as duas mãos no parapeito. Bastou um impulso para seu corpo explodir no ar quente daquela noite.

Voltas Femininas

Voltas Femininas

Luiza fez psicologia, mas não virou psicóloga. Era sensível demais para ouvir, apenas. Ela tinha que fotografar a dor, o suor, a persistência, o grito e a lágrima da mãe tendo filho. Não há Freud neste mundo que tenha visto tanto homem impotente. Luiza focaliza mulheres parindo famílias inteiras.

Isabela duvidava que seria amada por um homem em sua vida. Aos 29 tinha doutorado. Cansou de escrever monografia, dissertação, tese e artigo. Queria mais afeto em sua vida. Casou e teve dois meninos. Teve também uma crise de ansiedade. Começou a decifrar os sonhos que tumultuavam suas noites. Agora, Isabela escreve absolutamente o que quer, e é incansavelmente amada por três.

Patrícia, filha de militar. Quando percebeu que não precisava agradar ninguém, mas apenas amar suas filhas, largou o emprego, engordou e ficou leve. De tanto querer bem, passou a costurar e a cozinhar. Montou dois negócios e passou os dois para frente. Farinhas e linhas não eram seu sonho. Continuou sendo mãe e revirando seu avesso. Encontrou o que estava bem ali. Hoje, Patrícia ajuda outras mulheres a viverem a maternidade.

Luciana perdeu sua mãe aos 17 e passou a amar seu pai em dobro. Estudou direito e aos 30 chefiava 15 advogados. Tomou um susto quando descobriu pressão alta aos 35. Pensou no que realmente queria da vida. Foi parar num banco de esperma. Pediu demissão. Comprou uma casa – perto da casa de seu pai. Luciana não tem respondido a nenhum WhatsApp. Está muito ocupada com as gêmeas.

Mariana estudou letras, fez doutorado, foi para o exterior. Era uma funcionária pública estável quando perdeu o fôlego perdendo seu filho. De seu pensamento fecundo brotaram duas meninas e a instável felicidade de escrever e ensinar.  Ela também começou a nadar. Mariana pode atravessar o oceano e dar a volta ao mundo fazendo apenas o que gosta.

 

Mudança

Mudança

A casa já estava vazia. A gente tinha comido uma pizza sentados no chão. Eu queria ir para a rua, mas meu pai falou que não dava mais tempo. “Que saco!”, eu disse. Ainda tínhamos quatro horas de viagem pela frente. Ajudei a carregar o carro com tudo o que não fora no caminhão de mudanças. Desci com uma samambaia da minha mãe, “mais comprida que meu cabelo”, pensei. Depois, com meu som “dois em um”. Andava ouvindo uma fita K7 dos Ramones, Loco Life. Numa das idas até a garagem, corri três casas adiante e ele veio na minha direção, me abraçou em silêncio. Pedi um trago do cigarro. Ele me lembrou que no próximo final de semana iria me visitar. Respondi no máximo um “tá”, e nos beijamos – era o que a gente mais fazia. Ele tinha que ir trabalhar, fazia o turno da noite para ganhar um extra. Queria me despedir dele e dos amigos, mas aos 17 anos a gente não sabe bem como fazer isso. Alguns deles estavam logo ali, sentados no meio fio da praça. Fabiano, sentado na rua, tronco jogado para trás, apoiado nas mãos, brincando com os chinelos que calçava. Eram uns cinco, não havia nenhuma menina. Tinha uma bola ali encostada. Estavam mais quietos que de costume. Assim de short sem camisa, como antes de entrar para tomar banho e jantar, bem magros, bem jovens, bem entrosados. Hoje eu apostaria que estavam vendo nossa movimentação.

Nos treze anos morando ali, não vi ninguém se mudar para mais longe que o bairro ao lado. Na rua de baixo da praça estava o seu João, sentado em frente à sua casa, numa cadeira virada ao contrário, com os braços apoiados no encosto, fumando o cigarro de sempre. Não sei se seu passatempo eram as tragadas ou observar a gente. Tinha dois filhos e uma filha. Hoje penso que ele sabia de todos os segredos escondidos na praça, e que estava ali para nos proteger. Trabalhava como segurança. Na casa ao lado também eram dois meninos e uma menina. Uma mãe que nos vigiava da janela de vidro da cozinha. Ai de nós! Uma vez ela me levou no carnaval do clube e me proibiu de fumar e beijar. Me pegou fazendo as duas coisas. Ai de mim! Na casa seguinte, mais duas meninas. O pai delas gostava de montar telescópio e fez nossa infância ir até os planetas. Mas quando as meninas cresceram, ele não as deixava olhar para o lado.

