Sombras

Sombras

Há algum tempo li um trecho da Alegoria da Caverna e, pela primeira vez, Platão foi fazendo sentido para mim.

“Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente.”

Essa frase ficou em minha cabeça: “todos os movimentos o fariam sofrer”. Quando a gente se movimenta, dói? Só depois de passar muito tempo parado. Aí parece que tem ferrugem nas articulações. Mas o próprio movimento parece que vai lubrificando tudo, até que a gente começa a respirar junto com a batida do coração. Nosso corpo vai transpirando com as passadas. Espera: o cara saiu da caverna e começou a correr? Talvez nem soubesse o que é isso, de tão parado que estava. Platão falou em levantar, virar a cabeça e andar. Levantar, virar a cabeça e andar. Definitivamente não estava falando do cara sedentário que sai correndo.

Acho que falava de um cara vendo televisão, trancado num quarto, olhando sem piscar para aquelas sombras. As imagens falavam com ele e, de tanto que falavam, ele acabava sonhando com elas. Pelo menos isso. Se não tivesse nem isso, morreria. Não sobraria nada. Então ele ficava, confortável, ali naquela poltrona do papai. Por falar em papai, acho que esse cara estava na casa do pai e da mãe dele. Não tinha sido ele quem tinha comprado essa poltrona. Nem sequer sabia a cor dela. E olha que estava sentado ali há muito tempo. Talvez 30 anos, talvez mais. Nem ele sabia, andava sem tempo para pensar: era um programa atrás do outro.

Não imaginava que seria forçado a sair dali. Platão disse isso. Pois é, foi num dia em que seu pai começou, subitamente, a esmurrar a porta dizendo que ia matá-lo.  Ele virou a cabeça, da TV para a porta. Doeu. Parecia que a porta ia cair. Seus olhos ganharam uma expressão apertada, ele segurou firme na poltrona, sentiu o tecido endurecido pelo ressecamento do tempo. Seu corpo todo tremeu. Lembrou-se que tinha corpo. Sentiu algo estranho batendo dentro dele. Não sabia para onde ir, mal conhecia aquele quarto. Pensou que sua única opção seria matar o pai, antes que ele o matasse.

Mas viu a janela e aquela luz amarela entrando pelos frisos. Foi forçado a se levantar. Sentiu medo de enfrentar o pai, sentiu medo de abrir a janela – não fazia a menor ideia do que encontraria atrás dela. Uma rua tranquila? Estaria no décimo andar? Uma avenida tumultuada? Carros? Continuou suando: “meu pai vai me matar”. Olhou para a televisão com os olhos cheios de água. “O que eu faço? Diz! Diz o que é que eu faço?!” Caiu no chão implorando uma resposta. Foi a primeira vez que fez uma pergunta.

Estava todo encolhido, as lágrimas se misturavam com o que escorria do nariz, e tudo isso se misturava com a saliva que escapava de sua boca. Foi desse jeito que se levantou e, com muita dor – seu corpo todo doía – arrancou a televisão da parede e a atirou no chão. Aquele barulho seguiu um minuto de silêncio. Sem referência nenhuma, sentia o corpo pulsar.

Assustou-se com a volta dos murros na porta. Foi doloroso o caminhar até a janela. Mexeu no gancho e a abriu de uma vez. Esticou os braços e espalmou as mãos tentando impedir a passagem da luz. Não viu nada. Seu corpo frio sentiu o toque do sol. Percebeu cheiros verdes e irreconhecíveis ruídos. Notou sombras castanhas e pressentiu perigos. Abriu seus olhos o quanto pôde e procurou pelas antigas imagens. Nada. Olhou para a televisão estilhaçada, sentiu uma angústia sem tamanho. Sabia que precisava pular aquela janela. E o fez.

 

 

Soul

Soul

Sou o casal que transa discretamente no sofá da sala.

Sem estardalhaços, sem a pirotecnia sexual vendida por aí, um chocolate que derrete silenciosamente na boca.

Sou os corpos suados que se movimentam, o cheiro inconfundível da pele, a respiração de um no ouvido do outro.

