Destacado

Não tenho compromisso com a teoria psicanalítica. Tenho compromisso com a psicoterapia, como paciente. No momento mais difícil da análise, comecei a escrever. Na semana mais difícil, li a dissertação de mestrado da minha psicóloga, à revelia dela. Tudo o que está escrito aqui são interpretações minhas, sujeitas a outras interpretações, de vocês. Minha matéria prima é a angústia. O que busco? Meu próprio desejo.
Mas por que colocar vocês no meio disso? Por acreditar que essa busca é de todos nós, e por acreditar que podemos trocar algo nessa travessia.

Meu Pequeno Grande

Meu Pequeno Grande

Dois dias antes de o Maurício nascer, Inácio dormiu comigo sentado no sofá, abraçado, bochecha com bochecha. Imaginei que seria um sinal, talvez, de que o bebê nasceria em breve – o que não era tão difícil de prever. Em sua primeira visita na maternidade ele me olhou longamente, de um jeito completamente novo, e talvez único (espero nunca me esquecer). Eu só consegui olhar para ele olhando para mim, sem entender exatamente o que ele queria dizer. Depois de dois dias imersa na dimensão do nascimento de um filho, voltei para casa. E aí foi meu olhar que se transformou: mas que grande Inácio está! Que pele diferente. Quanto cabelo! O tato, não me lembro desse toque… E como devo agir? Me sinto angustiada. O que foi que aconteceu? Sofri por um dia a sensação de que nada será como antes. Pensei que aquele dormir abraçado foi a despedida de uma era em que vivemos nós três. Vou sentir saudade, vou sim. Curioso como até as melhores mudanças trazem uma sensação de perda. Foi um dia estranho. Agora, estamos juntos, nos acostumando aos novos olhares, cheiros e sons, e digo, estamos indo muito bem em nossa nova aventura.

O Negócio do Parto

O Negócio do Parto

Escrevi sobre a entrega do parto normal mas muito rapidamente me entreguei à cesárea. De um lado a médica, de outro a doula. Em meio à noite, ao líquido escorrendo, às contrações, em meio ao frio, no meio de um “não aguento mais”, de um “vamos resolver logo”, de um medo do desconhecido que seria a espera, em meio à falta de garantias, em meio a isso e mais um pouco, pendi para um lado, precisando muito da força do outro. Pois bem, fui feliz para a cesárea. A doula segurando minha mão, o marido ali presente e… Nosso filho nasceu! Está tudo bem com ele? Sim, está tudo bem! E dra., tudo bem aí embaixo? Aqui? Tudo ótimo! Assim fui para a recuperação me recuperar super bem. Eu estava tão feliz! Feliz inclusive com a cirurgia. Decisão certa. Está tudo bem! Olha como ele é lindo! Que delícia. Mas aí… Me levaram para o quarto. Um quarto quadrado. Fiquei ali dois dias e meio. Sem ver a luz do sol. Mais de 48h no ar condicionado. Depois de 24h virei uma leoa. Presa. Pense. Uma vontade de pegar meu filho e sair por aí! Mostrar para ele o mundo que eu queria mostrar para ele – e que não tinha nada a ver com aquele quarto feio. Mas eu estava ali. Pessoas entrando de 20 em 20 minutos, inclusive durante a noite, para dar remédios (eu não poderia tomá-los em casa?), para dar banho em mim (meu marido faria isso muito bem!), para dar banho no meu filho (não importava se ele estivesse dormindo ou no peito), para fazer testes (não podemos fazer isso depois?), inclusive para tocar um agogô no ouvido dele e dizer que a audição dele está ok. Como assim? Que teste é esse? Ah, e para colocar termômetro no meu sovaco, hahaha, putz. Nada que eu via fazia sentido. E foi aí, somente aí, que entendi porque as pessoas querem parto normal em casa. Antes o problema fosse a cesárea! Mas é um pacote. Um pacote que te persegue até a saída da maternidade. O dia da alta não passava. Conseguimos ser liberados somente depois das 15h, eu finalmente estava pronta para pegá-lo no colo e sair correndo!! Mas não… O protocolo é ele sair dentro de um berço de plástico carregado por uma funcionária. E na porta do elevador ela diz: o quartinho está esperando por ele? Não, quem o espera é a avó e o irmão. Não vale a pena mencionar tudo, o texto ficaria tão enfadonho quanto o quarto. Mas saí de lá compreendendo muito as mulheres que têm seus filhos em casa, e que depois do nascimento se jogam na cama, em família.

À Luz

À Luz

O mundo (e seus profissionais, claro) estão me fazendo entender que: 1) eu sou um ser humano e 2) eu preciso sonhar. E meu dilema atual é: vou conseguir me deixar levar pelo trabalho de parto? Vou conseguir racionalizar menos? Como não, se é como ser essencialmente natural que existo? O problema foi que em algum momento entendi que o ser natural implica um ser social, e que este implica um ser racional. E aí, não sei bem quando, de que forma e a partir do que foi se tornando tão raro entregar-me à natureza, aos sentidos, ao que seja. E agora, diante de um parto, vejo que quase tudo se resume a essa entrega. Nem gostava da expressão parir – não parece coisa de animal? Pois é, agora ela já me desce melhor. Progressos. Mas olha, confesso que preciso de alguns profissionais que me ajudem a racionalizar menos, veja só! Que me ajudem a entregar-me à natureza, veja quanta ironia! O natural apreendido por meio de um saber socialmente construído. Um monte de gente estudando um monte de coisa para entender isso, psiquiatras, psicólogos, e um monte de novas ocupações surgindo, como a de doula – é a que me vem à mente. Sim, eu tenho uma doula para chamar de minha. E mais um monte de gente, como eu, precisando muito desses profissionais! Que assim seja, que os fins justifiquem os meios, e que a gente consiga sonhar e sentir de dentro para fora. Que a gente volte a conseguir parir.