Eu morava na parte de cima da praça, com minha mãe, pai e duas irmãs. Meu pai não ligava de os meninos baterem bola no muro. Deixava-os entrar para pegar a bola e, até no telhado, eles subiam para pegar pipa. Assim, a frente da minha casa sempre foi um ponto de encontro. Bola, bets, mamãe da rua, pega ladrão, stop. Meu pai costumava dizer que bastava assoviar para que aparecessem 40 crianças. Para todas elas ele colocou uma piscina em casa. Era a única piscina da rua. Corria o boato de que quando a gente viajava, os meninos pulavam o muro para nadar. Só uma mureta dividia minha casa da casa da vizinha. Uma menina que, desde muito nova, ficava sozinha em casa. Pulávamos muito o muro de cá para lá, de lá para cá. Foi lá um dos nossos primeiros bailinhos: música e luz apagada na cozinha. Dancei a noite toda com o mesmo menino cuja orelha de abano encostava gelada em meu rosto. Ele sempre me pedia em namoro, eu sempre pedia para pensar, e sempre dizia que não. Um dia me disse que eu não aceitava porque não sabia beijar, neguei. Aí veio com a pergunta fatídica: “então por que a gente fecha o olho quando beija?” Me senti numa sinuca de bico. Sorte a minha, ele mesmo respondeu, “para dar mais emoção”. Aí começaram as domingueiras. Meu pai levava e buscava, mas eu queria voltar de ônibus. Ouvíamos música no meu som, em frente de casa. Arriscávamos uns passinhos de dança na rua. Depois veio o violão,  meninos de outra rua, o vinho escondido. Veio Odara, Qualquer Coisa, Vaca Profana, dá-lhe Caetano.

De certa forma, tinha uma graça em ser a que está saindo, a que vai viver algo novo. Eu intuía o mundo que viria pela frente, mas não podia imaginar o tamanho da ruptura. Não podia imaginar que tudo aquilo se dissiparia de minha vida tão rapidamente. Não demorou nada para eu terminar com o namorado – bastou ele aparecer de macacão branco numa das visitas. Foi assim, sem dramas, que tudo mudou. Naquele dia também não me despedi da casa. Não conseguia conceber que ela não seria mais nossa. Sonho com ela até hoje. Fechamos as portas. Eu e minhas irmãs no banco de trás, esperando a partida. Como se não bastasse, meu pai quis descer do carro para conferir o cadeado do portão. Fiquei com mais raiva dele ainda. Mas estava quieta naquele dia. Não gritei: “bem agora que estou namorando?!” Era quase como se estivéssemos indo ao supermercado. Meu pai ligou o Corcel II verde, que começou a andar vagarosamente. Olhei para trás. Para minha surpresa os meninos sentados no chão olhavam para a gente. Senti, bem ali na barriga, uma coisa que até hoje não sei bem o que é.

 

Rio-Brasília

Rio-Brasília

Sobrevoava o Rio de Janeiro. Um Rio sem Cristo, sem morro, sem Pão de Açúcar, sem praia. Uma cidade tranquila, e de tão tranquila e longe do mar, se parecia mais com Brasília. As copas das árvores floridas em linha reta. Seria a Paissandú? Não, era a longa proporção brasiliense. O voo tinha uma paz que não se encontra no céu carioca, onde o êxtase e o deslumbramento não dão sossego. No Rio, o frenesi vai até o céu aporrinhar Cristo. Vê se pode? O sonho era calmo, era deleite, era azul. Azul candango de alta resolução. Nada da imensidão azulada que se avista da Orla, de Santa, daqui, de acolá. Também havia silêncio no sobrevoo. Apenas o canto de pássaros, como apitos tocados por crianças, ora de maneira mais fraca, ora de modo entrecortado, ora assopros pequeninos. Não se lembrava de ter ouvido tantos pássaros na Zona Sul como ouve na Asa Norte. Só podia ser Brasília naquela noite. Não ouviu gritos, não ouviu choro, não viu ninguém transando, não havia dor ou medo, não tinha cigarro, nem bebida. Não sentiu ansiedade nem obsessão. Foi o voo mais amoroso do mundo. Finalmente, dez anos depois de entrar na cidade, sentia que agora era a vez de a cidade entrar em sua vida. Nunca é tarde para entender que a Capital mudou de lugar. A velha sede já era. Os episódios estão no Planalto Central e não na Central Globo de Produções. Mas, então, por que ainda pensar que era o Rio de Janeiro? Ah, o Rio não sai assim tão fácil dos sonhos de alguém.