Até penso que o sofá não é meu, que o apartamento não é meu e que o casal não sou eu. Os sonhos são assim. Parece que aquela cena não tem nada a ver comigo e que fui parar ali por acaso. Tento sair antes que eles me vejam, mas quanto mais tento me retirar, mais caio para dentro do apartamento. Vou para a cozinha, para o corredor, vejo as portas dos quartos. Deve ter criança dormindo.

Sou dois corpos, de tão juntos, de tão ritmados, um. Derreteram-se um no outro.

É um apartamento legal, desses de adulto. Antes de ver o casal, eu estava numa quitinete, num hotel barato que literalmente caía aos pedaços. Até que os vi por uma fresta e pumba, fui parar ali com eles. Desconfiei que o homem tivesse me visto. Não queria atrapalhar aquela intimidade.

Sou a mulher e sou o homem. Eu precisava ter peito e precisava ter pinto.

O chão era de madeira e o ar era leve. Senti-me segura. Como se ali eu pudesse me recuperar dos assombros do hotel que desabava. Aquele labirinto de pequenos apartamentos, em que eu me perdia, procurando por afeto, mas onde a única coisa que encontrava era um fluxo insuportável de emoções líquidas e energias caóticas que passava por mim de tempos em tempos. Como uma onda que se agigantasse na minha frente e estourasse dentro de mim. Agora, eu não procurava mais.

Sou aquele sexo tranquilo. Sou os tamanhos que aumentam, os líquidos que escorrem. Nada me vem de fora.

Uma das portas do corredor estava entreaberta, era a do quarto do casal. A cama era grande, alta como a de um hotel cinco estrelas. Dois abajures elegantes e azuis estavam acesos num jogo de luz afetuoso. Havia seis travesseiros. Fiquei com vontade de sentir todos ao mesmo tempo.

Sou o peito na boca. A mão na bunda. A respiração suspensa que volta e murmura prazer.

Vi a camisola azul com flores vermelhas estendida na cama. Tirei a roupa que me humilhava. Fui para o banheiro do quarto com o cabelo preso num coque alto. Ali tinha uma vela cheirando macio. Arrisquei-me e entrei no chuveiro. O toque forte da água em meu ombro levou qualquer resquício de medo. Depois, me senti valiosa com a camisola da moça.

Sou o gozo discreto. Sou o casal que transa sem acordar as crianças.

Sentei na cama e meus pés saíram do chão. Fui sugada pelo edredom reconfortante. Apaguei, como nunca.

Coisa de Rua

Coisa de Rua

Ela queria me matar. Mas por que diabos? Eu tinha ficado com o carinha dela numa festa. Mas nem sabia que o carinha era dela. E lá precisa querer matar alguém por causa disso? Eu estava meio bêbada quando nos beijamos sentados no chão, encostados em um muro. E a gente até riu, porque aquele beijo nem tinha tanto a ver com a gente. Foi quase uma brincadeira. Nem demos o segundo beijo. Acho. Até que ele beija bem, quem diria! Tão brincalhão que era, nem parecia um cara que beijava bem. Daí, por causa disso, querer me matar? Toma o carinha de volta. Nem sabia que ela era a fim dele. Vai ver era um amor secreto. Desses que a pessoa não fala: “ele é meu”. Se bem que ela nunca foi de alimentar amor platônico… Sempre foi de deixar a vida correr em seu fluxo mais natural. Quer me matar mesmo? Ela acha que todos os beijos do mundo são dela. Mas eu também quero. Ainda mais um beijo gostoso desses. Com esse sorrisão lindo que ele tem. Fiquei sabendo da ameaça pelo boato que corre na rua. Por essas coisas de bairro. Tem coisa que é de bairro. De rua. Coisa boa essa coisa de rua.