Pequenas Mudanças

Pequenas Mudanças

Nos últimos tempos, tornou-se insuportável:

Ouvir música que toca na rádio há 20 anos.

Ouvir música que eu gostava, há 20 anos.

Tentar manter o mesmo cabelo de, digamos, 20 anos atrás.

Ter o mesmo gosto, preferências e paladares de mil anos atrás.

As mesmas roupas, os mesmos tabus, os mesmos sins e os mesmos nãos.

Ver na televisão programas que não me dizem respeito.

Repetir o “desde sempre”, o mesmo “eu sou assim”.

Tornou-se insuportável sonhar sonhos que não são meus.

Mas e aí, o que aconteceu? Ah, comecei a ouvir música clássica e jazz, mesmo sem entender nada de música clássica e jazz – entendi que só preciso sentir. Cortei o cabelo. Não tenho receio de parecer isso ou aquilo. Troquei a TV antes de dormir pelo carinho. Pelo tato. Pelo cheiro. Pelo corpo. Pela música. Pelo silêncio.

Até troquei a ansiedade do meio da noite pelo sono.

Tranquila

Tranquila

De repente, nem tão de repente assim, parece que encontrei o caminho. Aquele que nada tem a ver com estereótipos, com aquilo que as pessoas esperam, que nada tem a ver com uma linha reta. Porque a gente precisa do vai e vem, precisa experimentar para perceber o que realmente que faz sentido. Aquilo que nos interessa. E os projetos de vida vão aparecendo: partir da fala, da introspecção, da reflexão, da observação, do incômodo, do desassossego e do enfrentamento. E agora parece que estou assim… Num mar de paz.

O Mito da Caverna

O Mito da Caverna

Já faz tempo coloquei um trecho do texto A Alegoria da Caverna (A República de Platão) nas redes sociais:

“Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente”.

Um amigo filósofo e amante da psicanálise perguntou: Platão? Eu disse que sim e, se me lembro bem, devo ter contado que estava me sentindo assim, saindo da caverna. Percebia que até então eu estava relativamente tranquila ali dentro, lidando com a sombra dos objetos e das pessoas, inclusive com sombras de mim mesma. Fantasias. Mas que naquele momento eu me sentia já liberta, saindo da caverna, me deparando com a luz que ofuscava meus olhos e que não me deixava ver nitidamente ali fora. Ainda não sabia o que me parecia mais real: as sombras que eu estava abandonando ou a realidade ainda invisível diante de mim.

Aí disse para ele que não deveria caminhar muito, porque minha psicóloga estava de férias. E ele disse: depois que começamos, não tem como parar.

O amor

O amor

O amor. Falo daquele que é bem concreto. Não daquele que a gente sente pelos passarinhos, pelo céu azul e por toda a humanidade. Mas daquele que a gente constrói com uma pessoa. Que podem ser duas, que podem ser mais. Aquele amor que dá para beijar, apertar e cheirar. Dá para olhar para ele e se emocionar – não tem coisa mais linda nesse mundo. Um amor assim só acontece quando a gente está leve – ah sim, temos que nos desvencilhar de um monte de coisa, o amor não suporta caraminholas. Ele é essencialmente descomplicado. Tá, tudo lindo, lindo mesmo, mas o que eu achei difícil nessa coisa de amar? Primeiro tive que aprender muito. Acho mesmo que a gente não nasce sabendo amar ou, se nasce, a coisa pode complicar, e a gente tem que descomplicar tudo de novo. Somente isso já é um baita percurso, muito individual e árduo. A gente aprende sozinho, curioso isso, não? Bom, aí a pessoa descomplicou, e é capaz de amar. Aí ela junta com outra – que podem ser duas, que podem ser mais – que também já sabe amar, que está preparada para a aventura mais tranquila do mundo. Sim, no começo aquilo tudo: frios e arrepios. Mas depois a vida se aquieta, inevitável. E aí vem a segunda parte difícil, que não é exatamente a falta da adrenalina e da tensão, esses vícios já cessaram. Mas o amor, o amor tem um senso de realidade muito grande. O fato de não viver em tensão e adrenalina coloca os pés da gente no chão, e aí, aí vem aprender a viver. A gente se humaniza no amor. Aprende a viver sabendo que vai morrer. Ama querendo viver. E ele te dá tudo: espaço, tempo, calma, apoio e tranquilidade para uma nova construção de prioridades, vontades e desejos. Aquele lugar que você amorosamente escolheu para viver te acolhe de um jeito e te fala, vai lá, viver de verdade! Aqui está seguro. Aí é se jogar e se multiplicar! Experimentar e arriscar. Se descobrir. Tem noção da maravilha que é isso? É o amor.

Figurantes

Figurantes

Eu estava num hall muito lindo, chique, grandioso e silencioso. Como um templo. Eu me sentei ali, fiquei observando. Havia uma fonte. Duas mulheres dançando na água. Acho que nuas, certeza que lindas. Rolavam de um lado para outro, fazendo uma performance. No começo achei bonito. Depois estranhei. Elas vão ficar dançando até quando? Para quem? Uma delas deu uma espiada, para ver se havia alguém ali. Tive a esperança de que só dançavam na presença de alguém. Mas ainda assim me incomodou ver mulheres figurando uma paisagem.