 

O Poeta

O Poeta

Num dia comum, ninguém diria que ele nasceu para a poesia. Lidava com a vida e com a morte, dentro de uma ambulância. Mas era sem a touca branca que seus cabelos se expandiam, e sua mente brincava com as palavras. Sem a máscara, sua boca declamava. Sem o uniforme hermético seu corpo mimetizava. E era assim, despido, que ele mergulhava na piscina literária. Ali ele nadava de braçada, mergulhava e boiava no mais perfeito dia, com a mais perfeita luz. Sem eira nem beira, ele desfrutava a fluidez.

Até que a água se agitou sem motivo aparente. Ele parou de boiar e viu, do lado de fora, uma pessoa. “Minha mãe?” O sol passou a atrapalhar sua visão. Um segundo agito, mais forte, fez entrar água em seu nariz e ele quase engasgou as palavras. Ainda recuperando o ar, percebeu mais olhares. A família inteira, amigos, e quem ele até não conhecia. Uma multidão. Uma onda agigantou-se à sua frente. E outra, e outras. Seu corpo ficou tenso na expectativa de saber para onde fugir. “O que querem de mim?” Sua boca fechada. Sua mente desejou sair dali e vestir seu uniforme, a ambulância lhe pareceu um lugar seguro.

O poeta, sensível que era, sentiu que deveria fugir dos olhares alheios. Quanto mais fundo mergulhasse, mais livre estaria. Deep inside. Mergulhou. Sentiu o vazio. Sentiu medo. Achou que não voltaria. Mas foi ali, num lugar onde não chega nada, além de seu próprio desejo, que ele começou a ouvir um piiiiiiiiiiii. Pirado. Pirotécnico. As palavras não paravam de vir à sua mente. E foi pensando em rimas, ritmo, aliterações, versos e estrofes que ele voltou à superfície esbanjando poesia! Se havia uma multidão olhando, ele nem reparou.

Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Quando o Inácio me visitou pela primeira vez na maternidade, recebi dele um olhar longo, novo e talvez único. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: “mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… Como devo agir?” Me senti angustiada. “O que foi que aconteceu?” Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. O dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros, sons, tamanhos, cabelos.

O Negócio do Parto

O Negócio do Parto

Escrevi sobre a entrega do parto normal mas muito rapidamente me entreguei à cesárea. De um lado a médica, de outro a doula. Em meio à noite, ao líquido escorrendo, às contrações, em meio ao frio, no meio de um “não aguento mais”, de um “vamos resolver logo”, de um medo do desconhecido que seria a espera, em meio à falta de garantias, em meio a isso e mais um pouco, pendi para um lado, precisando muito da força do outro. Pois bem, fui feliz para a cesárea. A doula segurando minha mão, o marido ali presente e… Nosso filho nasceu! Está tudo bem com ele? Sim, está tudo bem! E dra., tudo bem aí embaixo? Aqui? Tudo ótimo! Assim fui para a recuperação me recuperar super bem. Eu estava tão feliz! Feliz inclusive com a cirurgia. Decisão certa. Está tudo bem! Olha como ele é lindo! Que delícia. Mas aí… Me levaram para o quarto. Um quarto quadrado. Fiquei ali dois dias e meio. Sem ver a luz do sol. Mais de 48h no ar condicionado. Depois de 24h virei uma leoa. Presa. Pense. Uma vontade de pegar meu filho e sair por aí! Mostrar para ele o mundo que eu queria mostrar para ele – e que não tinha nada a ver com aquele quarto feio. Mas eu estava ali. Pessoas entrando de 20 em 20 minutos, inclusive durante a noite, para dar remédios (eu não poderia tomá-los em casa?), para dar banho em mim (meu marido faria isso muito bem!), para dar banho no meu filho (não importava se ele estivesse dormindo ou no peito), para fazer testes (não podemos fazer isso depois?), inclusive para tocar um agogô no ouvido dele e dizer que a audição dele está ok. Como assim? Que teste é esse? Ah, e para colocar termômetro no meu sovaco, hahaha, putz. Nada que eu via fazia sentido. E foi aí, somente aí, que entendi porque as pessoas querem parto normal em casa. Antes o problema fosse a cesárea! Mas é um pacote. Um pacote que te persegue até a saída da maternidade. O dia da alta não passava. Conseguimos ser liberados somente depois das 15h, eu finalmente estava pronta para pegá-lo no colo e sair correndo!! Mas não… O protocolo é ele sair dentro de um berço de plástico carregado por uma funcionária. E na porta do elevador ela diz: o quartinho está esperando por ele? Não, quem o espera é a avó e o irmão. Não vale a pena mencionar tudo, o texto ficaria tão enfadonho quanto o quarto. Mas saí de lá compreendendo muito as mulheres que têm seus filhos em casa, e que depois do nascimento se jogam na cama, em família.