Tudo acontece na rua, de beijo à ameaça de morte. Aí ela estava sentada numa escada de cimento, à noite, loira e ameaçadora com as amigas em volta. Nem veio falar comigo. Mandou recado. Nunca acreditei em recado. Eu ia ficar por ali. Não ia me trancar em casa e deixar de viver o que só poderia ser vivido naquela noite de sexta-feira. Ela não veio. Ficou naquela. Se bobear beijo de novo. Vai ver, nem é verdade essa história. Deve ser outra que tá a fim dele. Mas como vou adivinhar? Se ninguém vier falar comigo, fico com ele de novo. Acho que ele vai querer. Alguém veio me falar: “ela tá a fim dele”. Fui lá então, falar com ela. Tava chorando. Droga. Ficou magoada com o beijo. “Foi mal, eu não sabia”. “Sabia sim, lembra daquele dia, eu falei, todo mundo sabe”. Enxugando as lágrimas. Putz, não lembrava mesmo. Por que diabos eu fui perguntar? Agora não posso mais ficar com ele. Vão dizer que sou traíra. Quem sabe escondido. Ah, deixa pra lá. Ele nem é tudo isso. Só se ele quiser muito e se a gente for mega cúmplices e fizer tudo escondido. Acho que não vai rolar. Ai que saco. Tinha que chorar? Ok, vamos beber mais uma e ver o que rola. A gente nem é tão amiga assim.

Coisa Nenhuma

Coisa Nenhuma

Hoje vi uma mocinha passeando com o cachorro na rua. Estava milimetricamente desencanadamente vestida – elas gostam de estar lindas sem parecer ter tido trabalho para isso. Fazia pose, parecia perseguida por algum paparazzi. Vi a moça por poucos segundos e pensei: ela pressente que algo muito grande acontecerá com ela – e a qualquer momento. Ri em deboche. Censurei-me: “Talvez não, talvez ela viva a grande aventura que espera”. O celular tocou. Vi que era o Arthur, mas resolvi não atender dirigindo. Logo veio a mensagem: “Você pode buscar o Pedro? Tenho uma reunião às 11h”. Isso só podia ser um sinal de que a grande aventura não existe. No semáforo escrevi: “Ok, mas hoje ele dorme com você, tenho compromisso”. Só que não tenho.

Não sei o que vou fazer: talvez um vinho, ouvir um jazz, pensar na vida. Meia hora fazendo isso seria o suficiente. E depois? Posso me angustiar e demorar a dormir. Nem pensar. Preciso de alguém hoje. Minhas amigas e amigos são dele também. Não dá, não estou a fim de falar da separação. Droga, vim parar nessa cidade por causa dele. Estacionei. Procurei um batom na bolsa. Peguei o vermelho esquecido em algum bolsinho. Não se pode conseguir nada com um batom nude. Desci do carro como se algum paparazzi estivesse por ali. Parece que esse moço bonito está olhando para mim: “Bom dia, senhora”. Também, 43 anos, já era hora de ter colocado um Botox. Suspirei. Não me abati até agora e já são 8:30h da manhã. Hoje não vou chorar. Hoje farei alguma coisa.

Se nada der certo, irei ao cinema, verei um filme sobre alguém que vive uma grande aventura. Aí dormirei tranquila e cheia de esperança besta. Ou, como última opção, vou ler um livro e dormir sem esperança nenhuma. Talvez seja melhor ficar com o Pedro. Não, o Pedro hoje não. Arthur folgado! Lógico que ele estaria com alguém dez anos mais nova que eu e, naturalmente, dez anos mais bonita. Mas não vou entrar nessa, essa fase já foi. Já foi. Vida que segue. Logo ele cansa dela. Aposto! Tão nova! Não importa! Tô bem linda com 43, só falta o Botox. E se eu entrasse num site de encontros? Agora, no trabalho, não dá. Imagina! Como última alternativa, à noite entrarei num site de encontros. Aí já não estarei sozinha. Já não terei que falar em separação. Posso viver uma aventura. Mas não posso deixar rastros no computador, vai que o Pedro vê. O computador é mais dele que meu. Complicou.

O que é meu, afinal? O que é mais meu que de qualquer um? Nem posso ter um cachorro. Odeio cachorro.  Do que eu gosto? Caminhada? Isso, fazer uma caminhada! Coisa de velha. Sempre achei a frase “fazer uma caminhada” coisa de velha. Mas o fim de tarde é lindo nessa cidade. Farei uma caminhada. Quem sabe eu venha a gostar. Quem sabe a caminhada se transforme num encontro interessante ou numa grande aventura. Que ideia, eu mesma não desisti. Grande aventura, coisa nenhuma. Só quero fazer algo que eu goste, com alguém que eu queira encontrar. Esse alguém não existe. Como posso estar sem uma amiga? Como isso aconteceu? Casamento dá nisso? Filhos? Será? E se eu fechar os olhos e imaginar o que eu quero fazer hoje: não sei.

Fiquei parada na frente do computador. Senti uma coisa estranha na hora de respirar, como uma leve falta de ar. Tentei respirar calmamente. Achei estranho. Pensei em levantar para pegar uma água. Não consegui. O coração disparou. Voltou ao normal. Disparou de novo. Respirei. Abri o Google. O mundo está a minha frente e não sei o que procurar. Atualizei a página. Não há conexão com a internet. Não há conexão.

Não consegui procurar nada. Não consigo fazer nada. Melhor ficar com meu filho, que me dá o que fazer. Mas não quero. Vou ligar para minha mãe. Isso pode ser bom, mas não quero desapontá-la, não quero ouvi-la falar sobre minha separação. Não quero! O que posso fazer sem ninguém? Vontade de ir para a cama chorar. Mas hoje eu não quero nem isso. São 9h da manhã. Hoje eu só queria alguém que me dissesse o que fazer.

Estranhos

Estranhos

Lembro que ele disse que queria me conhecer. Estávamos numa praça lotada, eu prestava muita atenção ao telão onde passava a votação dos congressistas que tirariam Collor de Mello da Presidência. Eu tinha 16 anos. No momento da decisão final, em que eclodiram gritos e pulos de alegria, ele perguntou se poderia me conhecer. Eu, que ainda não sabia falar não para quase nada, respondi sim. No mesmo momento ele me abraçou, me levantou e começou a girar. Colocou-me no chão e sumiu na multidão. Nunca mais esqueci.

Lembro que eu subi nos ombros dele e vi o show do alto. Era do Guns N’Roses. Estava chovendo e eu estava em transe. De olhos fechados, cantando e dançando. Até que vi esse moço olhando para mim. Ele apontava para si mesmo. Não entendi. Ele veio mais perto, se abaixou um pouco e eu subi nos seus ombros. Vi November Rain do alto. Depois não sei onde ele foi parar, devo ter procurado. Nunca mais esqueci.

Lembro que ele me disse que eu parecia a sereia do Splash – e eu acreditei. Foi quando dei meu primeiro beijo, numa cidade que não era a minha. Aconteceu porque ele me pegou de surpresa. Se tivesse tido qualquer cerimônia, eu teria fugido. Foi no meio da rua e, para falar a verdade, eu nem senti. Somente quando já estávamos encostados num carro, embaixo de uma árvore, bem no escuro, eu comecei a sentir: a mão dele na minha cintura, a língua, a respiração. Foi aí que ele falou que eu parecia a tal sereia. Nunca mais nos vimos. Nunca mais esqueci.

Lembro que ele me disse que eu era do século XVIII. Eu estava num Congresso, na fila para comprar cerveja. Estava naquela idade em que a gente olha para todo mundo e quer que todo mundo olhe para a gente. Ele surgiu não sei de onde. Era bonito, mas baixo demais. Achei que fosse perguntar meu nome, falar que me conhecia de algum lugar ou tentar furar a fila. Mas ele falou “você é do século XVIII”. Fiquei sem argumento. “Poderia eu ter sido uma inconfidente ou ter tomado a Bastilha? Teria sido homem?”. Antes que eu respirasse ele sumiu. Nunca mais esqueci.

Escape

Escape

Morgana se olhou no espelho. Ajeitou alguns fios de cabelo para que ficassem uniformemente presos em seu coque baixo. Olhou para a boca avermelhada pelo batom e passou a língua nos lábios, como quem saboreia o resto de uma calda. Depois, passou um tempo mirando seus olhos. Sentiu-se sobrevivente de seus quarenta anos de casada – que seriam comemorados naquela noite. Ulisses estava no primeiro andar do apartamento, bebendo algum uísque que não tinha dinheiro para pagar. Ela deu um último suspiro, olhando para o espelho, e se levantou. Precisava encarar aquela noite. Foi para a cozinha verificar se estava tudo encaminhado. Queria que a festa corresse normalmente. Serviu-se de uma taça de espumante e deu um gole fechando os olhos, sentindo, por um momento, o líquido gelado e efervescente em sua boca. Foi para a sala como um lutador que adentra o ringue. Sentou-se numa poltrona de um amarelo suave. Ele estava num banco mais alto, logo atrás. Estavam sem conversar há três dias, ela não sabia o motivo. Morgana já não se descabelava com as oscilações de humor dele.

A voz forte de Ulisses perguntou se a irmã dela e o marido viriam, ela respondeu que sim. “Comunista filho da puta”, ele disse. “Vai começar o desfiladeiro de obscenidades”, pensou Morgana sorvendo mais um gole. “Comunista que bebe uísque e que mama nas tetas do Estado…”. O interfone interrompeu. Chegou a primeira convidada, Alice, uma amiga da anfitriã da época da faculdade. Disse baixinho no ouvido de Morgana enquanto a abraçava: “essa noite eu tinha que ser a primeira”. Morgana deu um sorriso para acalmar a amiga. Abraçaram-se novamente. Ulisses não se levantou, como sempre. Sentaram-se os três e Alice os parabenizou pelos anos de casados: “algo tão raro e difícil nos dias de hoje”. Ulisses retrucou: “Não é tão difícil assim”. Alice não tinha se casado e Ulisses a chamava de “tia” quando ela não estava. “Não é tão difícil com uma mulher como ela”, completou Alice. Todos concordaram sorrindo. Daí em diante, os convidados começaram a chegar.

Fazia anos que Morgana não suportava os amigos dele. Sempre muito cordial, preferia sorrir a dizer o que realmente pensava sobre os assuntos conversados. Não precisava dissimular por muito tempo, já que as mulheres desses maridos, entre as quais se esperava que ela estivesse, sentavam um pouco afastadas dos homens. Morgana nunca entendeu como não se desenvolvia um assunto ali. Ela se esforçava para sorrir entre as mulheres, mas o tédio quase a impedia.

Ulisses, curiosamente, passava mais tempo com os amigos dela que com os dele. Era com eles que se embebedava e chegava ao fim da festa. Conversavam especialmente sobre política. Ele não xingava ninguém de comunista filho da puta – só para Morgana ele fazia isso – mas falava mais alto e tinha um tom ameaçador ao emitir sua opinião. Morgana sempre procurava abrandar as discussões, servindo algo para comer, tentando inserir outros pequenos assuntos na conversa. Não se metia a discutir política, mas amava ouvir seu cunhado falar. Com sua irmã, nunca faltava assunto e afeto, muito embora ela não fizesse ideia do que se passaria naquela noite.

Morgana conversava com ela quando Ulisses disse alto: “Atenção, atenção! Eu quero dizer algumas palavras sobre o motivo disso tudo: não sou eu, nem nosso casamento, é ela!”. Estendeu a mão na direção de Morgana: “Vem cá!”. Ela não se mexeu, ele repetiu “vem cá!”, agora num tom incisivo que foi amenizado pelos convidados que corroboravam para que ela fosse até o marido. As pernas e o sorriso de Morgana fraquejaram quando ela imaginou que ele soubesse alguma coisa. Foi ele quem caminhou e retirou do bolso uma caixa pequena: “para o grande amor de minha vida”. O medo transformou-se em incredulidade e o sorriso continuou ausente. Achou vulgar ser presenteada em público. Abriu envergonhada a caixa que continha um anel de rubi. “Como ele pagou por isso?” – foi o primeiro pensamento dela. Imediatamente, foi desafiada pelo coro: “Discurso, discurso!”. Ao dar mais um gole em sua bebida, percebeu que estava com a mão trêmula. Tinha que falar alguma coisa, qualquer coisa. Em meio a um branco, enxergou apenas seu marido. Com a joia no dedo, apoiou suavemente a mão no rosto dele, e disse: “Obrigada”. Sorriu. O lábio superior tremeu levemente.

Ele dormiu bêbado, do modo como ela esperava. Dessa vez, ela não vestiu a camisola, nem tirou a maquiagem. Foi para o closet e retirou lá do alto uma mala que já estava pronta. Olhou para ele e não sentiu vontade de ficar. Deixou sobre o criado mudo um bilhete: “Ulisses: um de nós teria que ter coragem. Nos poupo de explicações desnecessárias. Por favor, aguarde que eu contarei aos mais próximos. Morgana”. Abriu a porta do quarto silenciosamente. Foi descendo as escadas com a bolsa no ombro e a mala nas mãos. Ouvia cada respiração e cada barulho de suas passadas. Lembrou-se de seu pai dizendo que era bobagem uma mulher querer viver sozinha. Foi a primeira vez que os olhos se encheram de lágrimas. Pensou no filho, que tantas vezes dissera para ela se separar. Sorriu enquanto chorava. Abriu a porta do apartamento e daí em diante tomou fôlego. Alice a esperava e a deixaria em um hotel. No carro, Morgana observava a noite, mal ouvia o que sua amiga falava, apenas respirava tranquila com um sorriso na ponta dos lábios.

Glorious Feeling

Glorious Feeling

Heitor saiu do banho, enxugou-se e nem se olhou no espelho. Ele não costumava se olhar no espelho. Espirrou o desodorante. Era o único produto em cima de sua pia, além da pasta e escova de dentes. Saiu do banheiro e abriu a porta do guarda roupa. Somente camisas claras de manga curta e com bolso – onde ele costumava guardar o maço de cigarros. Vestiu uma camisa, bermuda, chinelos e foi ler seu livro. Estava com 65 anos. Vivia separado de sua esposa e tinha duas filhas. Morava sozinho. Sua casa tinha apenas o essencial: sofá, mesa, cadeiras, televisão. Nenhum objeto de decoração, nenhum vaso ou quadro. Tinha uma estante de livros. Passava boa parte de seu tempo lendo. Na cabeceira da mesa de jantar ficava a obra em leitura. Sentou-se. Em cima da mesa, estava um colar de pedras azuis que sua filha havia esquecido. Conversou com ela algumas vezes ao telefone, mas nada dissera sobre o colar. Pensou que era preguiça de falar. Heitor não sabia se estava entediado ou deprimido, mas andava economizando saliva. Não tinha paciência com as pessoas, ultimamente, elas o enfadavam.

Enquanto lia, ficou mexendo nas pedras do colar, como das últimas vezes. Mas, dessa vez, ele focou o objeto enroscado em seus dedos. Reparou no contraste do azul com sua pele. Foi sem pensar que ele se levantou e foi com o colar para o banheiro. Parou em frente ao espelho. Segurando pelas extremidades, apoiou o colar em seu pescoço, mas o colarinho da camisa atrapalhou. Abriu alguns botões, depois todos, e tirou a camisa. Subiu o adereço do peito ao colo e sentiu as pedras geladas. Realinhou seu corpo e se observou no espelho. Trancou a porta rapidamente. Lembrou de quando estava no auge da puberdade. Riu de si mesmo, “nada disso faz sentido”. Manteve a porta trancada e tentou fechar o colar na nuca. Percebeu que não tinha a menor habilidade para isso. “O que estou fazendo, afinal?”. Deixou o colar sobre a pia e voltou para o seu livro. Leu meia página, seu olhar vagueou pelas letras. Leu mais uma página e meia. Voltou ao banheiro. Queria fechar aquele gancho. Tentou de todas as maneiras, até que, “clic”, conseguiu. Sentiu o peso das pedras. Viu-se iluminado e sentiu-se mais moço. Virou-se de um lado, do outro. Contemplou-se. Achou aquilo insólito e resolveu retirar o penduricalho.

Não conseguiu na primeira tentativa, nem na segunda, nem na terceira. Sentiu um frio na barriga, imaginando se alguém aparecesse por ali. Lembrou-se de que quase nunca recebia visitas e que, ainda assim, o telefone tocaria antes, bastava não atender. Novamente, sentiu-se mais jovem. “Mas que ideia”, disse baixinho. Levantou o olhar para o espelho e sorriu um sorriso novo, apertando os lábios. Abriu a torneira, molhou as mãos e as passou pelos cabelos lentamente, deixando seus fios mais escuros, mais molhados e esticados para trás. Fazia tempo que não se olhava com interesse. Pegou a toalha de banho branca e enrolou na cintura. Depois, enrolou-a um pouco mais acima, na altura do peito. Ele precisava de seus braços e mãos para que ela não caísse. Com esse traje, foi dar uma volta pela casa: “com duas filhas, pode haver mais alguma coisa esquecida”. Foi na área de serviço que encontrou um casaquinho vermelho e uma sombrinha, deixados pela faxineira.

Voltou para o banheiro com as peças. O casaco vestiu apertado e torto em seus braços. Não importava, o vermelho e o azul das pedras mexeram com ele. Abriu a sombrinha, mas ela mal cabia naquele espaço. Começou a andar pela casa cantando lentamente: “I’m singing in the rain, just singing’ in the rain, what a glorious feeling, I’m happy again…”. Lembrou-se do filme Laranja Mecânica e pensou: “enlouqueci de vez e nem matei ninguém”. Assoviou, como no filme. Continuou deslizando e cantarolando pela sala até que as lágrimas apareceram. Repetiu algumas vezes: “I’m happy again…”. Sentou-se no sofá, “I’m happy again”. Deixou-se chorar, apenas. Deitou e foi se encolhendo, juntou os joelhos ao peito, manteve as mãos nos olhos. Tudo ficou escuro e ele permaneceu em silêncio, por um minuto. Tremeu algumas vezes e sentiu a ponta dos dedos formigar. Ateve-se à respiração. Sentiu-se acolhido pelo casaco vermelho. Acalmou-se. Voltou a sentar-se vagarosamente e, com a palma da mão virada para fora, enxugou as suas lágrimas.

Ao se levantar, estava mais leve. Mexeu os dedos dos pés e das mãos. Jogou o pescoço para trás e girou a cabeça de um lado para outro. Tudo parecia estar ali. Respirou fundo. Esticou uma das pernas à frente e começou a caminhar, apoiando, não os calcanhares, mas a ponta dos pés. Sentiu a propulsão de seu corpo. Notou a força que fazia na panturrilha e, para se equilibrar, teve de prender a barriga. Tentou caminhar apoiando um pé na frente do outro: “andar de pernas abertas, nem pensar!”. As mãos foram parar na cintura. No início, ele mal respirava, depois foi ajustando a respiração aos novos passos. Deixou de olhar para os pés. Aquela imagem já não lhe agradava. Mirou um ponto qualquer na parede. E foi assim que ele chegou ao seu lugar preferido da casa, a cabeceira da mesa de jantar. Arrastou a cadeira antes de sentar-se, precisava de espaço. Foi se sentando devagar com as pernas próximas uma da outra. Voltou a ler o livro. Dessa vez, não prestou tanta atenção aos personagens, estava muito ocupado com seus próprios movimentos.

 

Brincando de rimar

Brincando de rimar

Era madrugada

Eu estava calada

Deitada e pelada

Me sentido amada

Mesmo com a palmada

 

Já estava viciada

Em ser maltratada

 

A noite estava estrelada

Bem ventilada

O vento trouxe uma fada

Meio azulada

 

Pensei estar pirada

Joguei uma almofada

Na fada penteada

 

Ela disse: “desmiolada!

Para de ser alienada!

Pega sua estrada!

Segue a lua prateada!”

 

Achei que era piada

Da fada emaconhada

 

Ainda ouvi da safada:

“Você está enrolada

Ouve a minha chamada”

 

Fiquei encafifada

Depois emocionada

Com a fada bem intencionada

Comigo tão preocupada

 

Juntei a papelada

Me senti empoderada 

Uma mulher emancipada

 

Fui para a calçada

Percebi que a vida é nada

Sem a gente ser amada

Confinamento

Confinamento

Eram nove horas. Ele disse que chegaria às oito. Ela já tinha acendido dois cigarros, estava fumando o último deles na janela. Pensou que poderia ligar para alguém, talvez para uma amiga que adorava beber chope às sextas. Pegou o celular, passou pelos contatos devagar, abrindo alguns deles. Ligou para ele novamente, e nada. Voltou para a agenda e rolou de A a Z. Antes de desistir, parou no nome dele, “só mais uma vez”, pensou. Nada. 

Foi novamente se olhar no espelho. Levantou a blusa e ajeitou os seios pequenos no sutiã de bojo rosa que havia comprado. Ele deixava sua blusa com mais volume, ela gostava. Se achou tão linda. A calcinha combinava. Ela procurou um brinco mais bonito. Ficou experimentando um após o outro na frente do espelho. Até que arremessou um deles na parede. Olhou de novo no celular. Acendeu mais um cigarro na janela. Se sentia presa naquela quitinete. Não tinha nada para beber.

Sua garganta parecia fechada, como se houvesse um nó enorme ali. Pensou em descer, comprar uma cerveja, mas estava tão sem dinheiro. A garganta fechou mais ainda. Piscou seus olhos e vazaram duas, quatro ou seis lágrimas. Derramou-se no chão e ficou ali por um tempo.

Levantou e se olhou longamente no pequeno espelho do banheiro. Primeiro viu beleza em sua tristeza. Seus olhos ficavam ainda mais claros e sua boca avermelhada. Parecia uma princesa. Depois, continuou se olhando e não se reconheceu mais. Aquele corpo não parecia seu. Por um segundo sentiu tudo girar.

Olhou no relógio, quase dez horas. Teve vontade de explodir. Se jogou na cama. Não cabia mais angústia dentro dela. Não sabia o que fazer. Quanto mais chorava, menos sentia seu corpo e mais sua cabeça pesava e girava. Chorou tanto que a janela saiu do lugar. O teto também se moveu.

Virou-se de lado e sentou-se lentamente. Segurou o telefone. Previu que ele não atenderia e sentiu medo do vazio. Pensou em abrir a mão e deixar o celular cair no chão. Pensou em deitar e ficar ali até dormir. Não conseguiu.

Ligou. Nada. Largou o telefone no chão e nem pensou em gritar. Correu três passos até a janela. Apoiou um pé e as duas mãos no parapeito. Bastou um impulso para seu corpo explodir no ar quente daquela noite.

Voltas Femininas

Voltas Femininas

Luiza fez psicologia, mas não virou psicóloga. Era sensível demais para ouvir, apenas. Ela tinha que fotografar a dor, o suor, a persistência, o grito e a lágrima da mãe tendo filho. Não há Freud neste mundo que tenha visto tanto homem impotente. Luiza focaliza mulheres parindo famílias inteiras.

Isabela duvidava que seria amada por um homem em sua vida. Aos 29 tinha doutorado. Cansou de escrever monografia, dissertação, tese e artigo. Queria mais afeto em sua vida. Casou e teve dois meninos. Teve também uma crise de ansiedade. Começou a decifrar os sonhos que tumultuavam suas noites. Agora, Isabela escreve absolutamente o que quer, e é incansavelmente amada por três.

Patrícia, filha de militar. Quando percebeu que não precisava agradar ninguém, mas apenas amar suas filhas, largou o emprego, engordou e ficou leve. De tanto querer bem, passou a costurar e a cozinhar. Montou dois negócios e passou os dois para frente. Farinhas e linhas não eram seu sonho. Continuou sendo mãe e revirando seu avesso. Encontrou o que estava bem ali. Hoje, Patrícia ajuda outras mulheres a viverem a maternidade.

Luciana perdeu sua mãe aos 17 e passou a amar seu pai em dobro. Estudou direito e aos 30 chefiava 15 advogados. Tomou um susto quando descobriu pressão alta aos 35. Pensou no que realmente queria da vida. Foi parar num banco de esperma. Pediu demissão. Comprou uma casa – perto da casa de seu pai. Luciana não tem respondido a nenhum WhatsApp. Está muito ocupada com as gêmeas.

Mariana estudou letras, fez doutorado, foi para o exterior. Era uma funcionária pública estável quando perdeu o fôlego perdendo seu filho. De seu pensamento fecundo brotaram duas meninas e a instável felicidade de escrever e ensinar.  Ela também começou a nadar. Mariana pode atravessar o oceano e dar a volta ao mundo fazendo apenas o que gosta.